Choca-nos ouvir Trump dizer «queremos também o petróleo», «ou nós, ou os chineses e os russos». Este tipo de discurso direto sem adjetivos nem retórica vazia, incomoda-nos porque não estamos habituados. Esqueçamos a ideologia. O que aqui se revela é uma forma de dizer que expõe sem filtros aquilo que, entre nós, costuma ser cuidadosamente ocultado sob camadas de linguagem respeitável.
Um dos traços mentais portugueses mais atávicos é precisamente a verborreia, a pomposidade vazia, o resíduo barroco que persiste no plano verbal e mental. Falamos muito para ocultar o que queremos de facto dizer e alcançar. Veja-se uma tomada de posse, um discurso político de agradecimento, um pedido formal. A palavra serve menos para comunicar do que para envolver, proteger e adiar. José Cardoso Pires e Onésimo Teotónio de Almeida identificaram este vício com notável lucidez.
O barroquismo do discurso português não é um simples excesso estilístico nem uma idiossincrasia literária inofensiva. É um traço estrutural da nossa cultura intelectual, com efeitos profundos na forma como pensamos, ensinamos e exercemos autoridade simbólica. A palavra deixa de servir a ideia para passar a servir o estatuto. A ornamentação substitui o rigor conceptual. A obscuridade transforma-se em sinal de distinção. Não admira que a clareza soe tantas vezes a ingenuidade, enquanto a frase longa e solene é recebida como prova de inteligência.
Este modelo encontrou expressão particularmente acabada no chamado espírito coimbrão. Não como caricatura regional ou ataque à universidade, mas como designação de um estilo discursivo fechado sobre si mesmo, em que a retórica vale mais do que o conteúdo, a forma mais do que a verdade e a autoridade mais do que o argumento. O discurso torna-se circular e autorreferencial. Não esclarece, não decide, não assume. Envolve, adia, sugere. O barroco verbal funciona aqui como sistema de proteção, tanto para quem fala como para o grupo que o legitima.
O discurso de tomada de posse de Luís Montenegro em 2024 ilustra bem este mecanismo. «Quero saudar cada português, cada criança, cada jovem, cada adulto, cada idoso, os que vivem no continente e os que vivem nas ilhas, os que estão em Portugal e os que estão espalhados pelo mundo». Seguem-se enumerações de virtudes e promessas abstratas. Tudo é elevado, inclusivo e consensual. Nada é falso, mas quase nada é substantivo. A linguagem cumpre o ritual, mas evita o compromisso. Protege quem fala e tranquiliza quem ouve, sem esclarecer o que será feito, como e a que custo.
José Cardoso Pires captou este vício ao falar dos «lentes que penteavam parágrafos». Não era apenas ironia literária, mas crítica moral. Penteavam-se parágrafos porque já não havia ideias a endireitar. A frase tornava-se objeto de vaidade, não instrumento de verdade. Em vez de iluminar o pensamento, a linguagem passava a ocultá-lo, criando um nevoeiro respeitável onde a mediocridade podia circular com ar doutoral.
Onésimo Teotónio de Almeida apontou a raiz formativa do problema. Durante décadas, ensinou-se a escrever para impressionar avaliadores, não para comunicar ideias. A prolongar frases, não a afinar conceitos. A acumular palavras, não a ordenar argumentos. Criou-se uma cultura da prolixidade respeitável, em que dizer pouco de forma clara é suspeito, mas dizer quase nada de forma complicada é sinal de elevação.
As consequências são civis e morais. Uma cultura que teme a clareza acaba por temer a verdade. Uma linguagem que se refugia no ornamento evita o conflito real das ideias e substitui o juízo pelo prestígio. A clareza, longe de ser simplismo, é responsabilidade. O barroquismo prefere o conforto do respeitável à exigência do verdadeiro.