quarta-feira, 22 jul. 2026

Porque não falam os políticos do principal problema de Portugal?

Entre as centenas de temas inúteis do debate político e as milhares de horas de paleio televisivo, este deveria ser um tema obrigatório no debate nacional. Contudo, continua escandalosamente ausente.

O debate político em Portugal devia focar-se no essencial: a nossa convergência com a UE. Discutir se o nosso nível de vida, produtividade e riqueza estão realmente a aproximar-se da média europeia devia ser a prioridade. Perceber o seu êxito ou fracasso permite aferir a qualidade dos sucessivos governos do PS e do PSD, mas, acima de tudo, determina se os portugueses vivem melhor ou pior.

Existe também o risco de se alimentar uma falsa propaganda: afirmar que há convergência quando, no plano factual, ela não está a acontecer. Se a convergência falha, especialmente tendo em conta o volume de fundos europeus recebidos e as reformas estruturais que deveriam ter sido transformadoras, significa que algo de profundamente errado aconteceu. Este é, sem dúvida, um dos temas que todos os partidos políticos deveriam debater e assumir como fundamental.

A convergência não é apenas um indicador matemático abstrato. É o reflexo de saber se Portugal está a conseguir transformar o projeto europeu numa realidade de prosperidade partilhada ou se vivemos num fracasso maquilhado por um discurso político enganador.

Uma tese aparentemente consensual sobre o tema diz-nos o seguinte: «Sim, estamos a convergir, mas pouco e de forma frágil.» Claro que esta não é a tese do PS ou do PSD quando estão no governo, momentos em que assumem uma convergência significativa graças às suas próprias políticas e atribuem ao adversário um sucesso menor. No entanto, uma convergência fraca e lenta implica o reconhecimento de um fracasso real e de políticas erradas, muitas vezes camuflada pelo uso habilidoso dos números.

Mas e se até a fraca convergência for um falso mito, resultante de artimanhas estatísticas que nunca são verdadeiramente confrontadas? E se a melhoria da nossa qualidade de vida for ilusória?

Os números mais frequentemente utilizados pelos governos mostram que, após a forte quebra provocada pela pandemia, Portugal recuperou algum terreno face à média da União Europeia. Em 2021, o PIB per capita português, medido em Paridade de Poder de Compra (PPC), tinha caído para 75,1% da média europeia. Em 2023, esse valor subiu para 80,5%, traduzindo uma recuperação de 3,1 pontos percentuais em apenas dois anos.

Esta melhoria resultou do facto de a economia portuguesa ter crescido acima da média europeia durante esse período. Enquanto Portugal registou um crescimento real de 2,5%, a União Europeia cresceu apenas 0,4%.

Contudo, esta recuperação revelou-se limitada. Em 2025, o PIB per capita português voltou a recuar ligeiramente, passando de 82% para 81% da média da UE. Portugal permaneceu, assim, na 18.ª posição entre os 27 Estados-membros, longe do grupo das economias mais prósperas da União.

Mais importante ainda é olhar para a tendência de longo prazo. Em 2000, o PIB per capita português representava cerca de 85% da média europeia. Um quarto de século depois, continua abaixo desse valor. Durante este período, várias economias da Europa de Leste ultrapassaram Portugal, fazendo-nos descer na hierarquia económica da União Europeia.

Por isso, embora tenham existido momentos de recuperação, os dados não permitem falar de uma convergência sustentada. Pelo contrário, mostram um percurso marcado por avanços pontuais, longos períodos de estagnação e, em alguns momentos, mesmo de divergência relativamente aos nossos parceiros europeus.

Os estudos do Banco de Portugal ajudam a explicar esta realidade. Entre 1960 e 1995, Portugal apresentava uma aproximação importante aos níveis de riqueza da Europa

Ocidental, sobretudo graças ao forte investimento em capital físico, como infraestruturas, equipamentos e modernização produtiva. Porém, entre 1996 e 2018, esse processo perdeu força. A produtividade da economia cresceu pouco, o investimento tornou-se menos dinâmico e a capacidade de gerar riqueza suficiente para encurtar a distância face aos países mais desenvolvidos acabou por estagnar.

Os dados das visões oficiais dos governos, mesmo embalados pelo necessário entusiasmo, já revelam problemas profundos. Mas e se até esse entusiasmo for falso?

Óscar Afonso, num artigo publicado no ECO a 4 de dezembro de 2025, intitulado «Portugal engana-se. Diverge, empobrece e finge crescer», dá corpo a esta dúvida. O economista explica que a convergência recente assenta em números reais muito mais baixos, fruto de um problema metodológico grave: o enfraquecimento do denominador populacional. Os dados mais recentes revelam que a população portuguesa aumentou substancialmente, situando-se perto dos 11,4 milhões de habitantes, e esse aumento não estava a ser considerado.

Ora, ao corrigir este valor, dividindo a riqueza por quem de facto cá vive, conclui-se que a convergência real entre 2019 e 2024 terá sido de apenas 2,6 pontos percentuais, e não os 5 pontos percentuais celebrados pelo Governo. Sob esta luz, o cenário de longo prazo é ainda mais negro. Entre 1999 e 2024, Portugal perdeu, na verdade, 5,2 pontos percentuais no nível de vida relativo face à UE, em contracorrente com o progresso das economias de Leste.

O autor desmonta assim a ilusão, atribuindo a aparente melhoria recente a fatores excecionais e irrepetíveis, como as injeções de fundos do PRR, o recorde do turismo e o impacto imediato da imigração, em vez de uma verdadeira reforma estrutural.

O mesmo Óscar Afonso desenvolve esta análise numa publicação na sua rede social LinkedIn, intitulada «Portugal está mais pobre do que pensávamos», onde apresenta um gráfico construído com base em dados da Comissão Europeia (série AMECO de maio de 2025), do INE (dados revistos da população de junho de 2026) e em cálculos próprios.

Nesse gráfico, o PIB per capita de Portugal em Paridade de Poder de Compra (PPC), com a média da União Europeia indexada a 100, compara duas séries entre 1999 e 2025. A primeira corresponde aos valores oficiais da Comissão Europeia, calculados com base na população residente projetada pelo INE. A segunda apresenta os mesmos valores de PIB per capita, mas divididos pela população efetivamente residente, incluindo a revisão atualizada com dados da AIMA sobre imigração e os números que as estatísticas anteriores não contabilizavam corretamente.

A divergência entre as duas séries é o elemento central da análise, e essa diferença cresce de forma consistente ao longo do tempo. Em 2021 era de apenas 0,6 pontos percentuais (73,8 contra 73,2), mas dispara para 2,1 p.p. em 2022, 3,6 p.p. em 2023, atinge o máximo de 4,4 p.p. em 2024 e mantém-se historicamente elevada em 4,3 p.p. em 2025.

Este alargamento progressivo do desvio significa que uma parte considerável da recuperação portuguesa entre 2021 e 2025 não reflete um crescimento real da produtividade ou da riqueza por indivíduo, mas sim um mero artefacto estatístico. O denominador populacional estava subavaliado porque o INE não atualizava a população residente ao ritmo a que a imigração estava, de facto, a crescer.

Ora, esta distinção altera substancialmente a narrativa da convergência. Pela série oficial, Portugal convergiu de 73,8 para 81,3 entre 2021 e 2025, um avanço de 7,5 pontos percentuais em quatro anos que parece robusto. Já pela série corrigida, a convergência no mesmo período foi de apenas 73,2 para 77,0, ou seja, uns magros 3,8 pontos percentuais, praticamente metade do progresso sugerido pela propaganda oficial.

Um detalhe adicional reforça este quadro de longo prazo desfavorável. Mesmo pela série oficial, o valor de 2025 (81,3) continua abaixo do nível registado em 1999 (85,0), passados 26 anos. Portugal, portanto, ainda não recuperou a posição relativa que tinha no arranque do euro. Se utilizarmos a série corrigida (77,0), o fosso face a 1999 é ainda maior, fixando-se próximo dos oito pontos percentuais de perda.

No conjunto, estes dados sustentam a tese de que a convergência portuguesa recente foi inflacionada por um crescimento populacional invisível nas estatísticas e não por um aumento genuíno e sustentável da produtividade por trabalhador.

O próprio Óscar Afonso não se limita aos números e aponta o dedo àquilo que deveria ser o tema central do debate político, concluindo de forma contundente:

«Os dados do INE para a população mostram-nos a desgraça em que estamos. Durante anos, os portugueses ouviram que estávamos a convergir com a Europa. Afinal, os novos dados mostram exatamente o contrário. A revisão da população divulgada pelo INE veio confirmar aquilo que alguns já tinham alertado: os dados oficiais estavam a subestimar significativamente a população residente em Portugal, sobretudo a população estrangeira. O resultado é devastador: o PIB per capita português em PPC em 2025 já não é 81,3% da média da União Europeia. É apenas 77,0%. Em 2019 era 77,2%. Hoje é 77,0%. Em seis anos não convergimos rigorosamente nada. Ficámos ligeiramente pior. Em 1999 estávamos em 85,0% da média da UE. Hoje estamos em 77,0%. Vinte e seis anos depois, Portugal está mais longe da média europeia do que estava no final do século passado. Pensemos bem no significado destes números. Nos últimos anos, Portugal beneficiou de um PRR avultado, de centenas de milhares de milhões de euros de fundos europeus acumulados ao longo de décadas, de um aumento turístico sem precedentes, de taxas de juro muito baixas durante grande parte do período e de uma entrada massiva de imigrantes que sustentou o crescimento do emprego e da atividade económica. E, apesar de tudo isto, não convergimos; não recuperámos sequer os níveis relativos pré-pandemia; continuamos entre os países mais pobres da Europa Ocidental e continuamos a perder terreno para economias que há poucos anos estavam atrás de nós.»

Entre as centenas de temas inúteis do debate político e as milhares de horas de paleio televisivo, este deveria ser um tema obrigatório no debate nacional. Contudo, continua escandalosamente ausente.

Não está em causa apenas um detalhe técnico do INE, nem uma disputa entre economistas sobre metodologias estatísticas. Os números têm um significado concreto e humano. Temos de exigir saber por que razão um país que concentrou, na mesma janela temporal, fundos europeus em escala histórica, um PRR sem precedentes, taxas de juro excecionalmente baixas, um aumento turístico avassalador e uma das maiores vagas de imigração da sua história continua, ao fim de tudo isto, exatamente onde estava em 2019 e mais pobre, em termos relativos, do que estava há 26 anos.

Com a conjugação inédita destes fatores, os governos tinham a obrigação de catapultar a qualidade de vida dos cidadãos e implementar as mudanças estruturais necessárias para construir um país melhor. Tal não aconteceu, e a justificação já não pode ser encontrada em crises externas ou em conjunturas desfavoráveis passageiras.

Perante a contundência desta análise, importa, contudo, uma cautela metodológica. Será prudente retirar conclusões definitivas antes da revisão oficial e integral das contas nacionais?

De acordo com o próprio INE, a revisão do PIB e do PIB per capita, com efeitos reais nos valores reportados às instituições europeias, só estará concluída em março de 2027, altura em que será feita a revisão das contas nacionais para o período de 2021 a 2026.

O gráfico e os cálculos apresentados por Óscar Afonso assumem o PIB atual como inalterado, revendo apenas a população em alta. Trata-se, portanto, de um efeito mecânico: divide-se a mesma riqueza por mais pessoas e o PIB per capita cai.

No entanto, a economia real raramente funciona de forma tão isolada. A população residente foi subestimada durante anos, mas é altamente provável que uma parte significativa da atividade económica associada a essas centenas de milhares de pessoas — o seu consumo, trabalho, rendimentos e investimento — também não tenha sido totalmente captada pelas estimativas anteriores, embora seja igualmente provável que essa correção não altere substancialmente o quadro geral.

Corrigir o denominador, a população, é factualmente incontornável. Falta recalcular o numerador, o PIB. Quando o INE proceder à reconstrução completa da economia em 2027, uma eventual revisão em alta da riqueza total produzida poderá compensar parcialmente a quebra do PIB per capita decorrente do aumento demográfico. Até lá, estes dados funcionam como um sério e fundamentado sinal de alerta, mas os valores finais que definirão o real estado da nossa convergência continuam em aberto.

Ainda assim, o alerta lançado vai muito além da matemática e aponta para a verdadeira doença do país. O problema real está nas escolhas estruturais de política económica que se repetem, executivo após executivo, independentemente da cor partidária: a baixa produtividade crónica, a falta de ambição e a ausência de verdadeiro escrutínio e responsabilização. O modelo de crescimento assente em setores de baixo valor acrescentado perpetua-se, mantendo as políticas medíocres do PS e do PSD na mais completa imunidade.

Enquanto este diagnóstico não for assumido como a prioridade nacional, qualquer outro debate político estará, na prática, a discutir meros sintomas. Como bem resume Óscar Afonso, no plano da realidade factual, nem o país progrediu, nem os portugueses estão melhor. Tudo isto deixa-nos presos a um destino de país adiado, envolto em ficções demagógicas, na cumplicidade dos media, das elites intelectuais e na mansidão das pessoas comuns.

Um país que, depois de décadas de integração europeia, milhares de milhões em fundos e circunstâncias excecionalmente favoráveis, continua sem conseguir aproximar-se dos seus parceiros não tem um problema estatístico. Tem um problema político.