A ordem liberal internacional tornou-se um dos principais focos de tensão no debate nos últimos anos. Discute-se se está a ser atacada ou apenas transformada. Para compreender o fenómeno, é necessário rigor e separar análise de tomadas de posição morais ou ideológicas.
O problema dessa ordem, como sucedeu em outros paradigmas, não é apenas o da sua contestação externa, mas o da crescente incapacidade interna de se reproduzir como forma convincente de organização política. O que está em causa não é apenas a estabilidade de um sistema internacional, mas a erosão do quadro mental que o tornava inteligível. Falar de uma nova realidade com instrumentos antigos é falhar o alvo e tomar apenas posições moralistas.
A mundividência liberal-progressista não está a atravessar apenas uma crise conjuntural ou um processo de adaptação gradual, mas a viver um colapso paradigmático. Aplicando à política a grelha analítica de Thomas Kuhn, desenvolvida para a compreensão das revoluções científicas, observa-se que as categorias fundamentais que organizaram a política, a economia, a tecnologia e a cultura do pós-guerra deixaram de explicar a realidade e de orientar a ação. A analogia não deve, contudo, ser tomada em sentido estrito. A política não funciona segundo critérios de validação equivalentes aos das comunidades científicas, nem os seus paradigmas colapsam por simples refutação empírica. Ainda assim, a noção de paradigma conserva utilidade heurística para descrever momentos em que um quadro de inteligibilidade perde capacidade orientadora e entra em conflito com os próprios factos que antes conseguia integrar. A chamada nova ordem mundial não constitui ainda um sistema coerente; resulta antes de uma transição instável, em que o paradigma anterior continua a estruturar instituições, enquanto o novo já molda os factos.
A ordem liberal internacional, consolidada após 1945 e apresentada como vencedora definitiva após 1989, foi frequentemente descrita como inevitável e universal. No entanto, tratou-se sempre de um paradigma historicamente situado. Assentava numa combinação específica de soberania liberal clássica, globalização económica expansiva, democracia representativa entendida como horizonte final da história, crescimento económico ilimitado, confiança na neutralidade do progresso tecnológico e hegemonia cultural ocidental. Este conjunto de pressupostos funcionou não por ser universalmente válido, mas por coincidir com um momento singular de supremacia económica, militar, cultural e tecnológica do Ocidente. Mais do que um simples arranjo institucional, este paradigma assentava também numa determinada conceção do homem, da história e da legitimidade: um sujeito abstrato, progressivamente desvinculado de pertenças densas, inserido numa história supostamente orientada para a expansão contínua de direitos, mercados e integração.
O erro central deste paradigma foi confundir hegemonia com universalidade e uma experiência histórica particular com norma moral absoluta. A ordem liberal deixou de se conceber como uma fase da história e passou a apresentar-se como o seu termo. A partir desse momento, qualquer alternativa deixou de ser tratada como concorrente legítima e passou a ser interpretada como desvio, atraso ou ameaça. Ao absolutizar os seus próprios pressupostos históricos, o liberalismo deixou de se reconhecer como tradição política particular e passou a operar como metalinguagem moral da legitimidade global. Foi esse excesso de autoconfiança que o tornou incapaz de pensar verdadeiramente a alteridade política.
Tal como Kuhn descreveu no domínio científico, os paradigmas não colapsam por refutação direta, mas pela acumulação de anomalias que já não conseguem integrar. No plano político, as democracias liberais revelaram dificuldades crescentes em governar sociedades fragmentadas, heterogéneas e digitalizadas com instrumentos concebidos para comunidades industriais relativamente homogéneas, fenómeno tornado visível tanto pela erosão dos grandes consensos partidários como pela crescente incapacidade de produzir decisões estáveis em contextos de polarização permanente e crise de representação. No plano económico, a financeirização produziu crescimento estatístico sem coesão social nem base produtiva sólida. A crise de 2008 tornou particularmente evidente esta dissociação entre valorização financeira e robustez social, revelando até que ponto a expansão abstrata do capital podia coexistir com a vulnerabilidade estrutural das economias reais. No plano tecnológico, a técnica deixou de ser um meio subordinado e tornou-se uma forma autónoma de poder. A centralidade adquirida pelas plataformas digitais, pelos sistemas algorítmicos e pelas infraestruturas de vigilância demonstrou que a tecnologia já não é apenas instrumento operacional, mas arquitetura de poder capaz de moldar perceções, preferências e comportamentos à margem da deliberação política e em escala civilizacional. No plano cultural, enfraqueceram as mediações tradicionais, acelerou-se o tempo social e dissolveu-se a autoridade simbólica. Família, escola, religião, comunidade local e tradição deixaram progressivamente de funcionar como estruturas de transmissão estável de sentido, abrindo espaço a identidades mais voláteis, formas mais frágeis de pertença e uma experiência social cada vez mais atomizada.
Perante estas anomalias, a resposta do paradigma liberal não foi estrutural, mas normativa. Em vez de revisão dos pressupostos, assistiu-se à intensificação do discurso moral, à pedagogização da política e à tentativa de corrigir problemas sistémicos através de mecanismos simbólicos de controlo. Esta reação é típica de paradigmas em declínio: quando a legitimidade substantiva enfraquece e deixam de explicar a realidade, procuram discipliná-la através de intensificação discursiva, vigilância simbólica e mecanismos crescentes de conformidade moral.
É neste contexto que emerge a incomensurabilidade política contemporânea. As elites ocidentais continuam a operar segundo a linguagem do universalismo moral, dos direitos humanos abstratos, da governação global e da ordem baseada em regras. A posição das potências emergentes que não estão dispostas à submissão ao modelo ocidental, e até a própria contestação interna a esse modelo, já não resulta num simples desacordo, mas numa divergência profunda quanto aos critérios de racionalidade e legitimidade. Cada campo avalia o outro segundo pressupostos que o outro não reconhece como válidos. Esta divergência não implica que cada bloco opere de forma pura ou coerente segundo estas categorias, nem que os diferentes polos não mobilizem simultaneamente linguagem moral, interesses estratégicos e narrativas civilizacionais. Significa antes que os critérios dominantes de legitimidade deixaram de coincidir.
Esta incomensurabilidade manifesta-se hoje tanto na arena geopolítica como no interior do próprio Ocidente (Trump, Milei, forças populistas anti-sistema). A dificuldade crescente do Ocidente em compreender outras potências decorre da mesma incapacidade com que começa a interpretar a contestação interna que emerge no seu próprio espaço civilizacional. Quando um paradigma entra em declínio, tende a interpretar toda a contestação, externa ou interna, como irracionalidade, ameaça ou regressão, em vez de reconhecer a obsolescência das categorias através das quais continua a pensar o mundo.
A chamada nova ordem mundial deve, assim, ser entendida como um paradigma em formação. Não se trata apenas de uma redistribuição de poder entre polos estatais, mas de uma transformação mais profunda dos próprios critérios segundo os quais o poder é considerado legítimo e ordenável. Caracteriza-se por uma multipolaridade efetiva entre Estados e civilizações conscientes da sua singularidade histórica. A soberania deixa de ser apenas jurídica e passa a incluir dimensões culturais, tecnológicas, energéticas e demográficas. A política regressa como esfera de conflito real de interesses e valores. A economia deixa de ser autónoma e passa a ser subordinada à estratégia. A tecnologia é reconhecida como instrumento de poder. O universalismo moral cede lugar a legitimidades ancoradas na história e na identidade das comunidades políticas. O que está em curso não é apenas o regresso da geopolítica, mas o regresso da história, da contingência e da diferença civilizacional como fatores estruturantes da ordem.
A transição entre o paradigma anterior e o emergente é instável. O primeiro continua a estruturar instituições e discursos, enquanto o segundo já organiza a realidade material. Daqui resulta uma dissociação crescente entre linguagem oficial e experiência vivida, entre governantes e governados, entre normas proclamadas e práticas efetivas. Esta dissociação não é apenas comunicacional: as categorias através das quais as elites continuam a interpretar o mundo já não coincidem com as formas reais de poder, conflito, pertença e vulnerabilidade que estruturam a experiência histórica contemporânea. As soluções estruturais implicariam abandonar pressupostos fundadores da ordem liberal, com custos significativos para as elites que dela beneficiaram. Em vez disso, proliferam tentativas de prolongamento artificial de um modelo que deixou de funcionar como totalidade.
Estamos perante uma transição paradigmática que não é conduzida pelos atores que mais falam em mudança. Muitos continuam presos à linguagem de um paradigma esgotado, não por intenção deliberada, mas por desfasamento conceptual. Como em transições anteriores, quando o novo se consolidar, muitos afirmarão que era inevitável, esquecendo a resistência inicial.
A questão central não é apenas descritiva, mas normativa. A mutação em curso não garante um mundo mais justo ou estável. O fim do universalismo liberal pode abrir espaço tanto a ordens políticas mais enraizadas como a novas formas de autoritarismo tecnológico ou de dominação sem limites. Reconhecer o colapso do paradigma anterior é condição necessária, mas insuficiente, para construir algo melhor. O problema central não é apenas o de saber quem dominará a ordem futura, mas segundo que princípios poderá essa ordem ser estabilizada sem regressar quer à abstração imperial do universalismo liberal, quer à pura fragmentação conflituosa de um mundo sem qualquer horizonte comum. A dificuldade está em conceber uma ordem internacional que reconheça a pluralidade real das civilizações, dos regimes e das histórias políticas sem abdicar inteiramente de critérios mínimos de contenção, reciprocidade e limite. Esses critérios não podem ser os do universalismo liberal, que absolutiza uma experiência histórica particular, nem os da pura correlação de forças, que legitima apenas o mais forte. Residem antes na possibilidade de acordos negativos: não sobre o que o mundo deve ser, mas sobre o que nenhuma potência pode fazer impunemente às outras.
Para o Ocidente, a alternativa é exigente. Ou persiste na tentativa de prolongar uma ordem esgotada através da moralização, da censura e da tecnocracia, ou aceita o fim da ilusão do fim da história e inicia um processo de reconstrução política, cultural e institucional. Tal exigência implica reconhecer que a sua crise não decorre apenas da ascensão de rivais externos, mas de contradições internas acumuladas entre universalismo normativo e exercício seletivo do poder, entre promessas de emancipação e dissolução efetiva das bases sociais que sustentavam a liberdade.
A principal lição da mutação paradigmática atual é dupla. Nenhuma ordem histórica é permanente, por mais universal que se apresente, e nenhuma transição assegura progresso moral. Entre o colapso do antigo e a consolidação do novo existe sempre um intervalo de indeterminação, no qual tudo depende da capacidade das sociedades de reconhecer os seus limites e de assumir responsabilidade pelas escolhas que fazem.
Neste contexto, Donald Trump, na sua segunda presidência, surge como uma figura liminar desta transição. Contribui para o desmantelamento de pilares centrais da ordem liberal internacional, retirando os Estados Unidos de organizações multilaterais, fragilizando compromissos tradicionais, impondo tarifas unilaterais e privilegiando esferas de influência regionais. Ao rejeitar o universalismo moral e o multilateralismo do pós-guerra, acelera o colapso do paradigma anterior. Contudo, o seu projeto não corresponde a uma aceitação plena da multipolaridade emergente.
Trump é, assim, simultaneamente produto e catalisador das anomalias acumuladas do paradigma liberal. Surge porque o antigo quadro deixou de explicar a realidade da ascensão chinesa, da multipolaridade efetiva e da erosão interna das democracias ocidentais, mas atua sobretudo como agente de rutura, acelerando a transição sem oferecer um paradigma alternativo coerente. O resultado é a intensificação do intervalo de indeterminação e o risco de uma multipolaridade mais conflituosa. Para o Ocidente, esta figura representa tanto um sinal de esgotamento como um teste decisivo à capacidade de reconstrução política num mundo pós-liberal. A sua ação não inaugura uma nova ordem coerente, mas torna visível que a anterior deixou de existir como horizonte partilhado. Nesse sentido, Trump não é ainda o arquiteto de um novo paradigma; é antes a figura através da qual se torna impossível continuar a fingir que o antigo permanece intacto.