sexta-feira, 06 fev. 2026

Dois mandatos desapontantes: Marcelo e normalização do país adiado

Não é coerente sustentar o edifício durante dez anos e, na despedida, lamentar as ruínas como se fossem alheias.

No seu último discurso de Ano Novo, a 1 de janeiro de 2026, Marcelo Rebelo de Sousa recorreu a A Ilustre Casa de Ramires de Eça de Queiroz para pintar um retrato ambivalente dos portugueses. Invocando Gonçalo Mendes Ramires (o fidalgo generoso mas vítima de “fogachos e entusiasmos que acabam logo em fumo”, “desleixo”, “constante trapalhada nos negócios” e “esperança constante em algum milagre salvador”), destacou virtudes que, na sua visão, superariam defeitos ancestrais como o impulso efémero, a improvisação e a espera providencial. Reavivou assim a narrativa clássica do “país adiado”, agora com tom otimista: “ano novo, vida nova”, com mais Saúde, Educação, Habitação e Justiça. O diagnóstico seria aceitável se não partisse de quem, durante décadas, ocupou o centro do poder político e, nos últimos dez anos (2016-2026), o topo da hierarquia institucional.

Esta análise não se detém em traços pessoais, popularidade ou talento comunicacional. Avalia o mandato exclusivamente por três critérios institucionais: impacto estrutural no sistema político, uso substantivo dos poderes constitucionais e legado histórico no contexto dos cinquenta anos de democracia portuguesa.

Ao apresentar-se como observador externo, Marcelo omitiu a sua responsabilidade central na manutenção do sistema que critica. Diagnosticou impulsos curtos e esperança milagreira, mas calou que foi esse mesmo regime (por si legitimado, estabilizado e protegido) que perpetuou o adiamento crónico. Durante uma década, optou pela conciliação em vez da rutura, pelo afeto em detrimento da exigência, pela encenação simbólica no lugar da transformação responsável. Dispunha de autoridade moral e influência suficientes para confrontar bloqueios estruturais; escolheu antes garantir a normalidade de um sistema bloqueado.

A elevada popularidade final (72% de avaliações positivas segundo a Cesop/U. Católica (dezembro 2025) e 56% na Pitagórica/TVI/CNN), superior à de Cavaco Silva à saída (48%), não invalida o juízo. A aprovação conjuntural não se traduz em reconhecimento histórico duradouro. No ranking dos melhores Presidentes pós-25 de Abril (Pitagórica, dezembro 2025), Marcelo surge em quinto lugar com apenas 11%, atrás de Eanes (29%), Sampaio (26%), Cavaco (15%) e Soares (13%). O paradoxo define o mandato: aceitação ampla no presente, densidade escassa no longo prazo.

Reconhecendo o valor da gestão emocional em crises graves (pandemia, pós-troika, guerra na Ucrânia), o adeus expõe a fragilidade do exercício. Não é coerente sustentar o edifício durante dez anos e, na despedida, lamentar as ruínas como se fossem alheias. Esta postura reflete um empobrecimento político mais vasto das últimas décadas: cultura de gestão simbólica, incapaz de resolver atrasos profundos, mas sempre disponível para discursar de fora do poder.

A pergunta institucional decisiva é simples: saiu o país estruturalmente melhor após dez anos de Presidência? A resposta é não. Nenhum bloqueio central (colapso crónico do SNS, morosidade da justiça, crise habitacional explosiva, estagnação da produtividade, burocracia asfixiante da administração pública) foi significativamente impulsionado ou viabilizado por Belém. A influência presidencial gastou-se em crises conjunturais, nunca nas causas estruturais. O impacto foi, apesar do capital político inicial excecional, praticamente nulo.

O uso dos poderes constitucionais reforça a avaliação negativa. As três dissoluções da Assembleia da República (novembro 2021, novembro 2023, março 2025) (recorde partilhado apenas com Ramalho Eanes) foram formalmente legítimas,

mas acumularam instabilidade, encurtaram ciclos governativos e desgastaram instituições. Normalizaram a transitoriedade sem gerar consolidação duradoura.

A dissonância entre discurso e prática atinge aqui o ponto mais grave. O Presidente que, no fim, descreve um país de “trapalhada” e “desleixo” legitimou governos falhados, normalizou incompetência administrativa e evitou confrontos quando dispunha de autoridade para os assumir. Esta incoerência distingue-o negativamente de antecessores que pagaram custos institucionais pelas suas escolhas.

A própria função presidencial saiu enfraquecida. A hiperexposição mediática transformou o cargo numa presença omnipresente e num moderador emocional da opinião pública, erodindo distância, solenidade e autoridade moderadora.

No plano externo, prevaleceu a cordialidade diplomática e o gesto simbólico, com exceções pontuais de exigência (como o boicote inédito à cimeira da CPLP em Bissau (julho 2025), primeira ausência de um Presidente português em 29 anos, em protesto contra a presidência rotativa da Guiné Equatorial). Esses raros momentos não compensam a normalização geral.

O legado histórico resume-se a uma memória mediática de proximidade e comunicação emocional, sem marca institucional duradoura, reforma catalisada ou visão estratégica de país.

A comparação com os antecessores é esclarecedora: Eanes deixou a estabilização democrática, Soares a afirmação europeia, Sampaio a autoridade moral associada à responsabilidade, Cavaco a reserva institucional. Marcelo, apesar da popularidade final, fica atrás em densidade histórica e estrutural.

Em síntese: impacto estrutural nulo, instabilidade acumulada, dissonância grave, enfraquecimento do cargo e legado ausente tornam este um dos mandatos presidencial mais desapontantes dos últimos cinquenta anos (não por falta de empatia ou comunicação, mas pelo desperdício de um capital político único na normalização do bloqueio em vez do seu confronto). Uma lição severa para o futuro da magistratura de influência.

Em balanço institucional, estes dois mandatos não corrigiram os defeitos que denunciavam, tendo antes contribuído para a sua normalização.