O tema dos baixos salários em Portugal é recorrente, mas raramente se pensa sobre as suas causas reais. São vários os fatores envolvidos, desde a estrutura económica à fiscalidade, passando pela dimensão das empresas e pela qualidade da gestão. No entanto, a mais importante causa estrutural continua a ser frequentemente ignorada pela classe política: a baixa produtividade. Sem compreender este problema, de pouco servem proclamações e decretos. Os números são simples: a produtividade por hora trabalhada em Portugal ronda 71% da média europeia, abaixo de Espanha, Irlanda e Alemanha. A questão central não é trabalhar mais, pois já o fazemos; é produzir mais valor por cada hora trabalhada.
A estrutura económica explica uma parte do problema. Turismo, restauração e comércio são setores importantes, mas de baixo valor acrescentado. Não é possível pagar 2000 euros a quem serve um café por razões estritamente económicas e não morais. Enquanto o modelo produtivo não mudar, o teto salarial não sobe.
O défice de capital agrava a situação. Um trabalhador com tecnologia adequada produz mais do que vários sem ela. Cerca de 99% das empresas portuguesas são micro ou pequenas, sem recursos para investir em automação, software ou processos eficientes. Ao contrário do modelo do norte da Europa, assente em capital, o nosso continua dependente de mão-de-obra intensiva, estagnando o salário no mínimo necessário para a viabilidade do negócio.
Portugal vive o paradoxo de ter infraestruturas digitais acima da média europeia, inclusive nos serviços públicos, ao mesmo tempo que mantém uma estrutura produtiva que não aproveita esse potencial. Uma pequena empresa alemã exporta tecnologia de precisão para o mundo, ao passo que uma portuguesa tem, estatisticamente, muito mais probabilidade de ser um café ou uma loja de retalho. Isto não acontece por falta de capacidade das pessoas, mas sim por ausência de capital.
Esta realidade esconde ainda uma outra falha: a gestão. Portugal está consistentemente abaixo da média europeia em práticas de gestão empresarial, como na definição de objetivos, na avaliação de desempenho e na organização interna. O gestor típico da microempresa acumula as funções de proprietário, comercial, administrativo e financeiro. Decide sob a pressão do curto prazo, por intuição, sem dados nem estratégia. Vê o investimento em tecnologia como um custo e não como uma alavanca. Temos muitos trabalhadores qualificados a operar dentro de estruturas incapazes de aproveitar esse potencial.
A fiscalidade e a burocracia também não ajudam. Entre o IRC, a TSU e os custos fixos elevados, sobra pouco para reinvestir. Com uma das maiores cargas fiscais efetivas da Europa Ocidental, o Estado acaba por penalizar o sucesso, fazendo com que quem quer expandir o negócio se depare com uma barreira quase intransponível. Esta asfixia empurra os mais qualificados para a emigração, que partem para onde a produtividade é maior e o esforço é melhor recompensado, tornando a inovação interna ainda mais difícil.
O problema de Portugal não é a falta de talento, mas a incapacidade estrutural de o converter em valor económico. Enquanto não mudarmos o modelo produtivo para setores de maior valor acrescentado, melhorarmos a qualidade da gestão e reduzirmos o peso do Estado sobre o investimento, os salários vão continuar a refletir as limitações da economia e não as capacidades de quem nela trabalha. Aumentos salariais desligados de ganhos sustentados de produtividade tenderão a ser limitados pela inflação, pela perda de competitividade ou pelo agravamento da emigração.