terça-feira, 18 ago. 2026

A imigração africana e a hipocrisia ocidental

Importa fixar uma asserção simples: quem tem condições materiais, dignidade, bem-estar e prosperidade raramente quer sair da sua terra.

A história factual do caos imigratório terá de partir da constatação de uma grande hipocrisia e cinismo das alegadas democracias liberais progressistas. As causas são multifatoriais, mas esta é decisiva.

A história das deslocações de milhões de seres humanos não se compreende por lentes simplificadoras, nem são multidões de gente bondosa e infeliz, nem exércitos de demónios destruidores. O debate corrente sobre a imigração ilude o fundamental e está repleto de cinismo, leviandade, hipocrisia e oportunismo.

No caso específico de África, muita gente foge sobretudo porque um continente riquíssimo vive em guerra, exploração e fome exponenciais. A União Europeia, de modo hipócrita, faz com África algo semelhante ao que acontece com a Ucrânia: despeja dinheiro, mas alimenta em simultâneo a economia que diz combater. Estes hipócritas europeus negoceiam, ao mesmo tempo, com tiranias, cleptocracias e governos africanos brutais. Importa fixar uma asserção simples: quem tem condições materiais, dignidade, bem-estar e prosperidade raramente quer sair da sua terra.

Este continente é riquíssimo em recursos naturais mas simultaneamente tem os países com o PIB per capita mais baixo do planeta. Em 2025, o PIB nominal de todo o continente foi estimado em cerca de 2,82 biliões de dólares, com um PIB per capita nominal de apenas 1920 dólares, ou seja, aproximadamente o PIB de uma única economia europeia de grande dimensão, distribuído por 1,4 mil milhões de pessoas. O estudo de referência de Léonce Ndikumana e James K. Boyce (Africa's Odious Debts, 2011) mostra-nos uma face dessa realidade. Entre 1970 e 2008 saíram do continente mais de 700 mil milhões de dólares em capital, provenientes de trinta e três países subsarianos, um valor que, com juros, ascende a cerca de 944 mil milhões em 2008, praticamente equivalente ao PIB total da África Subsariana nesse ano. No mesmo período, a dívida externa combinada desses países subiu de menos de 50 mil milhões para pouco mais de 200 mil milhões de dólares.

Assim, a África Subsariana é, na verdade, credora líquida do resto do mundo. Uma África espoliada pelas suas próprias elites, que contraem dívidas nunca pagas na íntegra e desviam parte dos empréstimos para contas privadas no estrangeiro. Não se trata de um fenómeno unilateral, mas de uma relação de cumplicidade com os credores estrangeiros.

O sistema político dominante no Ocidente é culpado por omissão e por interesse direto no negócio. As instituições que se apresentam como as grandes defensoras da transparência internacional são em larga medida, cúmplices, porque o que está em causa é sobretudo dinheiro e ganância, desviado com o conhecimento da banca e do setor financeiro ocidental, sobretudo através de jurisdições offshore. Quase meio bilião de seres humanos viviam em pobreza extrema em 2024, numa região que detém algumas das maiores reservas mundiais de matérias-primas críticas e cerca de 60% do melhor potencial solar do mundo.

No conjunto do continente, a maioria dos 54 países africanos é classificada como regime ditatorial ou híbrido, e apenas um único país, as Maurícias, atinge a categoria de democracia plena. A instabilidade democrática é, assim, um traço estrutural e generalizado, não uma exceção pontual, e, ainda assim, a União Europeia negoceia e assina acordos comerciais e de cooperação com Estados africanos classificados como autoritários pelos próprios índices internacionais. Muitas dessas elites vivem no maior dos luxos, enquanto as suas populações vivem na maior das misérias.

Um dos argumentos recorrentes para justificarem o inevitável é que não negociar com ditaduras seria pior para as pessoas. Falso: a tese de que "interromper a cooperação agravaria o sofrimento das populações" funciona como um sofisma para racionalizar e perpetuar uma relação de exploração lucrativa. Transigir com regimes autoritários em nome da contenção de danos é conceptualmente análogo a calibrar a intensidade de um abuso para evitar a sua

escalada fatal: uma falsa prudência que, sob o pretexto da mitigação de riscos, financia a infraestrutura da opressão e transforma os cooperantes ocidentais em cúmplices diretos do empobrecimento estrutural dessas populações. A Eritreia, um dos regimes mais fechados do mundo, sem eleições, sem imprensa livre e com serviço militar obrigatório indefinido amplamente documentado como trabalho forçado, foi repetidamente eleita para o Conselho de Direitos Humanos da ONU ao longo da última década, como outros regimes igualmente repressivos.

São enviados anualmente, por parte da UE, da ONU e de Estados a título individual, dezenas de milhares de milhões de dólares para África (a UE é o maior doador mundial de ajuda ao desenvolvimento), e uma parte significativa nunca chega verdadeiramente às populações. Alguns dos maiores recetores são ditaduras e cleptocracias como a RD Congo, a Somália, o Sudão e a Etiópia. Podemos perguntar: se o Ocidente fechasse a porta a esta legitimação de ditaduras, deixariam a China, a Rússia ou a Índia de negociar com esses regimes? Claramente que não, mas também não escondem essa relação. O que choca é as democracias europeias, de modo cínico e hipócrita, fingirem exigências que não cumprem, validando esses sistemas e as suas práticas.

No que diz respeito especificamente à imigração, o caos gerado é ainda potenciado pela procura de mão-de-obra barata no Ocidente, pelo viés progressista das elites, desligadas dos problemas reais das pessoas e preocupadas em sinalizar a virtude de um humanismo abstrato e vazio, e pelas políticas incompetentes de não integração seguidas pelos políticos europeus no poder.

Se se quisesse contribuir em parte com o caos migratório a partir de África, e com os destinos indignos e chocantes de milhões de seres humanos, seria condição mínima que as ditas democracias e organismos europeus deixassem de negociar com tiranias e cleptocracias africanas. Isto não significa cortar ajuda humanitária direta, que inclui saúde, educação e resposta a crises, e que deve manter-se ou reforçar-se independentemente do regime local. Significa recusar contratos de exploração de recursos, concessões mineiras e acordos comerciais lucrativos com regimes documentadamente repressivos, e sujeitar a ajuda orçamental a condicionalidade real e fiscalizada.

O problema não é a extrema-esquerda, nem a extrema-direita, nem o discurso do ódio. São, sim, as ditas democracias liberais, as elites africanas e os mercados internacionais os maiores inimigos de África. Precisamos de lucidez e de verdade sobre este tema