A fronteira entre facto e opinião, entre verdade e manipulação, está hoje praticamente apagada. E isso não acontece por acaso. Quando deixamos de saber distinguir o que é verdadeiro do que é falso, e o critério passa a ser unicamente ideológico, quem controla os meios que produzem essa confusão passa a controlar também as mentes e os corações.
Há um nome não muito citado para este fenómeno: hiperstição. O termo nasceu na década de 1990, criado por um grupo de filósofos reunidos na Cybernetic Culture Research Unit, entre os quais se destacam Nick Land, Sadie Plant e Mark Fisher. A palavra funde ‘hiper’ com ‘superstição’ e descreve uma crença que se torna realidade apenas por ser repetida e interiorizada em massa, mesmo sem qualquer base factual. Não é o mesmo que propaganda, imposta de cima por um Estado, nem o mesmo que uma fake news, um facto falso isolado. A hiperstição é mais funda e mais difusa: é a própria ficção a produzir o real, a criar o mundo que descreve apenas por ser insistentemente contada. Este regime de crença é relativamente novo, diferente da mentira e da propaganda.
A modernidade, em nome da emancipação do indivíduo, foi corroendo as estruturas que antes filtravam a relação entre o poder e as pessoas: a família, a comunidade, a religião. Cada uma funcionava como barreira, discutindo e digerindo o discurso do poder antes de chegar ao indivíduo. Desaparecidas, esse caminho é agora direto, sem filtro. É esse vazio que a hiperstição ocupa.
Os meios que hoje fabricam essa realidade paralela são conhecidos: televisões a emitirem vinte e quatro horas por dia, redes sociais que funcionam como fábricas permanentes de indignação e algoritmos que decidem o que vemos antes de sabermos que existe. Estes meios já não se limitam a informar; produzem a própria realidade que descrevem. Os donos das narrativas já não se preocupam com o primado dos factos e da verdade.
O mecanismo repete-se em todo o espetro político e em registos diferentes. Nos Estados Unidos, a imagem de Trump como ameaça existencial à democracia tornou-se, para muitos, mais real do que qualquer facto isolado sobre o seu governo; do lado oposto, a narrativa de eleições roubadas em 2020 seguiu o mesmo caminho de baixo para cima, sem provas, mas repetida até ser apresentada como verdade. Na média progressista, a ideia de Israel como Estado genocida, tese contestada mas instalada como consenso em certos círculos, é induzida massivamente. No Brasil, a mesma lógica descentralizada sustentou durante anos a crença de fraude nas urnas eletrónicas. Já na Rússia, o Estado fabricou de cima a narrativa de uma ‘desnazificação’ da Ucrânia, prova de que o mecanismo também serve o poder instituído, não só a multidão. A estrutura repete-se tanto no establishment liberal-progressista como na nova direita emergente.
Há outra dimensão sinistra: a produção do inimigo. Rotular o adversário, hoje sobretudo em debates sobre imigração, vacinas ou o conflito Israel-Palestina, como portador de ódio ou agente de desinformação não é só desqualificá-lo, é construir uma narrativa que legitima a sua exclusão e recompensa quem a repete com superioridade moral confortável.
A hiperstição não é um erro nem uma ilusão passageira. É uma tecnologia de poder que substitui a verificação pela viralização, o facto pela repetição e a autoridade do real pela do algoritmo.
O resultado é o colapso de qualquer ética partilhada. Quando tudo pode tornar-se verdade bastando ser dito com suficiente insistência e poder, perde-se o critério comum que distingue o razoável do insano. Fica apenas o que viraliza. E com isso perde-se o chão mínimo que sustenta a possibilidade de nos entendermos uns aos outros.