Sábado, 20
O Chega virou-se para a esquerda
Depois de ter quase chegado a um acordo com o Governo sobre o pacote laboral, o Chega resolveu votar contra no Parlamento. E com um pouco de drama, pedindo o adiamento do voto por meia hora para uma última discussão do grupo parlamentar. Esta encenação era escusada e é irritante. O Chega já tem os vícios dos partidos antigos. Querem fazer dos portugueses estúpidos. Os dirigentes de Chegam acreditam que os portugueses não perceberam a encenação? Obviamente, já tinham decidido como votar quando pediram o adiamento.
Aliás, o Chega mostrou a sua má-fé a partir do momento que introduziu a idade da reforma nas discussões. A reforma faz parte do tema da segurança social e não da reforma laboral. Por definição, a reforma laboral diz respeito a quem trabalha e não a quem se reforma.
Ventura percebeu que chegou ao limite de votos no eleitorado de direita (terá sido a grande conclusão das eleições presidenciais) e agora quer conquistar eleitorado das esquerdas. O que não será muito difícil, dadas as tendências socialistas do Chega em matérias económicas. Alguma coisa está muito errada quando um voto do Chega emociona o líder da CGTP. Significa que o Chega não conta para as reformas económicas antissocialistas que muitos na direita querem.
Domingo 21
O Congresso do PSD
O chumbo do Chega ao pacote laboral do Governo estragou o Congresso do PSD. Foi um Congresso de ressaca, sem grande entusiasmo, e com congressistas mais desanimados do que animados.
Nem o regresso de Santana Lopes alegrou o partido. Acho muito bem que Santana tenha regressado e também acho bem que o partido o tenha aceitado sem rancores. No que toca a rancores, Pacheco Pereira tem muito a aprender com os militantes do PSD. Passou tantos anos no partido e nada aprendeu sobre o lado positivo da natureza humana.
A subida de Carlos Moedas, Pedro Duarte e Sebastião Bugalho a vice-presidentes do PSD são boas notícias. Moedas e Pedro Duarte são presidentes das maiores cidades do país. Sebastião Bugalho tem qualidades políticas evidentes e dos jovens será aquele com mais futuro. Esperemos que as suas convicções políticas se imponham a calculismos partidários. E que a sua irreverência ideológica se imponha ao pensamento oficial.
Segunda, 22
O anúncio do fundo soberano
A política de comunicação do Governo é um desastre. Veja-se o exemplo do anúncio da criação de um fundo soberano durante o Congresso. O Governo lança a ideia sem oferecer detalhes e depois deixa-a na praça pública a ser atacada. Ninguém do Governo vem a público defender a ideia. Todos os que são contra a iniciativa do Governo, à esquerda e à direita, ‘definem’ o fundo soberano, sem qualquer fundamento, e atacam a versão que criaram. Mas a culpa é do Governo que não explica a natureza das suas propostas, nem as defende em público.
Parece-me claro que o Governo importou a ideia da Europa. O PM e o ministro das Finanças notam que, numa era de protecionismo económico, quase todos os países da União Europeia estão a criar fundos soberanos, para poder intervir em matérias de interesse nacional económico, e resolveram fazer o mesmo.
Em relação ao fundo soberano, gostaria de fazer três pontos. O primeiro é muito breve: um fundo soberano não significa nacionalizações. Aliás, não acredito que o Governo vá fazer nacionalizações. Deveria fazer mais privatizações, mas esse é outro assunto. Em segundo lugar, será fundamental que o fundo soberano seja gerido por profissionais do setor financeiro, com provas dadas, e sem qualquer vínculo partidário.
Finalmente, há empresas estratégicas em Portugal onde os principais acionistas são empresas estatais chinesas, como a EDP e a REN (e, no setor financeiro, o BCP e a Fidelidade também têm como maior acionista a Fosum, controlada pelo Estado chinês). Por definição, quem decide as decisões desses acionistas é o Governo chinês. Se os acionistas chineses quiserem sair, e ninguém em Portugal controla essa decisão, pode fazer sentido um fundo soberano português ficar com as posições dos acionistas chineses. Na minha opinião, deveria ser sempre uma solução de transição, com criação de valor, para vender mais tarde a privados com retornos financeiros para o Estado português.
Terça 23
O novo PM britânico
O Reino Unido vai ter um novo PM, depois da demissão do atual, Starmer. Como todos os regimes democráticos, o britânico também é peculiar. Quando o partido de Governo, com maioria parlamentar, muda de líder, este torna-se PM sem necessidade de eleições. Aconteceu no passado recente com os conservadores, quando Boris Johnson substituiu Theresa May, e depois quando Liz Truss substituiu BJ e Sunak substituiu LT.
Neste momento, há um candidato à liderança dos trabalhistas, o antigo perfeito de Manchester, Andy Burnham. Será ele o novo PM britânico, só resta saber quando. Se não houve outros candidatos, será já em julho. Se houver mais candidatos, Burnham vencerá a eleição interna e será PM em setembro.
O primeiro dilema para Burham será a decisão sobre a convocação de eleições antecipadas. Burnham não tem que o fazer, mas pode convocar eleições antecipadas. Mais, estará sob pressão das oposições para convocar eleições antecipadas. Quando Boris Johnson substituiu Theresa May, e quando Liz Truss e Sunak chegaram à liderança dos conservadores, Burnham pediu publicamente a realização de eleições antecipadas, acusando os novos PMs de falta de legitimidade democrática. Passa-se agora exatamente o mesmo com Burham. Além disso, ele sabe que a tarefa de ser PM, hoje, no Reino Unido é muito exigente e que sem legitimidade eleitoral será um PM fraco.
Além disso, Burnham terá que tomar decisões difíceis. Vai seguramente virar a política do Governo à esquerda, com subidas de impostos e mais investimento público. É isso que a militância trabalhista quer. Mas terá que ser muito cauteloso com o aumento da despesa pública. As finanças do Reino Unido estão em muito mau estado com os défices anuais a crescerem (quase 5% do PIB) e a dívida pública a chegar aos 100% do PIB. Uma política fiscal expansionista pode causar uma crise financeira no Reino Unido.
Haverá seguramente eleições antecipadas no Reino Unido. Resta saber quando. No cenário mais arriscado para Burnham, convocará eleições até ao fim do ano para reforçar a sua legitimidade política. O risco, obviamente, será perder as eleições e deixar o n.º 10 uns meses depois de lá chegar. Num segundo cenário, será PM durante cerca de um ano, procurando adotar políticas populares e convocará eleições no fim do próximo ano. Mas Burnham enfrenta três problemas muito sérios. A economia britânica não vai crescer no próximo ano, o Governo não tem margem financeira para ser populista e, finalmente, os problemas com a radicalização dos imigrantes vão agravar-se. Burnham vai ter uma vida muito complicada como PM britânico.
Quarta, 24
A mulher de Sánchez ficou sem passaporte
É absolutamente extraordinário que a justiça espanhola tenha pedido à mulher do PM para entregar o passaporte por recear que fugisse do país. E Sánchez continua a afirmar, sem qualquer vergonha e embaraço, que não tem conhecimento sobre nada de ilícito praticado pela sua mulher. A mulher, o irmão e os homens do PSOE mais próximos de Sánchez enfrentam problemas com a justiça, e o PM espanhol nunca sabe de nada. Aliás, um antigo ministro, muito próximo de Sánchez, foi condenado esta semana a 24 anos de prisão.
Sánchez nunca sabe o que se passa com os mais próximos, mas está sempre preparado para atacar a justiça espanhola. Quando os problemas chegaram aos familiares e amigos do PM, ele descobriu que a justiça tem motivações políticas. Até hoje, nunca foi motivada politicamente, mas agora já é. Mais um político que quer fazer das pessoas estúpidas.
Na verdade, o que se passa é a tentativa do Governo espanhol de condicionar o funcionamento e a independência da justiça. Finalmente, começa a perceber-se na Europa que não era só o Governo de Orbán que ameaçava o Estado de direito e a separação de poderes. O Governo de Sánchez também o faz. No último Conselho Europeu, Merz foi muito duro com o PM espanhol e criticou-o precisamente por atacar a justiça espanhola. Não pode haver dois pesos e duas medidas. Contra Orbán ataques permanentes (muito bem). Com Sánchez, o silêncio (muito mal).