SÁBADO, 11
Quem governa o Irão?
Há dois pontos importantes a sublinhar a propósito das cerimónias fúnebres do antigo líder iraniano, Ali Khamenei. A primeira foi a ausência do novo líder supremo (e seu filho), Mojtaba Khamenei. Foi uma ausência muito estranha, por várias razões. Em primeiro lugar, o antigo líder era o pai do novo líder. Em segundo lugar, foi a cerimónia pública mais importante desde a subida ao poder do novo líder. Por fim, o supremo líder é fundamental para a legitimidade política (interna e externa) de um regime como o iraniano.
Só há duas explicações para a ausência do novo líder iraniano. Ou está morto, e o Irão está a viver uma farsa enorme, o que não seria de espantar dada a natureza fraudulenta e sem quaisquer escrúpulos do regime iraniano. Ou está num estado de saúde muito débil que impede o aparecimento público ou mesmo gravações da sua imagem. Mas a conclusão é só uma: não é o supremo líder que governa o Irão. E ninguém sabe quem governa o país.
O isolamento diplomático crescente do Irão é a outra grande conclusão. Nenhum líder estrangeiro foi às cerimónias fúnebres. A China e a Rússia, os principais aliados do Irão, enviaram figuras secundárias, assim como os vizinhos com quem o Irão tem melhores relações, a Turquia, a Índia e o Paquistão.
DOMINGO, 12
A fraqueza da polícia britânica
Foi humilhante ver polícias britânicos a fugirem de grupos de imigrantes marroquinos em Londres, durante os distúrbios causados pela derrota da seleção de Marrocos contra a França no Mundial de futebol. E isto aconteceu no centro de Londres, e não nos arredores. É muito triste assistir ao enfraquecimento da polícia britânica, um exemplo para toda a Europa num passado não muito distante. É o resultado de anos de sub-investimento nas forças de segurança britânicas. Hoje, Londres deixou de ser uma cidade segura, como era quando, por razões profissionais me mudei para a capital britânica em Janeiro de 2013.
A declaração da polícia britânica sobre o suspeito do assassinato de Ann Widdecombe, antiga dirigente do Reform party (e durante muitos anos militante nos Tories), foi absolutamente vergonhosa: «Um homem britânico branco de 28 anos». Eis um comunicado de uma polícia que tem instruções claras para nunca referir a raça ou a religião de quem comete assassinatos se forem imigrantes, estrangeiros ou britânicos não-brancos. Hoje, no Reino Unido, há discriminação contra os homens britânicos brancos por parte de instituições do Estado, no cumprimento de ordens políticas. Depois admiram-se que muitos britânicos brancos votem no Reform de Farage, ou no Restore, ainda mais à direita.
SEGUNDA, 13
Os ataques ao ministro da Educação
Obviamente, o uso do novo método para corrigir os exames correu mal. Mais uma vez, o Governo não geriu bem a comunicação durante tempos de crise. Mas o ministro tem transmitido uma imagem de calma, consciente do problema, mas bem-intencionado. Há duas conclusões políticas a retirar desta crise.
Uma, a impossibilidade de fazer reformas em Portugal. Em muitos países, as reformas correm mal no início mas não é razão para desistirem. O que normalmente esses países mais reformistas fazem é perceber os erros e tentar emendá-los. Uma boa reforma não está isenta de erros (não entendo o suficiente de educação para a avaliar a reforma, mas assumo que será positiva por causa do desempenho do ministro nos últimos dois anos e pela sua seriedade). Muito menos é razão para pedir a demissão do ministro. A reação aos atrasos da correção de exames mostra um país onde é impossível fazer reformas. As forças anti-reformistas aproveitam todos os erros para acabar com a possibilidade de reformas.
Em segundo lugar, as oposições aproveitaram a oportunidade para desgastar um dos melhores ministros do Governo. Um ministro que tem dado provas de competência desde que assumiu a sua pasta. A prova é que durante os últimos dois anos não tem havido problemas maiores na educação, um Ministério tradicionalmente muito difícil. Mas as oposições e os sindicatos (coincidem) conseguiram finalmente atacar o ministro da Educação.
TERÇA, 14
A guerra voltou ao Golfo
Depois de dias seguidos de ataques militares, podemos dizer que o cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão acabou. Poderá haver novo cessar-fogo mas o tempo dos ataques militares regressou. Não será uma guerra com a intensidade das primeiras semanas (fevereiro e março), mas serão ataques militares ocasionais e repetidos.
No entanto, é importante observar que, formalmente, as negociações entre os dois lados não acabaram. Se os Estados Unidos ou o Irão (ou os dois) anunciarem que as negociações acabaram, então regressamos definitivamente ao estado de guerra. Neste momento, a confiança entre as duas partes deve estar perto do ponto zero, por isso não é de esperar acordos duradouros a curto prazo.
Há mais duas razões que complicam um acordo. Por um lado, o poder no Irão está claramente fragmentado. Não é fácil negociar com um país sem autoridade central. Neste momento, no Irão, não parece haver um governo que imponha uma política nacional a todos os grupos de poder.
Por outro lado, as eleições intercalares não estão a afectar as decisões de Trump sobre o uso da força militar contra o Irão. Durante meses, quase todos disseram que Trump aproveitaria uma oportunidade para declarar o fim da guerra, a vitória americana e concentrar-se nas eleições de Novembro. Essa oportunidade apareceu, mas Trump ignorou-a. Será que Trump acredita que os republicanos podem ganhar as eleições mesmo com uma situação de confronto militar no Golfo?
QUARTA, 15
E se a Ucrânia reconquistar a Crimeia?
Os últimos desenvolvimentos na guerra entre a Rússia e a Ucrânia mostram um novo facto muito significativo: a Crimeia está isolada. Os ucranianos têm agora uma capacidade militar impressionante, de drones e misseis, para atacar regularmente a Crimeia (é raro um dia em que não haja ataques à Crimeia).
Neste momento, as tropas russas não conseguem avançar da Rússia para a Crimeia por território conquistado no início da guerra porque são alvos dos ataques ucranianos. As forças ucranianas estão a atacar igualmente os ferries que atravessam do território russo para a Crimeia. O governo russo não consegue enviar mantimentos suficientes para a Crimeia.
Já se começou, aliás, a assistir à fuga de russos da Crimeia, e nota-se a ausência de turistas vindos da Rússia.
Depois de isolar a Crimeia do resto da Rússia, o objetivo dos ucranianos é tornar a presença russa na ilha insustentável. Os ataques ucranianos, a partir de agora, vão procurar destruir as bases militares, as instalações administrativas russas e a infraestrutura na Crimeia.
Quem controlar a Crimeia também controla a costa do mar negro na Ucrânia, hoje sob ocupação das tropas russas. Os russos sabem isso muito bem e defenderão a Crimeia até ao fim. Poderá ser mesmo a batalha mais dura e sangrenta desta guerra. Mas a questão central é a seguinte: tem a Rússia capacidade militar para manter a Crimeia sob o seu poder? Cada vez há mais dúvidas que tenha. Se a Ucrânia conquistar a Crimeia será um momento de viragem na guerra.