Os exames do final do secundário e de acesso à universidade revelam dois aspetos que deviam ser analisados. Por um lado, um sistema baseado no sucesso forçado dos alunos (o ensino público resultado do eduquês e das bizarrias das ciências da educação) é, no final dos ciclos, confrontado com um tipo de exigência que a escola pública não pratica ao longo do percurso. Por outro lado, os exames de final do secundário deviam ser aplicados pelas próprias universidades, como critério de acesso a cada curso, pois são estas que sabem melhor do que ninguém que aptidões e conhecimentos o aluno deve revelar, tendo em conta o curso e o respetivo mercado de trabalho. Claro que as universidades não querem esta medida porque isso implica mais trabalho e mais burocracia sem correspondente compensação financeira.
E se a exigência dos exames finais já expõe as fragilidades de um sistema que não a pratica ao longo do percurso, a forma como esses mesmos exames foram este ano organizados veio confirmar o mesmo padrão de falta de rigor. A "barracada" colossal dos exames nacionais deste ano é mais um exemplo da nossa crónica falta de objetividade, rigor, responsabilização (accountability), humildade e verdadeira capacidade de aprender com os erros e corrigir o que não funciona. Seguem-se algumas evidências incontestáveis.
A digitalização dos exames é uma medida fundamental. Torna a classificação mais rigorosa, objetiva e equitativa, permitindo que cada prova seja corrigida por vários classificadores e não apenas por um. Além disso, reduz deslocações desnecessárias, elimina o transporte físico de provas e poupa muitas horas de trabalho administrativo aos professores. Só estes benefícios justificam plenamente a reforma.
Outra questão, porém, é a forma como foi implementada. Uma mudança desta dimensão exigia uma testagem progressiva, envolvendo técnicos e serviços com profundo conhecimento de todo o processo. Reformar não é simplesmente ligar um novo sistema e esperar que tudo funcione.
Em abono da verdade, importa reconhecer que este processo já vinha do anterior governo socialista. No ano passado foi realizado um projeto piloto com apenas um exame. Em vez de passar imediatamente para uma aplicação quase generalizada, teria sido mais prudente alargar a experiência a três ou quatro exames, sobretudo aos de Português e Matemática, que envolvem um número muito elevado de alunos, corrigindo problemas antes da implementação total. Acredito até que o ministro da Educação e os respetivos secretários de Estado só numa fase adiantada se tenham apercebido do caos que se instalou este ano, com múltiplas falhas simultâneas de um processo muito mal executado. Considerando o significado dos exames para os alunos e para o país, este episódio representa uma quebra de confiança grave. A área da educação está arrasada, em termos de confiança nos políticos, desde Maria de Lurdes Rodrigues, e este foi um revés brutal para um ministro que tinha conseguido, até aqui, resgatar um capital de confiança inédito.
Há ainda um erro recorrente na forma como, em Portugal, se fazem reformas. Reformar é fazer experiências nem desmantelar serviços de um dia para o outro, fundir estruturas, criar novas entidades e mudar siglas sem garantir que os processos funcionam. Isso não é reformar, é improvisar.
Neste caso, convém não misturar tudo, como tantas vezes acontece entre nós. A digitalização dos exames é uma boa reforma e faz todo o sentido. O problema não é o objetivo da medida, mas a forma precipitada e pouco preparada como foi executada. Os discursos de figuras importantes do PSD, a tentarem descartar responsabilidades em vez de reconhecer o óbvio, mostram também a degradação da classe política, acompanhada
ainda pelo oportunismo político da oposição e dos sindicatos, que aproveitaram o caos para atacar mudanças necessárias, como a própria digitalização dos exames, em vez de distinguir entre o mérito da medida e os erros da sua execução.