Num dos processos jurídicos mais reveladores do século XXI nos Estados Unidos, o magnata dos media Rupert Murdoch utilizou como argumento de defesa, para alterar a correlação de poder entre os filhos no seio da sua empresa, que apenas um deles garantiria a manutenção de uma visão conservadora, enquanto os outros representariam a visão típica do liberal-progressismo. Dizia Murdoch que o canal televisivo Fox e os seus jornais eram das poucas vozes vagamente conservadoras face a meios de comunicação liberais monolíticos. Manter essa voz conservadora era, no seu entender, vital para o futuro do mundo anglófono. Ceder totalmente o poder às elites culturais liberais e às suas visões progressistas do homem desenraizado, conhecidas pelo conceito "woke", seria acelerar a destruição da civilização ocidental.
Este processo decorre praticamente em paralelo com uma alteração ideológica de grande relevo no mundo anglo-saxónico. A luta travava-se não só entre a visão do mundo conservadora e a liberal-progressista, mas também no interior do próprio conservadorismo norte-americano. Donald Trump tornou-se a figura maior desse novo conservadorismo, e o episódio Murdoch-Trump simboliza uma passagem histórica: do conservadorismo de elite ao conservadorismo de revolta popular.
Murdoch encarna um conservadorismo de elite empresarial e cultural dos anos 80 a 2000, que representava valores tradicionais, família, religião, patriotismo e livre mercado forte, mas dentro de um quadro globalista e institucional. A sua orientação era a de que a direita deveria lutar contra o monólito liberal-progressista nos media, nas universidades e na cultura. Era anti-"woke" no plano cultural, não antielitista.
O próprio Murdoch é representante maior de uma elite transnacional, australiano-britânico-americano. Apoiava a imigração qualificada, o comércio livre, o neoconservadorismo em política externa, nomeadamente a guerra do Iraque, e um capitalismo corporativo sofisticado. O seu receio principal era a destruição civilizacional provocada pelo progressismo cultural desenraizado. A sua conceção de conservadorismo é, neste sentido, relevante para compreender a transformação que se operava no seio do próprio conservadorismo: um conservadorismo que combatia o progressismo cultural, mas que nunca pôs em causa as estruturas globais e institucionais em que ele próprio prosperava.
O fator Trump não será apenas um epifenómeno de rutura no sistema americano devido ao carisma de uma personagem, mas o produto de um contexto que permite o seu surgimento: o esvaziamento económico de vastas regiões do interior americano, o impacto devastador da globalização sobre a classe trabalhadora branca e latina, o colapso da mobilidade social intergeracional, a crescente desigualdade entre as grandes metrópoles costeiras e o interior do país e o sentimento de que as elites, tanto democratas como republicanas, tinham abandonado qualquer compromisso real com a soberania nacional e com o bem-estar do cidadão comum.
Sem integrar adequadamente estas dinâmicas económicas, demográficas e institucionais, a explicação permanece demasiado centrada na esfera das ideias e das personalidades, correndo o risco de reduzir uma transformação histórica complexa a uma narrativa simplista de choque entre elites cosmopolitas e um líder carismático.
Trump conseguiu canalizar e protagonizar a desilusão com aquilo em que, em grande medida, se transformou o liberalismo progressista, no plano da economia e dos valores. Essa desilusão corporizou-se no americano médio conservador, que se sentia traído pela globalização, pela imigração descontrolada, pela correção política e pela decadência cultural. Ao falar diretamente para o homem comum e expor os media, não só liberais como também conservadores, como parte de um mesmo sistema que manipulava o cidadão comum, conquistou uma vantagem decisiva. O conservadorismo ou se transformava ou definhava.
A relação de Murdoch com Trump, anterior à sua primeira candidatura à presidência, é ilustrativa da cisão dentro do conservadorismo. Murdoch considerava-o um "farsante", uma figura menor, e apoiou outras figuras do Partido Republicano, como Jeb Bush e Marco Rubio. Trump seria um embaraço para os Estados Unidos. Num dos primeiros confrontos internos do partido, transmitido pela Fox, a pivot confrontou Trump de forma mais incisiva do que os restantes candidatos, nomeadamente com questões incómodas sobre os seus comentários relativos a mulheres. O conflito ficou definido: Trump passaria a atacar a Fox e o próprio Murdoch.
Aconteceu então algo decisivo, que não se explica apenas pela personalidade de Trump ou pelo seu conhecimento do meio televisivo. O público da Fox, o americano médio, muitas vezes da classe média baixa, foi capturado por Trump e virou-se contra o próprio canal. O público estava desse lado, e isso alterou profundamente o equilíbrio.
Com o avançar do posicionamento nas presidenciais de 2016, Murdoch, por razões estratégicas e de negócio, acabou por apoiar Trump quando percebeu que a sua candidatura seria vencedora. A imagem icónica de ambos num campo de golfe simboliza esse ajustamento. Trump corporizou a mutação inevitável do conservadorismo na sua luta pela sobrevivência e adaptação aos tempos.
O predomínio da vertente defensiva e elitista do conservadorismo, centrada na preservação de instituições e valores através de think tanks, partidos estabelecidos e elites económicas, deu lugar a um conservadorismo ofensivo e populista. Este novo conservadorismo deixou de confiar nas elites tradicionais, incluindo as conservadoras, vendo o establishment como parte do problema, demasiado afastado do homem comum e capturado por dinâmicas globais.
Esta tendência passou a privilegiar a soberania nacional, as fronteiras, a identidade cultural concreta e um protecionismo económico seletivo, articulando uma retórica antielitista mais direta. Os meios utilizados por Trump para passar a mensagem, como redes sociais, comícios, podcasts e cultura digital, romperam com os media tradicionais, vistos como veículos de uma mundividência liberal-progressista.
O conservadorismo deixou de ser predominantemente matéria de think tanks, clubes de campo e Wall Street. Tornou-se mais popular, mais nacionalista e mais cético em relação às instituições, incluindo as conservadoras. Trump mostrou que era possível conquistar poder atacando o establishment da própria direita. O velho conservadorismo de Murdoch era mais económico e institucional. O trumpismo colocou a identidade cultural — quem somos enquanto povo — e a luta contra o "woke" no centro, muitas vezes acima do livre mercado.
A defesa da soberania e da identidade nacional passou a ser também cultural, como resposta à erosão promovida por um mundo "líquido" das elites globais. Mesmo elites conservadoras passaram a ser vistas com desconfiança quando demasiado integradas nesse sistema. Daí expressões como "drain the swamp" e o ataque aos "RINOs", Republicans In Name Only.
De uma matriz prudente e institucional, passou-se para uma postura mais disruptiva, retórica e antissistema. Trump não conserva tanto quanto reage e mobiliza contra a transformação acelerada provocada pelo progressismo. O conservadorismo liberal-clássico e neoconservador foi parcialmente substituído por um nacional-conservadorismo de natureza populista.
Esse discurso baseia-se frequentemente na emoção, na reação imediata e na eficácia comunicativa. O ambiente político tornou-se profundamente pós-moderno: vence quem constrói a narrativa mais eficaz. A ironia é que esse ambiente foi em grande medida moldado pelas elites culturais progressistas, mas foi Trump quem melhor o explorou.
Esta mudança é profundamente disruptiva. A ideia de uma direita respeitável, integrada nas regras do jogo institucional e global, tornou-se insuficiente perante a velocidade da transformação cultural e económica. Este novo conservadorismo exprime a desilusão com a globalização, com o liberalismo transformado em progressismo cultural e com uma direita mais preocupada com a respeitabilidade do que com a representação.
O conservadorismo tornou-se menos conservador no sentido clássico e mais reativo, procurando recuperar o que entende ter sido perdido.
Foi uma transformação aparentemente inesperada, mas que, em 2026, apresenta um desfecho incerto, também devido à instabilidade associada a lideranças como Trump. Este tipo de oposição revelou eficácia na mobilização, mas a sua continuidade permanece em aberto.
Num contexto marcado pela simplificação e pelo maniqueísmo, importa notar que a crítica a figuras como Trump ou Orbán não implica adesão ao consenso liberal-progressista. A alternativa ao populismo não se confunde automaticamente com esse paradigma dominante.
A realidade política contemporânea não se esgota nesse falso dilema. O caso húngaro recente é ilustrativo. Nas eleições de 12 de abril de 2026, o partido Tisza de Péter Magyar obteve uma maioria parlamentar qualificada com mais de dois terços dos assentos, pondo fim a 16 anos de poder de Viktor Orbán. Esta vitória não representou uma viragem progressista, mas sim uma mudança para um conservadorismo de centro-direita mais pró-UE, que valoriza a soberania nacional e a identidade cultural num registo claramente mais institucional, pró-europeu e menos confrontacional com Bruxelas.
No entanto, esta direita que rejeitou Orbán não deve ser vista nem automaticamente como continuação do novo conservadorismo nacionalista, nem com a sua rejeição. Em muitos países, a direita tradicional foi substituída precisamente por se ter acomodado ao sistema liberal-progressista. A vitória do Tisza mostra antes uma reabsorção parcial do eleitorado conservador num projeto mais alinhado com as instituições europeias, capaz de ganhar dentro do sistema sem o questionar de forma radical.
A objeção de que a Hungria é um caso singular, país pequeno, culturalmente homogéneo e periférico na União Europeia, é pertinente, mas incompleta. O que é transferível não é o modelo concreto, mas o princípio: é possível articular soberania nacional, enraizamento cultural e responsabilidade institucional sem reproduzir certos excessos do designado populismo. Durante anos, essa combinação foi considerada impossível. A Hungria de abril de 2026 demonstrou que não é, ainda que num sentido diferente do orbanismo.
Esta eleição ocorreu num momento em que o trumpismo dá sinais de desgaste no seu apoio popular. Ainda assim, essa alternativa tem limites. Uma direita institucional, sem energia disruptiva, corre o risco de ser reabsorvida pelo consenso dominante. A via húngara corrige os excessos de Trump, mas não resolve necessariamente os problemas de fundo que este diagnosticou com precisão.
O desafio, portanto, não está em escolher entre extremos, mas em reconstruir uma alternativa política sólida, capaz de conciliar enraizamento cultural, responsabilidade institucional e defesa do bem comum, sem ceder ao radicalismo identitário nem à ortodoxia progressista dominante. Existe espaço, e sobretudo necessidade, para caminhos que não se reduzam nem ao populismo disruptivo nem ao consenso liberal-progressista.
A questão deixou de ser se essa síntese é desejável. Passou a ser se é possível. Se falhar, o Ocidente arrisca-se a ver o conservadorismo oscilar indefinidamente entre a impotência respeitável e a disrupção que intimida e polariza. Nesse vazio, deixará de estar em causa apenas quem governa, e passará a estar em causa a própria capacidade da civilização ocidental de se preservar.
Figuras como Meloni, Péter Magyar ou Vance poderão representar tentativas dessa transição. Mas o problema essencial já não é de liderança: é de forma. Ou o conservadorismo consegue transformar a energia da revolta em ordem duradoura, ou ficará condenado a ciclos de frustração que, no limite, beneficiam o sistema que pretendia contestar.