segunda-feira, 13 abr. 2026

Os tudólogos e a ditadura da opinião

Neste novo contexto, o valor central deixou de ser a notícia em si e passou a ser a interpretação da notícia. Já não interessa apenas o que aconteceu, que era tradicionalmente o núcleo da notícia, mas sobretudo o que significa aquilo que aconteceu. Esta passou a ser precisamente a função do tudólogo.

Os canais convencionais de televisão estão hoje repletos de analistas. Contudo, muitos deles não são verdadeiros especialistas numa área específica do conhecimento. São antes aquilo a que poderíamos chamar tudólogos, especialistas em generalidades. A sua autoridade não deriva tanto de investigação aprofundada ou de conhecimento acumulado, mas da visibilidade mediática constante.

O fenómeno revelou uma nova fase na transformação profunda na forma como as sociedades contemporâneas produzem e reconhecem autoridade intelectual. Num ambiente dominado pela velocidade mediática e pela competição pela atenção, o especialista ocasional tende a desaparecer, sendo substituído por uma nova figura, o intérprete permanente da atualidade.

Já não se trata de alguém que domina uma área específica do conhecimento, mas de alguém que pode falar sobre todas as áreas. A sua figura torna-se o centro do debate, mais importante do que o conhecimento concreto de qualquer tema ou assunto. O opinante transforma-se assim numa espécie de “famoso por ser famoso”, à semelhança das pessoas que se tornam celebridades por participarem em programas como o Big Brother. O resultado é uma desvalorização do significado, do sentido e da interpretação rigorosa dos acontecimentos.

O termo pundit tem uma história. Era originalmente um título estritamente religioso ou jurídico, mas transformou-se num termo geral para designar qualquer especialista ou analista que oferece opiniões públicas, especialmente nos média. No entanto, o que hoje encontramos é frequentemente outra figura, que poderíamos designar como o superpundit, o tudólogo. Trata-se do especialista mediático que tudo comenta.

O fenómeno surgiu sobretudo nos Estados Unidos nas décadas de 80 e 90 e está ligado ao crescimento do modelo de televisão de notícias 24 horas. Esse fluxo permanente de notícias colocou um problema inicial muito simples, como preencher continuamente o tempo de emissão. A solução encontrada foi a criação de programas de debate permanente, onde analistas, políticos e opinadores interpretam continuamente os acontecimentos. A opinião passou assim a ser tão valorizada quanto o conhecimento especializado.

O superpundit corresponde à figura de um supercomunicador mediático que, ao surgir repetidamente no ecrã, adquire uma reputação de especialista. O seu sucesso depende sobretudo da sua presença mediática e da sua capacidade de moldar a opinião pública num formato que combina informação, comentário e entretenimento televisivo.

Com frequência, o pundit torna-se também uma espécie de caricatura ideológica. Pode situar-se à direita ou à esquerda, mas toda a sua análise tende a ser filtrada por essa posição ideológica. Isto representa igualmente uma degradação do espaço da informação e da comunicação. O jornalismo transformou-se progressivamente em interpretação permanente, o que deformou o ideal dominante do jornalismo televisivo durante grande parte do século XX, que consistia em relatar factos com neutralidade.

A partir dos anos 90 ocorreu uma transformação significativa. A concorrência entre canais aumentou, a audiência fragmentou-se, a informação passou a circular cada vez mais rapidamente e a dependência relativamente ao poder político também se intensificou. Neste novo contexto, o valor central deixou de ser a notícia em si e passou a ser a interpretação da notícia. Já não interessa apenas o que aconteceu, que era tradicionalmente o núcleo da notícia, mas sobretudo o que significa aquilo que aconteceu. Esta passou a ser precisamente a função do tudólogo.

A televisão descobriu que a interpretação gera frequentemente mais audiência do que a simples exposição dos factos. Descobriu também que certas características pessoais dos analistas mediáticos, como o estilo retórico, a presença televisiva ou a capacidade de provocar debate, interessam muitas vezes mais ao público do que o seu conhecimento real sobre os acontecimentos.

A partir dos anos 90 este modelo disseminou-se progressivamente pela Europa. Em países como Portugal e Espanha surgiram programas de debate político semanais ou diários. Em Espanha chegou mesmo a surgir a palavra tertulianos para designar estas figuras.

Outra razão fundamental para a profusão e o predomínio destes opinadores prende-se com uma lógica económica simples. A investigação jornalística exige equipas, tempo, recursos e deslocações. Exige também jornalistas de elevada qualidade e especialistas capazes de analisar os acontecimentos com rigor. Pelo contrário, um painel de analistas exige apenas um estúdio, algumas cadeiras e convidados disponíveis para discutir a atualidade. Desta forma é possível produzir horas de emissão com custos relativamente baixos.

Um fator decisivo é a crescente politização da esfera pública e a espetacularização da política. A política tende cada vez mais a assumir a forma de narrativa mediática, de confronto e de entretenimento. Neste contexto, o analista televisivo torna-se uma figura central, pois desempenha simultaneamente o papel de intérprete, de árbitro e muitas vezes de protagonista do debate público.

A influência destas figuras pode tornar-se tão grande que alguns analistas mediáticos chegam mesmo a transformar-se em atores políticos com peso significativo na vida pública. Exemplos, em Portugal e na vizinha Espanha, não faltam. Pablo Iglesias começou como presença habitual em programas de debate televisivo antes de fundar o Podemos e ascender a vice-presidente do Governo. Em Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa construiu durante anos uma presença televisiva regular como comentador político antes de se afirmar como protagonista central da vida pública, chegando mesmo à Presidência da República. Outros nomes, como José Pacheco Pereira ou, entre as gerações mais recentes, Sebastião Bugalho e João Maria Jonet, ilustram igualmente a crescente influência mediática de uma nova classe de analistas e intérpretes da atualidade.

Um analista mediático pode hoje acumular milhões de seguidores fora da televisão tradicional, transformando a classe comentadora numa rede global de influenciadores mediáticos que moldam a opinião pública de forma permanente e omnipresente.

O resultado é uma inversão curiosa. Tradicionalmente, a autoridade intelectual derivava do conhecimento acumulado e da investigação rigorosa. No novo ambiente mediático, porém, a autoridade pode derivar sobretudo da presença mediática contínua. A figura central deixa de ser o especialista que intervém ocasionalmente para esclarecer o público e passa a ser o intérprete permanente, cuja função é interpretar continuamente a atualidade.

Estamos de facto perante a industrialização da opinião. A opinião torna-se um produto mediático produzido em série, consumido diariamente e rapidamente substituído por novas interpretações à medida que surgem novos acontecimentos. O analista funciona como uma máquina de interpretação instantânea, sempre pronta a transformar factos em narrativa.

O problema principal é que a ascensão do pundit não representa apenas uma mudança no formato televisivo. Representa antes uma transformação mais profunda na natureza do debate público e na qualidade da esfera pública. O filósofo Jürgen Habermas defendia que um bom modelo de debate público deveria assentar na argumentação racional entre cidadãos informados. Contudo, com o desenvolvimento da sociedade mediática, esse espaço foi progressivamente substituído por uma esfera dominada pela mediação, pelo espetáculo e pela opinião imediata. Neste contexto, o intérprete televisivo torna-se um intermediário permanente da interpretação do mundo, ocupando frequentemente o lugar que antes pertencia ao debate intelectual mais lento e fundamentado. Pierre Bourdieu criticou esta lógica da televisão, que tende a privilegiar a rapidez, a simplificação e a visibilidade em detrimento da complexidade intelectual, promovendo aquilo a que chamou “fast thinkers”, capazes de produzir opiniões instantâneas sobre qualquer tema. Por sua vez, Neil Postman mostrou como a televisão transforma inevitavelmente o discurso público em entretenimento, convertendo acontecimentos complexos em narrativas rápidas, emocionalmente apelativas e frequentemente simplificadas.

Mais recentemente, vários críticos da cultura mediática têm apontado que esta dinâmica contribuiu para a formação daquilo que alguns designam como uma classe comentadora. Trata-se de um grupo relativamente restrito de figuras mediáticas que circulam entre televisões, jornais, ‘podcasts’ e redes sociais, comentando praticamente todos os acontecimentos relevantes da atualidade. O seu estatuto não depende necessariamente da investigação aprofundada ou da especialização académica, mas sobretudo da visibilidade mediática, da capacidade retórica e da familiaridade com o público.

Este fenómeno hiperbolizou-se ainda mais, a partir dos anos 2010 com a explosão das plataformas digitais. O que antes se limitava aos estúdios de televisão migrou em massa para o YouTube, TikTok, ‘podcasts’ e redes sociais como o X. Os mesmos tudólogos, e uma nova geração de influencers opinadores, comentam agora em tempo real, vinte e quatro horas por dia, alimentados por algoritmos que recompensam a polarização, a velocidade e o clickbait muito mais do que a profundidade.

Isto não significa que todos os opinadores sejam superficiais ou irrelevantes. Alguns têm qualidade como comunicadores ajudando o público a compreender temas complexos. A crítica dirige-se sobretudo à lógica estrutural do sistema mediático, que tende a privilegiar a velocidade, a polémica e a simplificação em detrimento da reflexão mais lenta e fundamentada.

Aquilo que hoje se observa não é apenas a multiplicação de analistas. Trata-se da emergência de uma nova figura social, o intérprete permanente da atualidade, uma figura híbrida que pretende unificar o papel de jornalista, animador e analista. Esta figura tornou-se central na forma como as sociedades contemporâneas compreendem, ou acreditam compreender, o mundo que as rodeia.

O problema não é apenas mediático. É também cultural e político. Quando a interpretação imediatista substitui o conhecimento aprofundado, o debate público deixa de ser um espaço de esclarecimento para se tornar um fluxo contínuo de opiniões em competição. A esfera pública passa a ser dominada por um teatro permanente de interpretações rápidas, onde a visibilidade pesa muitas vezes mais do que o conhecimento.

O que é grave não é a existência de analistas, algo tão antigo como a própria história da humanidade, mas, considerando o peso ainda existente da televisão e das plataformas digitais na formação das opiniões públicas, a substituição progressiva do conhecimento pela opinião e da reflexão pelo comentário permanente.

Estamos também no limite de uma nova fase, algoritmos e avatares sintéticos começam a acumular audiências comparáveis ou superiores às de analistas humanos, colocando o problema da autoridade intelectual na esfera pública. A produção de interpretações passa a ocorrer de forma automatizada e orientada por métricas de visibilidade. Em 2025 e 2026, a própria indústria passou a designar este fenómeno como AI Slop, referindo-se a grandes volumes de conteúdo gerado por inteligência artificial que já representam uma parte significativa dos vídeos apresentados a novos utilizadores do YouTube. A opinião torna-se assim um produto produzido e distribuído por sistemas algorítmicos, configurando uma forma efetiva de industrialização da interpretação na esfera pública.