terça-feira, 10 fev. 2026

O Primo Basílio (versão 2026) ou seguras desventuras

Encontrei recentemente a revisão de uma das grandes obras de Eça de Queiroz, pela pena genial de Bruno Oliveira dos Santos, e que partilho, respeitando mais de 99% do seu texto. Vejamos no que consiste a adaptação de O Primo Basílio em versão 2026.

Nesta nova edição, cujo tema principal é o adultério político, avulta, em tintas carregadas e com solene compostura, a personagem sublime do Conselheiro Tozé. O enredo é notável. Às infrações de Luísa à fidelidade matrimonial, discretas mas persistentes, somam-se agora as infidelidades políticas, bem mais ruidosas e universalmente toleradas. Socialistas e não-socialistas, liberais e antiliberais, católicos e ateus, democratas-cristãos, comunistas e maoistas: toda a gente, da direita à esquerda, se apaixona de súbito pela figura reservada do Conselheiro Tozé, vendo nele aquilo que mais lhe convém ver e nada daquilo que o obrigaria a decidir.

Nas páginas do livro, Tozé não se compromete com nada. Circula entre salões e convicções com a mesma elegância neutra, fala em pactos, consensos, intenções e princípios, sempre no plural e nunca no concreto, precedendo cada afirmação de uma pausa grave, como quem pesa a responsabilidade do mundo antes de dizer quase nada. Gosta particularmente de começar frases com expressões como “é preciso refletir”, “o país exige serenidade” ou “não devemos fechar portas”, fórmulas que lhe permitem terminar invariavelmente no ponto exato onde começou. Não vai além disso, nem parece sentir necessidade de o fazer. A sua autoridade nasce precisamente dessa suspensão perpétua, dessa prudência elevada a virtude cívica, desse talento raro para nunca estar exatamente em lado nenhum.

— Já esteve no Alentejo, Conselheiro? — perguntou-lhe Luísa, com a curiosidade ligeira de quem conversa para passar o tempo.

— Nunca, minha senhora — respondeu ele, curvando-se com gravidade. — Nunca! E tenho pena! Sempre desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira ordem.

Fez então um pequeno gesto com a mão, como quem apazigua um auditório invisível, compôs a gravata com cuidado excessivo, ajeitou os óculos — hábito que lhe servia para ganhar segundos preciosos de ponderação — e acrescentou com pompa conciliadora:

— De resto, país de grande riqueza suína!

Quando contrariado, Tozé não se exalta: baixa ligeiramente a voz, invoca o interesse nacional e recorda, com um sorriso fatigado, que “o importante é unir e não dividir”, frase que repete com tal constância que acaba por soar menos a conselho do que a mecanismo de defesa. Nunca levanta o tom, nunca fecha um debate, nunca se lembra exatamente do que disse na véspera, mas fá-lo sempre com tamanha correção que ninguém ousa acusá-lo de incoerência.

Até quando repetidamente questionado sobre a atual crise moral da nação, não se altera e responde sempre o mesmo:

— Ah, meus senhores, o país precisa de serenidade, de diálogo, de abraços. Eu próprio, como sabe, abraço toda a gente: abraço a direita quando ela tem razão, abraço a esquerda quando ela tem coração, abraço os indecisos quando eles têm dúvidas. Abraço até quem me critica, porque o importante é unir. Lembra-se do meu antecessor? Ele abraçava tanto que o país inteiro se sentia abraçado… mesmo quando o abraço era só para a câmara. Eu sigo o mesmo caminho: abraços seletivos, mas universais. E se alguém se sentir excluído do abraço, é porque ainda não entendeu o meu abraço inclusivo.

Numa tarde morna de primavera, convidaram o Conselheiro para inaugurar um pequeno centro cultural nos arredores de Lisboa. O edifício, ainda cheirando a tinta fresca, permanecia quase vazio, excetuando meia dúzia de notáveis locais e dois jornalistas entediados. Após o descerramento da placa — que ninguém leu com atenção —, perguntaram-lhe o que pensava da iniciativa.

Tozé sorriu com doçura cansada, pousou a mão sobre a placa ainda quente e declarou:

— É um projeto importante. Importante porque é cultural, e cultural porque é importante. Estes espaços são fundamentais para aproximar as pessoas… desde que não as afastem.

Houve um breve silêncio respeitoso. Um dos presentes tentou insistir, perguntando que atividades ali se realizariam.

— Tudo o que fizer sentido — respondeu o Conselheiro, já dando meio passo atrás. — E, sobretudo, tudo o que não crie divisões desnecessárias.

A cerimónia terminou sem aplausos, mas com generalizado aceno de concordância.

A anti-heroína do romance é Juliana, uma criada de Mem Martins, desbocada, sem maneiras, malcriadona, sempre em rebelião contra as elites, a quem detesta com a mesma intensidade com que as observa. Não se chega a perceber como é que Juliana adquiriu a instrução que demonstra, compreendendo rapidamente o conteúdo das cartas que apanha, tanto que em geral as pessoas da sua laia não sabem ler nem escrever. Talvez tenha aprendido sozinha, talvez tenha ouvido demais à porta; em qualquer caso, essa lucidez inesperada torna-a ainda mais perigosa, pois percebe melhor do que ninguém a hipocrisia dos senhores e o vazio das suas virtudes proclamadas, rindo-se em silêncio sempre que o Conselheiro fala longamente para não dizer nada.

No final do volume, já consagrado e unanimemente respeitado, Tozé publica o seu estudo Elementos Genéricos da Presidência da República, com o subtítulo Segundo os Melhores Autores. O livro não contém propostas, nem riscos, nem ideias identificáveis, mas cita abundantemente, equilibra-se com elegância entre opiniões divergentes e conclui sempre apelando ao “sentido de responsabilidade”. Um êxito colossal.