segunda-feira, 07 set. 2026

O enigma Paulo Portas

A direita moderna, europeia, atualizada e democrática que Portas prometeu extinguiu-se, ou talvez nunca tenha sequer chegado a existir.

Podemos dizer que o sucesso pessoal e pragmático de Paulo Portas foi paralelo ao fracasso daquilo que ele podia ter sido, politicamente. Teve nas mãos a possibilidade de desempenhar um papel único na construção de uma direita verdadeiramente nova: cosmopolita, culta, altamente preparada, conservadora e liberal, moderna e europeia, ao nível do melhor que sucedeu, e que ainda pode acontecer, no espaço europeu. Refiro-me não ao conservadorismo anquilosado, próximo de um certo reacionarismo e passadismo, nem a um liberalismo de cariz socialista e progressista, mas a um novo conservadorismo e a um genuíno liberalismo. O CDS reunia, sobretudo entre os mais jovens, algumas das pessoas mais capacitadas nas suas áreas, com uma visão verdadeiramente democrática e evoluída. Mas esse projeto fracassou brutalmente, e esse fracasso coincide, de forma quase simétrica, com o sucesso pessoal de Portas e dos seus homens de confiança na política, medido em cargos e poder efetivo.

Antes de Ventura, sendo ambos figuras políticas e ideologicamente distintas, Portas foi a figura central da direita portuguesa. O que distingue Ventura é o seu carisma e a facilidade com que capta a reatividade deste tempo e o aproveitamento de um grande descontentamento antissistema. Parecia ter, pelo contrário, um projeto ideológico consistente e verdadeiramente transformador, de acordo com as melhores práticas conservadoras e liberais modernas.

Esse projeto tinha raízes anteriores ao próprio CDS. Rui Albuquerque, numa análise, que aliás me conduziu a este texto, sobre uma futura candidatura presidencial de Portas, escreve que este foi, ainda muito jovem, a figura central da direita portuguesa, distinguindo-se pelos artigos corajosos que publicou no jornal Tempo, dirigido por Nuno Rocha. Esse jornal notabilizou-se pela oposição que moveu à extrema-esquerda do Verão Quente e preparou o terreno para aquela que viria a ser a verdadeira referência moderna do jornalismo português: o Independente, uma autêntica pedrada no charco. O sucesso desse jornal provou que havia em Portugal um número suficiente de pessoas informadas e exigentes, que procuravam alternativas à modorra nacional e ao expediente da mão estendida para a Europa.

Sobre esse projeto, segundo a própria mãe de Portas, a jornalista Helena Sacadura Cabral, o filho sonhava com uma direita à inglesa, de lordes, uma direita à gaulista ou à imagem da de Adolfo Suárez em Espanha: um projeto para criar em Portugal uma direita culta, elitista e liberal, definida sobretudo pelo que recusava ser: o cavaquismo, que via como um estatismo disfarçado de moderação. O ideário d'O Independente traduzia-se em bandeiras muito específicas: combate à tirania fiscal, um guião para reduzir o Estado às suas funções clássicas, foco na segurança e na agricultura, desprezo pelos políticos "medíocres" e um eurocepticismo assumido. Era, portanto, um Portas nacionalista, cético quanto à integração europeia e radicalmente anti-establishment: um "enfant terrible" do regime cavaquista, como então lhe chamavam.

Foi esse percurso que levou Portas para a política no CDS. Conquistou a liderança do partido ao lado do amigo Manuel Monteiro e, no que se passou depois, e que um dia se fará a história, conduziu à sua conquista incontestada. O CDS transformou-se no seu partido.

A viragem tem, aliás, uma data e uma frase que a resumem. Em agosto de 1995, ao candidatar-se a deputado pelas listas do CDS/PP (o mesmo partido que atacara sistematicamente enquanto diretor d'O Independente), Portas foi confrontado pelo jornalista Domingos Amaral, numa entrevista para o caderno 3 d'O Independente, com a pergunta óbvia: porquê, se era o contrário do que sempre dissera e o oposto do que sempre escrevera? Respondeu, sem grande cerimónia ideológica: fê-lo "porque era a altura". Não invocou uma evolução de pensamento, uma conversão programática, nada que sustentasse uma coerência com o projeto anterior, apenas uma leitura de oportunidade e timing pessoal. (A entrevista está documentada no perfil do Observador "A direita era ele. Qual foi o legado dos 16 anos de Paulo Portas?" e citada no livro O Independente – A Máquina de Triturar Políticos, de Filipe Santos Costa e Liliana Valente.)

A sua capacidade e energia levaram-no a dois governos de coligação com o PSD, o de Durão Barroso e o de Pedro Passos Coelho, em ambos com um papel preponderante. E é precisamente nesse período de governo que a contradição se torna mais visível: o jovem eurocético e antifiscalista d'O Independente acabaria por presidir, como vice-primeiro-ministro sob a troika, a uma das máquinas fiscais mais duras da história democrática portuguesa, e o próprio Portas chegou a elaborar um guião de reforma do Estado que, na prática, nunca chegou a aplicar-se. O rótulo que ele próprio usaria mais tarde para se descrever já não era "eurocético", mas "euroconsciente". Desapareceu depois da política de forma também algo enigmática.

É por isso que a inovação, a modernidade e o desafio que Portas lançou a partir do Independente, e depois na sua atuação no CDS, ganham agora outro relevo: pareciam demonstrar uma força capaz de ruturas e de uma novidade que interessava mais do que o continuismo e o poder pelo poder, num país onde um certo reacionarismo de direita e um certo socialismo tudo absorvem. Pareceu haver mesmo algo de substancialmente novo. Mais tarde, na esquerda, o Bloco e a IL pareceram, nas suas áreas ideológicas, ainda que num grau menos impactante, ser portadores da mesma promessa, mas falharam também…

É precisamente essa mudança tão radical, e tão pouco explicada por quem a viveu, que constitui o verdadeiro enigma, porque as suas explicações nunca satisfizeram: como, num ápice, essa promessa de Portas se transformou em mais do mesmo, num tecnocrata do poder para quem aceitar tudo, desde que isso garantisse chegar e manter-se no poder, valeu a abdicação da novidade que parecia representar. Não foi, como se constata, uma transformação súbita ou misteriosa nos seus fundamentos, mas uma longa sucessão de acomodações, cada uma justificável isoladamente, e cuja soma dissolveu por completo o projeto original. Esse é um dos maiores enigmas da política portuguesa das últimas seis décadas, para não dizer mais. Esse laço quebrou-se. Portas significa hoje outra coisa, e parece impossível, mesmo ao próprio Portas, recuperar a ideia de novidade que ele um dia representou.

Nesse sentido, a direita moderna, europeia, atualizada e democrática que Portas prometeu extinguiu-se, ou talvez nunca tenha sequer chegado a existir. Essa direita não está, de modo algum, nem na IL nem no Chega, os tempos também são outros e a história "acelerou" especialmente a fragmentação do grande consenso ocidental, dito de modo erróneo, democrata liberal. O liberalismo da IL é demasiado progressista e estatista, e o conservadorismo do Chega pouco tem em comum com esse conservadorismo liberal que Portas enunciava.

O que provocou essa mudança entre o Portas do independente e de um novo CDS, e depois o Portas do tecnocrata do poder, dificilmente saberemos com certeza, mas fica pelo menos traçado o rasto: da direita à inglesa contra Cavaco, à candidatura de 1995 justificada por oportunidade, à gestão da troika que traiu ponto por ponto o guião original.