Os portugueses queixam-se muito, têm muitos problemas, e o principal são eles próprios. O ‘mais do mesmo’ e a eterna ‘culpa deles’ revelam um traço mais fundo do que a mera ineficácia governativa: a dificuldade em produzir mudança verdadeira. Entre nós, as transformações relevantes surgem raramente de vontade política autónoma ou de pressão cívica forte. Chegam quase sempre empurradas por constrangimentos externos e crises acumuladas. A nossa paralisia não é apenas institucional. É, antes de tudo, um modo de estar que reproduz o modelo e é por ele reproduzido.
Portugal vive há décadas este bloqueio. As grandes mudanças raramente nascem de dentro; chegam de fora. A adesão à União Europeia em 1986 e o resgate de 2011, com os 78 mil milhões da troika, são exemplos claros: reformas adiadas durante anos só avançaram quando o financiamento externo as impôs. Hoje, o investimento público depende em cerca de 90% dos fundos europeus. O país adapta-se aos prazos de Bruxelas, mas raramente gera por si um ciclo virtuoso de crescimento. Em vez de colapsar, estabiliza-se num subdesempenho crónico. Não estamos muito mal, mas nunca estamos verdadeiramente bem.
Este sistema não sobreviveria sem o cidadão que ele próprio moldou. O português típico é adaptativo: nem rebelde nem resignado, mas flexível no pior sentido. Aprende a navegar a burocracia, a contornar regras, a baixar expectativas. Não exige que o sistema melhore; pede apenas espaço para sobreviver dentro dele. A sua inteligência é prática, mas politicamente estéril.
As consequências são conhecidas. A cunha e o conhecimento certo vencem onde o mérito deveria imperar. Nas eleições vota-se raramente por um projeto; vota-se por medo ou por castigo, mais contra do que a favor.
O português mais capaz e ambicioso percebe cedo que aqui estagnará e emigra, em vez de se transformar num revoltado mudo ou num resignado lúcido. O sistema agradece. Cerca de 73% dos jovens até aos 24 anos ponderam sair. Portugal mantém uma produtividade 25 a 28% abaixo da média europeia. Os melhores partem para onde o mérito realmente paga.
Quem fica transforma-se frequentemente num cínico funcional. Conhece os vícios do sistema, denuncia-os em privado, ironiza-os em público, mas não age. Este cinismo é devastador porque legitima a estagnação com lucidez e humor. Nada o surpreende, logo nada o mobiliza.
Acresce um moralismo de baixo risco. Indignamo-nos onde não há custo real. Aquilo que criticamos, facilmente o praticaríamos se nos beneficiasse. A nossa ética é performativa, não transformadora.
Estas figuras, o adaptativo, o meritório exilado, o cínico funcional, o moralista de baixo risco, não são exceções. São produtos normais de um sistema que recompensa a adaptação, penaliza a ambição e transforma a moral em mero ornamento. O atraso português deixou de ser apenas económico ou institucional. Tornou-se antropológico.
Para romper este ciclo autorreprodutor não basta boa vontade nem consenso. É preciso criar incentivos automáticos que castiguem a adaptação e recompensem o mérito de forma visível: simplificação radical da burocracia, fiscalidade mais favorável ao trabalho qualificado e ao investimento produtivo, maior autonomia local com verdadeira responsabilização, e instituições orientadas para resultados, eficiência e criação de valor. Só mudanças institucionais duras e visíveis podem interromper o mecanismo. Sem elas, a próxima crise limitar-se-á de novo a calibrar melhor a estagnação.