Nem a direita é de direita

A especificidade portuguesa reside na dificuldade estrutural em reconhecer a direita enquanto tal como posição política normal.

No imaginário político português, a direita continua frequentemente associada à suspeita de anti-democracia ou mesmo de fascismo. Essa associação não é uma constante histórica nem uma regra das democracias liberais contemporâneas. Em múltiplos países europeus, partidos de direita governaram de forma plenamente democrática, integrados na alternância normal do poder e reconhecidos como interlocutores legítimos. A especificidade portuguesa reside, antes, na dificuldade estrutural em reconhecer a direita enquanto tal como posição política normal.

Essa idiossincrasia nacional está bem patente na forma como o PSD é apresentado como ‘a direita’ do sistema político português, apesar de os seus fundadores e dirigentes contemporâneos afirmarem reiteradamente que o partido não é, nem nunca foi, de direita. Para compreender esta dissonância, não é necessário recorrer a definições teóricas complexas. Basta atender à história concreta do partido e às palavras de quem o construiu.

A social-democracia nasceu no movimento socialista europeu do século XIX, inicialmente marcada por um marxismo organizado, mas desde cedo atravessada por tensões revisionistas, evoluindo ao longo do século XX para um reformismo democrático. Rompeu gradualmente com o socialismo revolucionário marxista sem abandonar o campo da esquerda, posicionou-se no centro-esquerda e foi central na construção do Estado-providência e na consolidação da democracia parlamentar.

Desde a fundação do PSD, essa auto-compreensão foi explicitada sem ambiguidades. Em 1978, Francisco Sá Carneiro declarou que o partido não tinha qualquer afinidade com as forças de direita e que nunca seria uma força desse campo. Esta afirmação não foi circunstancial, mas programática, num momento decisivo da consolidação democrática.

O mais relevante é que esta posição se manteve ao longo de décadas e sob lideranças muito distintas. Em 2016, Pedro Passos Coelho, acusado de aplicar políticas ‘de direita’ durante o período da troika, afirmou que o PSD não era um partido de direita. Rui Rio reiterou a mesma ideia em contexto diferente. Em 2023, Francisco Pinto Balsemão afirmou que o PSD era um partido de centro-esquerda. Estas declarações atravessam gerações, conjunturas e perfis diversos. Não exprimem uma corrente marginal, mas uma linha identitária persistente. Perante estes factos, a conclusão é clara. O PSD não se define como partido de direita e nunca procurou sê-lo. A sua classificação como tal resulta sobretudo de uma leitura externa, dominante no discurso político e mediático português, que tende a agrupar sob a designação de direita tudo o que não pertence ao campo socialista ou à esquerda cultural hegemónica.

Chamar ‘direita’ ao PSD não descreve a sua identidade segundo os seus próprios critérios, mas atribui-lhe uma função sistémica. É de direita apenas em termos relativos, por se situar à direita do Partido Socialista. A direita deixa assim de ser uma tradição política identificável e passa a significar simplesmente aquilo que não é socialista.

Esta redução conceptual tem consequências profundas. Ao identificar uma força de centro-esquerda como direita, o sistema político português torna praticamente impensável a existência de uma direita assumida, doutrinariamente consciente e democraticamente legítima. O espetro político estreita-se, o debate empobrece e as diferenças deixam de ser nomeadas com rigor. A anomalia não reside apenas no facto de a direita portuguesa não ser verdadeiramente de direita, mas na incapacidade do regime em reconhecer a direita como possibilidade política normal numa democracia pluralista.