segunda-feira, 09 fev. 2026

Eleições ou referendo ao medo?

Portugal assemelha-se cada vez mais à anedota em que o pessimista diz ao otimista “isto não pode ficar pior”, e o otimista responde “pode, pode”.

Estas eleições parecem menos um ato político e mais um exercício coletivo de nervosismo. O desfile de apoios a António José Seguro tornou-se tão vasto e heterogéneo que acaba por o desvalorizar. Apoiantes de Seguro, não socialistas por Seguro, católicos por Seguro, democratas por Seguro e todo o cidadão que detesta André Ventura sentiu a necessidade quase terapêutica de declarar publicamente o seu apoio, mesmo que apenas para si próprio.

O fenómeno é revelador. Não se trata de entusiasmo por um candidato, mas de rejeição de outro. Estas eleições não escolhem um Presidente da República. Funcionam como um referendo emocional a André Ventura. A pergunta real não é quem tem melhores qualidades para o cargo, mas se se gosta ou se se odeia Ventura.

O resultado é a eleição simbólica de duas figuras sem dimensão presidencial. O Presidente da República deveria ser um referencial de experiência, maturidade política e autoridade institucional. Em vez disso, temos uma escolha moldada pelo medo, pela reação e por uma leitura moral simplificada da realidade política.

Construiu-se um quadro artificial em que um dos candidatos é apresentado como símbolo máximo da democracia e da liberdade, quando é apenas um político normal, mais conhecido pelo modo como foi afastado dentro do seu próprio partido do que por qualquer visão estruturante para o país. O outro é retratado como a personificação dos piores totalitarismos do século XX, numa caricatura que substitui a análise por rótulos.

Convém recordar um dado básico. O cargo de Presidente da República em Portugal é maioritariamente ornamental. O poder efetivo para definir e impor políticas é limitado. Grande parte das decisões estruturais não depende sequer do Estado português, mas do enquadramento europeu. A eleição presidencial tem impacto sobretudo simbólico, discursivo e moderador. Pode reforçar vigilância, gerar debate e criar tensão institucional, mas não altera de forma substantiva o rumo político do país.

Ainda assim, o sistema reagiu como se estivesse em causa o colapso da democracia. A quase extinção da esquerda, com exceção do Partido Socialista, é um facto. A mobilização da direita do sistema também o é. Democratas-cristãos, setores do PSD e do CDS, grupos católicos, maçons e associações improváveis sentiram necessidade de apoiar um antigo secretário-geral do PS, apresentado como último reduto contra um fascismo iminente.

É neste ponto que a candidatura de António José Seguro se torna politicamente reveladora. Ela simboliza, involuntariamente, uma das patologias mais persistentes da política portuguesa: a substituição da esperança pela gestão do desânimo. Não nasce de uma visão de país, mas de uma carência. Não mobiliza convicções, acomoda medos. Não projeta futuro, administra receios.

O Partido Socialista aceita-o sem entusiasmo. A esquerda desconfia. A direita do sistema apoia-o por instinto de sobrevivência institucional. O paradoxo é evidente. Setores que se apresentam como de direita encontram refúgio num político formado no aparelho socialista, homem de confiança de José Sócrates, cuja carreira não terminou por rutura moral, mas por derrota numa disputa interna de poder.

António José Seguro não é uma alternativa. É um sintoma. Não responde a uma crise nacional. Confirma que o sistema desistiu de se regenerar. A sua candidatura representa um agregado de órfãos políticos à procura de uma bóia, do chamado mal menor, da continuidade sem sobressaltos. O sistema a tentar sobreviver a si próprio.

A democracia assenta na liberdade de escolha. Essa liberdade implica risco, erro e responsabilidade. Quando a escolha passa a ser tratada como ameaça, quando optar fora do consenso é visto como desvio moral, não se fortalece a democracia. Acrescenta-se à sua fragilidade estrutural uma mediocridade política que se apresenta como virtude.

Permanece a dúvida sobre o posicionamento dos não socialistas caso o candidato liberal tivesse chegado à segunda volta. A possibilidade existiu, mas uma acusação de comportamento abusivo, surgida nos últimos dias de campanha, passou a dominar o debate e inviabilizou qualquer cenário de vitória.