domingo, 18 jan. 2026

Marcelo passou dez anos a fazer apelos a ‘pactos de regime’ e a travar reformas

Marcelo nunca se preocupou em melhorar Portugal e a vida dos portugueses. Só se preocupou com duas coisas: a sua carreira política e a sua popularidade

Sexta, 2

‘Marcelo trava reformas na saúde’

 Esta frase foi publicada na primeira página deste semanário. É uma frase feliz que resume os dois mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República. Marcelo passou dez anos a fazer apelos a ‘pactos de regime’ e a travar reformas. O Presidente Marcelo deixou uma lição aos portugueses: a defesa de pactos de regime é a forma mais eficaz de travar reformas.

Isto também vem a propósito do discurso de Ano Novo do Presidente da República. Deve ter sido dos discursos mais vazios e mais patéticos da história da presidência da República. O que passou pela cabeça de Marcelo Rebelo de Sousa para citar, longamente, Eça de Queiroz na última página da Ilustre Casa de Ramires num discurso de Ano Novo? Só há uma explicação: Marcelo quis esconder a auto-crítica com uma citação de Eça. Aquela citação representa o fracasso que foi a Presidência de Marcelo (senão mesmo toda a sua carreira política). Marcelo nunca se preocupou em melhorar Portugal e a vida dos portugueses. Só se preocupou com duas coisas: a sua carreira política e a sua popularidade.

 

Sábado, 3

O fim de Maduro

 O ditador da Venezuela, Nicolas Maduro, foi preso por tropas norte americanas e levado para os Estados Unidos. Devemos sublinhar dois pontos. Em primeiro lugar, foi uma operação militar admirável. As tropas americanas entraram na capital da Venezuela, prenderam Maduro, sem qualquer baixa e sem mortes de civis. Tudo isto em menos de quatro horas. Os Estados Unidos mostraram que têm as forças armadas mais competentes e preparadas do mundo. Deve deixar Moscovo e Pequim apreensivos. 

Em segundo lugar, devemos celebrar sempre a queda de um ditador. Aqueles que gostam da democracia e da liberdade, nunca podem defender ditadores. Foi triste ver muitos em Portugal, que se preocupam com as ‘ameaças à democracia’ no nosso país, invocarem o ‘direito internacional’ para atacar a intervenção americana. O que fez o ‘direito internacional’ pelos direitos dos venezuelanos? Eu não critico a administração Trump pela prisão de Maduro. Criticarei se os Estados Unidos nada fizerem pela democracia na Venezuela. Mas também sei que a democracia na Venezuela depende dos Estados Unidos.

 

Domingo, 4

O futuro da Venezuela 

 Um dia depois da prisão de Maduro, começamos a perceber melhor a estratégia da administração Trump para a Venezuela. Antes de mais, o Presidente americano não quer colocar tropas americanas na Venezuela, o que poderia causar uma guerra com forças venezuelanas ou uma guerra civil. Trump, claramente, não quer um novo ‘Iraque’ na Venezuela. 

Para evitar esse cenário, Trump optou pela continuidade política, permitindo que a antiga VP se tornasse a nova Presidente. Recordo que uma das críticas que muitos fizeram aos americanos no Iraque foi ter acabado radicalmente com as estruturas de poder existentes. A administração Trump parece estar a seguir uma estratégia diferente. Em vez de uma mudança de regime radical e apressada, estamos a assistir a uma mudança política mais lenta e prudente.

De acordo com Marco Rubio, haverá três fases na transformação política da Venezuela. A primeira será a estabilização, onde o principal objectivo será evitar o caos no país. O controlo do petróleo pelos Estados Unidos serve também para controlar o regime venezuelano, que fica sem acesso à sua principal fonte de receitas. 

O segundo passo será a reconciliação nacional, com a libertação dos presos políticos e o regresso das principais figuras da oposição à vida pública e à política venezuelana. Custa-me que a libertação dos presos políticos não tenha sido imediata. As injustiças devem resolver-se o mais rapidamente possível. 

O último passo será a transição política com a realização de eleições. Trump não se preocupa com a construção de um regime democrático, mas Rubio e muitos congressistas republicanos querem uma Venezuela democrática. Mais, irão procurar convencer Trump que o sucesso da transição democrática na Venezuela pode beneficiar o partido republicano nas eleições intercalares no fim do ano, podendo ajudar a conquistar grande parte do voto latino. Esperemos que assim seja.

 

Segunda, 5

A Gronelândia

 Devemos levar as ameaças de Trump em relação à Gronelândia a sério, tal como os líderes europeus levam. A possibilidade de navegação no Ártico aumentou radicalmente a importância geopolítica da Gronelândia. A partir de agora, a ilha será a primeira barreira de defesa dos norte americanos (incluindo o Canadá) em relação a ataques marítimos de chineses e russos através do Ártico.  

Trump parece estar determinado a controlar a Gronelândia e a Europa está numa posição frágil para resistir, em grande medida por causa da guerra na Ucrânia e da ameaça russa. A realidade é dura e cruel, mas é a realidade. Não adianta invocar o direito internacional nem a sobrevivência da NATO. Trump não se preocupa com esses argumentos, e a Europa precisa mais da NATO do que os Estados Unidos. 

Uma intervenção militar dos Estados Unidos contra a Dinamarca seria uma desgraça, e deve fazer-se tudo o que for possível para alcançar uma solução negociada. Mais uma vez, os europeus contam com Rubio, que irá encontrar uma delegação de dinamarqueses em Washington na próxima semana, e com congressistas republicanos que são contra qualquer tipo de intervenção militar a Gronelândia.

Consciente da oposição da maioria dos congressistas republicanos a uma intervenção militar na Gronelândia, Trump começará por fazer uma oferta para comprar o território à Dinamarca. O governo dinamarquês, obviamente, recusará. Aí, muito provavelmente, os americanos sugerem um referendo sobre a independência da Gronelândia. Restará aos habitantes do território escolher o seu futuro. O governo dinamarquês respeitará o resultado do referendo. Quanto a Trump, ninguém sabe.    

 

Terça, 6

Garantias de segurança à Ucrânia

No encontro de Paris entre europeus, ucranianos e os enviados americanos, chegou-se a acordo sobre garantias de segurança à Ucrânia, de natureza legal, e nos Estados Unidos a serem votadas pelo Congresso. Também se chegou a um acordo sobre uma força multinacional, liderada por britânicos e franceses (sem a participação, mas com o apoio, dos americanos), para manter a paz na Ucrânia.

Duvido muito que Putin aceite um acordo de paz nestes termos. Mas, ainda no mesmo dia, Bardella, em França e Farage, no Reino Unido, afirmaram que são contra o envio de tropas para a Ucrânia. Mensagem para Moscovo: podem continuar a guerra porque se chegarmos ao poder não enviaremos tropas para a Ucrânia. Mensagem ouvida em Washington: será que podemos confiar nos europeus?     

 

Sábado, 7 

O fim dos debates presidenciais 

 A eleição para Presidente não só é a cinco, como está imprevisível. Ninguém sabe o que vai acontecer. Pelas sondagens mais recentes, qualquer um dos cinco pode passar à segunda volta. Além disso, as sondagens mostram ainda muitos indecisos. Julgo que dos cinco, André Ventura é o que tem mais possibilidades de passar à segunda volta. Mas não é certo, e só o afirmo porque o eleitorado do Chega parece ser fiel e disciplinado. Mas um dia pode deixar de ser.  

Marques Mendes parece ser o candidato em queda. Só há uma explicação para o candidato apoiado pela coligação mais votada estar a cair: uma campanha fraca. Marques Mendes não consegue convencer o eleitorado da AD. Vamos ver se consegue mudar até às eleições. Não será fácil.

António José Seguro, Cotrim e Gouveia e Melo estão a lutar pela ida à segunda volta, neste momento, um pouco à frente de Marques Mendes e um pouco atrás de Ventura. Seguro cresceu bastante nas últimas semanas e está a beneficiar de um aparente voto útil à esquerda, contra candidatos das esquerdas radicais muito fracos. Seguro também conseguiu mobilizar o PS. Cotrim foi a grande surpresa da campanha. Quem diria que a pouco mais de uma semana das eleições estaria a lutar pela ida à segunda volta? Aparentemente, haverá mais eleitores da AD a votar em Cotrim do que em Marques Mendes. Sinais de um país livre. A maioria dos eleitores deixou de seguir as indicações dos partidos.