quinta-feira, 14 mai. 2026

O ego de Pedro Nuno Santos

Como ministro meteu-se em inúmeras trapalhadas, e saiu muito caro aos portugueses com a nacionalização desastrosa da TAP. Como líder do PS, sofreu a pior derrota da história do partido, reduzindo-o ao terceiro lugar parlamentar, o que nunca tinha acontecido aos socialistas. Ora, não conseguiu ficar mais de seis meses em silêncio.

SEXTA, 24
O ego de Pedro Nuno Santos

Pedro Nuno Santos (PNS) resolveu voltar à ribalta da política portuguesa. E regressou atacando colegas de partido por serem ‘taticistas’. Aparentemente, o ataque foi dirigido a Duarte Cordeiro, embora PNS não o tenha nomeado. Pareceu um ajuste de contas em público entre antigos amigos, o que fica sempre mal, o tipo de assunto a que os portugueses não dão a mínima importância.

Mas Pedro Nuno Santos deveria ser um pouco mais humilde. Como ministro meteu-se em inúmeras trapalhadas, e saiu muito caro aos portugueses com a nacionalização desastrosa da TAP. Como líder do PS, sofreu a pior derrota da história do partido, reduzindo-o ao terceiro lugar parlamentar, o que nunca tinha acontecido aos socialistas. Ora, não conseguiu ficar mais de seis meses em silêncio. O seu ego não aguenta a discrição nem o anonimato. Precisa das luzes do estrelato, como um vulgar cantor ou ator. Deveria aprender, por exemplo, com António José Seguro, que esteve uma década fora da política. Os portugueses respeitam essa humildade. Mas não gostam de egocêntricos como PNS.

 

SÁBADO, 25
O 25 de Abril

Um democrata festeja sempre o 25 de Abril. O Estado Novo, um regime autoritário, acabou nesse dia de 1974. Não se constituiu imediatamente uma democracia liberal e pluralista. Mas acabou uma ditadura. Sem o fim da ditadura, não haveria democracia.

Mas o festejo do 25 de Abril não é suficiente. O Processo Revolucionário em Curso (PREC), que se seguiu, procurou instalar outra ditadura, comunista, ou socialista terceiro-mundista. Pelos exemplos das ditaduras comunistas na Europa, teria sido muito mais violenta do que o Estado Novo. Aliás, a violência política marcou o período entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975, desde prisões arbitrárias e políticas, a mando do COPCON, até ataques terroristas e assassinatos políticos das FP-25 de Abril.

Se o 25 de Novembro derrotou a ditadura comunista, não criou imediatamente uma direita democrática em Portugal. A direita democrática só se começou a emancipar politicamente em 1979 com a primeira maioria absoluta da AD, liderada por Sá Carneiro. Mas a direita ficou sempre condicionada até hoje. Uma das piores heranças do 25 de Abril é a equivalência, ainda hoje feita por muitos nas esquerdas, entre a direita e o ‘fascismo’. Em Portugal, desde 1974, a direita nunca consegui alcançar a mesma legitimidade política da esquerda. Ao mesmo tempo, as esquerdas radicais conseguem passar como moderadas e como fazendo parte do regime, mesmo quando o combateram desde o início, e continuam a combater.

 

DOMINGO, 26
Negociações sobre os estreitos

O ódio quase generalizado a Trump impede quase toda a gente de ser imparcial e objetiva na análise da guerra do Irão. Os analistas que deixam as emoções toldar a sua lucidez estão a fazer um mau trabalho. Quase todos os analistas já decretaram a derrota dos Estados Unidos e a vitória do Irão. Talvez se estejam a precipitar.

É verdade que Trump desvalorizou a capacidade de resistência do Irão, cometeu erros e tem sido bastante errático, mas isso não significa uma derrota norte-americana. Grande parte da liderança iraniana desapareceu, o programa nuclear foi praticamente destruído, as capacidades militares estão muito diminuídas, e a economia está de rastos. O regime sobreviveu, mas ninguém sabe em que estado. Além disso, o Irão perdeu aliados regionais, como Qatar e os Emirados Árabes Unidos, que ajudavam a economia iraniana.

O bloqueio marítimo dos Estados Unidos pode ser fatal para a economia iraniana. Não pretendo diminuir a capacidade de resistência do regime, nem o modo como o uso brutal da força impede que as dificuldades económicas causem uma revolta política. Mas o bloqueio está a ser eficaz, e o Irão deixou de exportar petróleo para a China, a principal fonte de receita da sua economia. Mais, como acontece com todas as ditaduras corruptas, o poder político ganha muito dinheiro com as exportações de petróleo e de armas. Com o bloqueio americano, as oligarquias militares, religiosas e políticas do Irão estão a perder dinheiro, e muito. Vamos ver quanto tempo querem continuar a perder dinheiro.

 

SEGUNDA, 27
Merz e a Ucrânia

O chanceler alemão, Merz, fez duas declarações muito importantes sobre a Ucrânia. Reconheceu que a Ucrânia terá que abdicar de territórios conquistados pelos russos. Julgo que é a primeira vez que um líder europeu faz uma afirmação tão clara sobre a impossibilidade de recuperar militarmente os territórios ocupados pelas forças russas. Merz acrescentou mesmo que Zelensky poderia usar a adesão à União Europeia para convencer os ucranianos a perder território em troca de uma paz que traga prosperidade económica.

Em segundo lugar, Merz afirmou que não haverá uma entrada rápida da Ucrânia na União Europeia. Haverá uma solução provisória que traga vantagens económicas aos ucranianos, e investimento para reconstruir o país, mas o processo de adesão deverá respeitar certas condições. A Ucrânia dificilmente entrará na UE antes de 2030.

Estas declarações do chanceler alemão levantam ainda uma questão. Estará a Alemanha (juntamente com outros países europeus) a posicionar-se para intermediar um cessar-fogo e um acordo de paz entre a Rússia e a Ucrânia, agora que os Estados Unidos estão concentrados no Golfo?

 

TERÇA, 28
Os Emirados Árabes Unidos abandonam a OPEC

Os Emirados Árabes Unidos anunciaram que abandonam a OPEC no dia 1 de Maio. É uma decisão que terá impactos geopolíticos, mas sobretudo transformará o mercado global do petróleo. Apesar da já existirem tensões entre os Emirados e os sauditas, a decisão de Abu Dhabi é a primeira consequência importante da guerra do Golfo. Depois dos ataques iranianos a Abu Dhabi e ao Dubai, os Emirados não ficariam na OPEC com o Irão.

A decisão de Abu Dhabi enfraquece a OPEC, e aumenta a concorrência com a Arábia Saudita. Há muito tempo que os Emirados manifestavam descontentamento com as quotas de produção impostas pela OPEC aos seus membros. Os Emirados querem produzir, o mais rapidamente possível, 5 milhões de barris por dia para acelerar a diversificação da sua economia. A médio prazo, o preço do petróleo vai baixar com o aumento da oferta. Mais importante, a decisão dos Emirados pode marcar uma transição estrutural no mercado global do petróleo: de uma política de cartel em relação aos preços para uma situação de concorrência mais livre. Com que países irá a Arábia Saudita continuar a sua política de cartel? Com o Irão e a Rússia? Não parece nada provável depois de ter sofrido ataques militares do Irão, com a cumplicidade da Rússia.

A decisão dos Emirados também interessa aos Estados Unidos. Os norte-americanos foram sempre contra a política de cartel da OPEC. Além disso, se o Irão pode ficar próximo da China, assim Washington garante que os Emirados ficarão próximos dos EUA. A aliança entre Washington e Abu Dhabi foi reforçada.

Simultaneamente, a Jordânia anunciou a concessão do porto de Aqaba aos Emirados por um período de 30 anos. Os Emirados pretendem construir oleodutos e caminhos de ferro entre Abu Dhabi e Aqaba, e daí para portos israelitas (Haifa é uma possibilidade). Esses oleodutos evitam o estreito de Ormuz, o estreito de al-Shabaab na entrada do Mar Vermelho e até o Canal do Suez. Daqui a uns anos, poderemos assistir à exportação de petróleo de Abu Dhabi para a Europa através de Israel.

Em termos geopolíticos, a decisão dos Emirados também terá consequências importantes. Desde logo, reforça a aliança com Israel. Mas as implicações vão para além do Médio Oriente. As ligações entre os Abu Dhabi e a Jordânia e Israel fazem parte de um corredor geopolítico, comercial e de energia entre a Índia, os Emirados, a Jordânia, Israel e a Europa (a Grécia). Um corredor euro-asiático, que evita a China, a Rússia e o Irão.