Um amigo (LG) descreveu-me o seu almoço num centro comercial, o que nos leva ao cerne de uma evidência que já nem a esquerda debate: a de que nem todo o capitalismo é bom.
«Acabo de almoçar num sinistro "food court" de um centro comercial da zona oriental de Lisboa, enquanto fazia tempo para a abertura de um serviço público ali instalado.
Quando acabei, peguei na bandeja e preparava-me para a levar ao móvel de recolha de tabuleiros. No preciso momento em que me levanto, uma empregada de origem africana aproxima-se e diz-me: "Pode deixar, que eu levo."
Sorri e respondi, educadamente: "Deixe estar. Eu coloco. Não me custa nada."
Ela endureceu a expressão e respondeu-me, quase como se estivesse a repreender-me: "Eu levo. É assim que ganho o meu dinheiro."
Larguei o tabuleiro e deixei-a levá-lo.
Enquanto me afastava, pensando naquele episódio com o seu quê de insólito, rodeado por dezenas de pessoas absortas nos respetivos telemóveis, percebi: aquela mulher é que é esperta. Enquanto nós, clientes, fazemos gratuitamente aquilo que antes era trabalho de alguém (levantar o tabuleiro, separar o lixo, devolvê-lo ao lugar), ela entendeu uma coisa simples: se todos lhe retirarem essas pequenas tarefas, um dia deixa de ser necessária.
No meio daquele "food court" triste, talvez fosse a única pessoa verdadeiramente consciente do valor (reduzido) do seu (nosso) trabalho.»
Este episódio é uma boa porta de entrada para um fenómeno bem mais vasto. Perguntamo-nos muitas vezes o que é este novo tipo de capitalismo, extrativo e amoral, se existe, se é apenas uma invenção da esquerda ou de uma qualquer obscura visão antiliberal, mas há exemplos bem concretos. O conhecimento cada vez mais aprofundado da psique humana permite um tipo de exploração único que, a par da chamada economia da atenção, vai além da ideia de que as novas tecnologias sempre implicaram o fim de certas profissões. Estamos num novo registo, em que o consumidor é também transformado em produtor não pago, realizando trabalho para a empresa que lhe vende os produtos. O consumidor substitui, por exemplo, os operadores de caixa dos supermercados, fazendo ele próprio o registo e o pagamento dos produtos que compra; num restaurante, levanta e devolve o tabuleiro e separa o lixo; ou, no sistema IKEA, monta os móveis que compra. Com isto não só se destroem profissões (dando maiores lucros a certo tipo de empresas), como, ao consumirmos os seus produtos, ainda trabalhamos para elas gratuitamente.
Este fenómeno tem nome próprio, atribuído por quem pensou sobre ele antes de nós. Ivan Illich chamou-lhe shadow work, ou trabalho de sombra, conceito que cunhou nos anos 80 para descrever esta atividade não remunerada, transferida silenciosamente do produtor para o consumidor e disfarçada de simples "uso" de um produto ou serviço, razão pela qual nunca é contabilizada como tal.
Poder-se-ia objetar que isto não é mais do que economia da experiência, otimização de custos ou self-service economy. São três coisas distintas, e vale a pena separá-las: a economia da experiência desenha o ato de consumir como algo agradável em si mesmo; a otimização de custos elimina etapas caras do processo produtivo; a self-service economy transfere essas etapas para o cliente sem as eliminar. O que temos aqui é a otimização de custos disfarçada de economia da experiência, através dos mecanismos da self-service economy: a empresa não reduz o trabalho, apenas muda quem o faz e deixa de lhe pagar por ele.
Há vantagens reais para o consumidor que não se podem ignorar: poupança de tempo, rapidez, autonomia e a possibilidade de evitar filas e a interação social que, para muitos, é desgastante. Não é por acaso que tanta gente escolhe voluntariamente o self-checkout mesmo havendo uma caixa com funcionário livre ao lado. Estamos perante uma nova etapa da rentabilização do conhecimento profundo da psique humana: estes sistemas são desenhados, com recurso à economia da atenção e a técnicas comportamentais, para parecerem escolhas voluntárias e agradáveis (gamificação do checkout, barras de progresso, sensação de eficiência e controlo), de forma que o utilizador sinta que está a ganhar algo, não que foi posto a trabalhar.
O problema não é a conveniência em si, mas o que acontece à poupança de custos gerada. Em teoria, se o consumidor absorve parte do trabalho, o preço final devia refletir essa poupança. Na prática, isso raramente acontece: o valor extraído fica do lado da empresa, sem ser repartido em preços mais baixos. É aí que a conveniência se transforma em exploração.
O que Illich descreveu nos anos 80 agravou-se de um modo que ele próprio ainda não podia prever. Por um lado, o disfarce tornou-se psicologicamente mais sofisticado: já não basta transferir a tarefa, é preciso desenhá-la de forma a parecer desejável, recorrendo a décadas de investigação comportamental entretanto acumulada. Por outro, a escala mudou de natureza: o que era trabalho pontual, como montar um móvel ou encher um depósito, tornou-se contínuo e ubíquo através do smartphone, presente em cada scroll, cada CAPTCHA, cada avaliação deixada. E, por fim, juntou-se-lhe um elemento que nos anos 80 nem existia como categoria económica relevante: a extração de atenção e de dados, que faz com que o consumidor não apenas realize o trabalho gratuitamente, mas ainda gere, ao fazê-lo, informação comportamental que a empresa recolhe e rentabiliza. A lógica do shadow work manteve-se a mesma; o instrumento tornou-se incomparavelmente mais preciso e o seu alcance tornou-se quase total.
Em relação a estas práticas, a palavra "amoral" deixa de ser um adjetivo e passa a ser uma descrição de comportamento: um sistema que gera custos evitados (em salários que deixam de existir, em horas de trabalho transferidas para o cliente sem retribuição) e não devolve nada desse ganho a nenhuma das duas partes que o produziram (nem ao trabalhador que perdeu o posto, nem ao consumidor que o substituiu) não tem contrapartida moral embutida no seu próprio funcionamento. Não é que ignore deliberadamente a possibilidade de uma vida melhor, mais bem remunerada, mais digna; é que essa possibilidade nunca entra na equação. A equação é uma só: lucro crescente, e todos os instrumentos disponíveis (tecnológicos, comportamentais, psicológicos) são recrutados ao seu serviço. Não há decisão de excluir o bem-estar humano do cálculo; há apenas ausência desse termo na fórmula. É essa ausência, e não uma intenção maligna, que torna o sistema amoral: não escolhe fazer mal, simplesmente nunca foi construído para perguntar se faz bem.
Talvez por isso a empregada do food court seja, afinal, a figura mais lúcida deste história verídica. Numa sala cheia de gente absorta em telemóveis, a fazer gratuitamente aquilo que já foi trabalho de alguém, foi ela, e só ela, que se recusou a entrar na equação sem se fazer contar nela.