Ventura como sintoma: Psicanálise do regime político português

O que diria a psicanálise sobre a relação do “sistema com Ventura”, pergunta Guilherme Valente. Aceitemos o repto.

Um olhar psicanalítico sobre a convergência de forças tão díspares, da direita democrática à esquerda radical, passando pela comunicação social, contra a figura de André Ventura revela menos sobre o político em si do que sobre os mecanismos psíquicos coletivos que ele ativa. Não se trata de mera oposição ideológica, mas de uma reação defensiva de natureza simbólica. Ventura não funciona como adversário político clássico. Opera como sintoma, como formação de compromisso que dá expressão, de forma excessiva e distorcida, ao que a ordem política portuguesa recalcou desde o pós 25 de Abril.

Esse recalcado corresponde ao lado obscuro da democracia portuguesa: o ressentimento acumulado de quem se sentiu traído por sucessivas elites, a humilhação silenciosa de um país periférico permanentemente tutelado, a ansiedade das classes médias em declínio, a experiência difusa de desordem social e, sobretudo, o desejo inconfessado de autoridade e limite. Para que o regime se pudesse apresentar como moderado, europeu e civilizado, estes afetos foram sistematicamente expulsos do discurso legítimo. A psicanálise ensina, porém, que o recalcado não desaparece. Regressa sob a forma de sintoma. Ventura encarna esse regresso não porque introduza conteúdos inéditos, mas porque os exprime fora dos códigos de contenção simbólica que estruturam o espaço público.

Uma análise rigorosa exige, contudo, reconhecer um limite desta grelha interpretativa. Ler Ventura apenas como sintoma comporta o risco de atenuar a sua responsabilidade enquanto agente político. Há nele uma dimensão ativa e performativa que não se reduz à função de mensageiro do recalcado coletivo. Ventura não se limita a exprimir afetos latentes. Organiza-os, dramatiza-os e instrumentaliza-os, convertendo ressentimentos difusos em capital político consciente. O seu discurso não é apenas expressão. É também produção de sentido.

Este reconhecimento não invalida a leitura sintomática, mas obriga a refiná-la. Em psicanálise, o sintoma não é passivo. Possui eficácia própria e produz efeitos reais. Ventura emerge de uma crise profunda de representação, mas contribui igualmente para a sua intensificação, ao oferecer formas simplificadas e moralizadas de interpretar o mal-estar social. O problema para o regime não reside apenas no que ele revela, mas também no modo como pode cristalizar esse mal-estar numa lógica de confronto permanente, empobrecendo ainda mais o espaço simbólico comum.

Evita-se assim tanto a demonização moral como a romantização involuntária do fenómeno. Ventura não é apenas produto do sistema que o rejeita, nem ameaça externa a esse sistema. É simultaneamente efeito e causa parcial de uma dinâmica mais ampla de degradação do laço político. Por isso, a sua neutralização exclusiva através de mecanismos de exclusão simbólica revela-se insuficiente, limitando-se a gerir sintomas sem enfrentar as condições estruturais que lhes dão origem.

A reação unânime contra ele deve ser lida como defesa do superego social português, aquele que sustenta a autoimagem de um país brando, tolerante e moralmente pacificado. Esse político ameaça essa fantasia ao introduzir linguagem de conflito, distinções morais explícitas e uma lógica de amigo e inimigo que o regime aprendeu a interditar. Ao fazê-lo, rompe o pacto implícito segundo o qual tudo pode ser debatido desde que nunca se ponha em causa o quadro simbólico comum. A convergência transversal contra ele funciona, assim, como ato de expulsão. Elimina-se o elemento perturbador para preservar a ilusão de harmonia.

Para a esquerda radical, Ventura representa a negação do seu mito fundador. O pós Revolução consagrou-a como guardiã da democracia e da memória antifascista. Ventura desestabiliza esse lugar simbólico, forçando uma aliança contranatura com setores da direita que outrora eram adversários históricos. Essa união permite à esquerda reafirmar a sua identidade moral e extrair gozo do papel de última linha de defesa da democracia. Para a direita liberal e conservadora institucional, Ventura é uma vergonha de classe. Expropria o significante direita e associa-o a uma expressão popular, emocional e desprovida do verniz tecnocrático que garante respeitabilidade europeia. A convergência contra ele é, aqui, um gesto de higienização simbólica.

A comunicação social desempenha neste processo um papel central enquanto aparelho superegoico. Define os limites do dizível e do aceitável, mas Ventura transgride-os sem pedir absolvição. A sua relativa imunidade ao shaming mediático gera angústia, porque expõe a fragilidade do controlo simbólico. A cobertura unissonamente condenatória funciona como ritual de purificação. Falar deste homem exige sempre o antídoto moral, para que o próprio medium não seja contaminado pelo contacto com o discurso interdito. Trata-se de uma defesa contra a atração ambígua que ele exerce, alimentada pelo espetáculo da transgressão.

No fundo, esta convergência ampla constitui uma formação reativa coletiva. Ao unirem-se de forma exagerada contra o sintoma Ventura, estes atores demonstram, com excesso, a sua adesão aos valores democráticos, projetando nele todas as pulsões agressivas e destrutivas que existem, em estado latente, no corpo social. A fantasia inconsciente é a de que, isolando ou eliminando o sintoma, o país poderá regressar a um estado idealizado de normalidade. O que esta defesa ignora é que o sintoma só existe porque a ferida permanece aberta: crise de representação, desigualdades estruturais, perda de confiança nas instituições, esvaziamento simbólico da política.

Há na cultura portuguesa, como observa Guilherme Valente, um mecanismo identitário profundo e recorrente que ajuda a compreender esta dinâmica. Trata-se de uma relação especular com o outro que bloqueia a emulação e, com ela, o desenvolvimento individual e coletivo. O outro não é percebido como realidade concreta da qual se possa aprender, mas como superfície refletora da imagem idealizada que o país construiu de si próprio. Quando confirma essa imagem, é tolerado. Quando a contraria, o espelho torna-se intolerável e é quebrado.

É neste contexto que a figura deste político se torna particularmente perturbadora. Não porque revele algo desconhecido, mas porque devolve uma imagem que o país não quer reconhecer. A rejeição que suscita repete, no plano interno, o mesmo gesto defensivo que estrutura a nossa relação com o exterior. Em vez de corrigir a imagem, elimina-se o espelho. Ao recalcar novamente o conflito, este mecanismo não o resolve. Intensifica a pressão latente no corpo social e aumenta a probabilidade de ruturas futuras. Dispositivos externos de estabilização, como a integração europeia, funcionaram durante décadas como válvula simbólica de contenção. Não sanaram, porém, a ferida estrutural. Apenas a adiaram.

As consequências deste mecanismo estendem-se à vida cultural, educativa e cívica. Incapaz de emular o outro quando este expõe fragilidades próprias, a comunidade tende a nivelar por baixo, a suspeitar da excelência e a penalizar quem se destaca. A exigência é vivida como violência simbólica, a distinção como afronta e o mérito como ameaça à coesão narcísica do grupo. Em vez de elevar padrões, legitima-se a mediocridade como virtude moral.

Esta lógica manifesta-se também na forma como se importam sucessivos modelos externos. Discursos, pedagogias ou ideologias são adotados não como instrumentos críticos de melhoria, mas como códigos de pertença moral, aplicados de forma zelosa e acrítica. A heteronomia não desaparece. Muda apenas de rosto.

No plano cívico, esta estrutura traduz-se numa relação infantilizada com a lei. A norma não é interiorizada como dever autónomo, mas temida como imposição externa. Cumpre-se por medo, contorna-se quando possível e racionaliza-se sempre a própria transgressão. A moral permanece heterónoma e o espaço público organiza-se mais em torno de afetos tribais do que de princípios partilhados.

Historicamente, esta dificuldade em lidar com a diferença e a dissonância projeta-se em mecanismos de perseguição simbólica e purificação moral. A lógica inquisitorial, como observou José Hermano Saraiva, precede e sobrevive às suas formas institucionais. O problema não é o episódio histórico, mas a disposição psíquica que o torna possível.

Neste quadro, a rejeição violenta do espelho não é um acidente, mas um padrão. Sempre que a realidade ameaça romper a autorrepresentação coletiva, a resposta não é a transformação, mas a destruição simbólica daquilo que a revela.

Ventura não é a causa desta crise. É o seu mensageiro disfuncional. Tentando silenciá-lo, o sistema não resolve o conflito que o produziu. Empurra-o novamente para as sombras, de onde regressará sob outra forma.

Se deslocarmos, como refere Pedro Martins, a análise da clínica intrassubjetiva para o plano intersubjetivo, o 25 de Abril surge como o verdadeiro mito fundador do Portugal contemporâneo. Não apenas um acontecimento histórico, mas uma narrativa de libertação que estrutura o modo como a comunidade se pensa a si própria, define os limites do aceitável e fornece a gramática moral da democracia portuguesa.

A eventual ascensão de Ventura à Presidência da República introduziria uma ameaça de natureza distinta. Reconhecê-lo nesse lugar equivaleria a aceitá-lo como Pai da Nação. Para um coletivo cuja identidade se funda precisamente na destituição simbólica do pai autoritário, essa hipótese colocaria em causa a própria coesão psíquica do grupo. As fundações míticas do regime ficariam fragilizadas.

Nenhuma comunidade subsiste sem um mito estruturante. Ventura, porém, não oferece uma narrativa alternativa capaz de substituir a anterior. A sua função é disruptiva, não instituidora. É por isso que a sua consagração simbólica tem de ser recusada. Não tanto pelo conteúdo concreto do seu discurso, mas porque colocaria em risco o mito sobre o qual assenta a autoimagem do regime.

Vista deste ângulo, a democracia portuguesa aparece como um sistema que se libertou do pai autoritário apenas para se submeter a uma nova forma de heteronomia, mais subtil e menos nomeável. A liberdade consagrada pelo mito de Abril define-se sobretudo como libertação em relação ao pai, não como liberdade para interrogar os novos dispositivos de controlo simbólico. É esse interdito fundamental, mais do que qualquer proposta concreta, que Ventura transgride.

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