terça-feira, 18 ago. 2026

A viragem do Chega à esquerda

André Ventura deveria ter dito o seguinte: o Chega é a direita que defende os mais pobres, os desfavorecidos; é a direita que está ao lado do povo. E não é como as esquerdas que enchem os seus discursos com os direitos do povo, mas só pensam nos seus privilégios.

Sábado, 4
A viragem do Chega à esquerda

Foi André Ventura que o disse, mais ou menos assim: «Se votar contra a reforma laboral e defender a descida da idade da reforma é ser de esquerda, pois então nestas matérias o Chega é de esquerda». Uma das razões que me levou a admirar André Ventura foi a sua coragem de se afirmar, sem qualquer hesitação, como um político de direita. Sempre gostei também dos seus ataques ao PS e às esquerdas, sem receios de hostilizar quem se habituou a mandar em Portugal.

Foi por este passado, que a declaração de Ventura me desiludiu profundamente. Em Portugal, as esquerdas impingiram uma fraude aos portugueses. Em matérias sociais, as direitas são egoístas e só pensam nos lucros económicos, e as esquerdas têm a exclusividade da preocupação com a justiça e os direitos sociais. Com aquela afirmação, Ventura contribuiu para esta fraude. Isso é imperdoável para uma pessoa de direita.

André Ventura deveria ter dito o seguinte: o Chega é a direita que defende os mais pobres, os desfavorecidos; é a direita que está ao lado do povo. E não é como as esquerdas que enchem os seus discursos com os direitos do povo, mas só pensam nos seus privilégios. Ao não dizer isto, e a afirmar-se de esquerda na questão da idade da reforma, Ventura mostrou que coloca o oportunismo à frente das convicções e da consistência intelectual de um verdadeiro político de direita. É lamentável.

Domingo, 5
O populismo dos partidos de esquerda

Vale a pena seguir com atenção os primeiros discursos de Andy Burnham, o futuro líder trabalhista e futuro PM britânico. Burnham será o primeiro PM trabalhista que assumirá, sem qualquer hesitação, o populismo de esquerda. Percebeu que as causas identitárias e os votos dos imigrantes não chegam para uma maioria absoluta.

Além disso, o partido trabalhista enfrenta a competição muito eficaz de Farage e do Reform pelo voto trabalhador. Como antigo Mayor de Manchester, Burnham sabe muito bem que os trabalhistas só poderão vencer as próximas eleições se mantiverem e recuperarem votos das classes trabalhadoras. A competição entre a esquerda e a direita populista pelos votos dos trabalhadores e das classes médias baixas vai intensificar-se em toda a Europa, incluindo em Portugal.

Segunda, 6
A falta de água em Almada: a solução são os privados

Hoje, a água começou a faltar no Conselho de Almada. Os cortes continuam, afetando mesmo o funcionamento do hospital de Almada. A água é gerida por uma empresa municipal. Aliás tem sido muito mal gerida. Não houve investimentos, as perdas foram aumentando até se chegar a esta situação de rutura dos serviços.

Eis o retrato de uma autarquia que foi sempre governada pelas esquerdas. Entre 1977 e 2017, foi governada pelo partido comunista. Desde 2017, é governada pelos socialistas. As esquerdas estão sempre a defender os serviços públicos, ora há maior serviço público do que uma distribuição eficaz da água pela população do conselho de Almada? Haverá outros tão importantes, mas mais importantes não há.

No Conselho de Almada, há uma situação dramática. O gasto de água é de cerca de 300 litros por habitante por dia, muito superior à média nacional de cerca de 180 litros por habitante e por dia. As perdas estão ligeiramente acima dos 35%, o que é inaceitável. Como é possível uma autarquia como a de Almada perder 35% da sua água? Mostra uma incompetência e uma indiferença chocantes perante as necessidades da população local.

O executivo da autarquia de Almada já anunciou investimentos nas infraestruturas para combater as perdas de água. É a política errada. As perdas de água não se resolvem com obras, mas sim com uma gestão competente e inteligente. Se a autarquia de Almada se limitar a fazer investimentos nas infraestruturas, não diminuirá as perdas, e problemas como os atuais voltarão a acontecer. A solução correta será a concessão do fornecimento da água a uma empresa privada. É muito simples. Nas suas concessões, as empresas privadas em média têm perdas de 10%. A média nacional nas empresas municipais é de cerca de 30%. Não há dúvidas sobre a eficiência das empresas privadas.

A eficiência explica-se por duas razões. Em primeiro lugar, as empresas privadas são altamente competentes e investem na qualidade dos seus serviços. Em segundo lugar, existem dois modelos de gestão das águas em confronto. O conceito dominante nas empresas municipais em relação ao serviço de águas assenta em obras públicas e está ultrapassado. Para as empresas privadas, o serviço de fornecimento de água assenta na qualidade da gestão, na inovação tecnológica e de software. Esta é a verdadeira questão: um modelo de serviço do século XX e um modelo de gestão do século XXI. As empresas privadas estão a traçar o caminho do futuro. Veja-se o exemplo de Espanha. Mais de metade dos municípios concessionou o fornecimento da água a empresas privadas. E nem os governos do PSOE reverteu as concessões a privados, pelo contrário, aumentou. A qualidade dos serviços deve estar à frente de preconceitos ideológicos que só prejudicam as populações, como se vê em Almada.

Terça, 7
A decisão dos tribunais sobre Marine Le Pen

A justiça francesa tentou agradar a todos e tomou uma decisão sobre Marine Le Pen que levará a uma situação caricata. Será candidata às eleições presidenciais mas durante parte da campanha terá que usar uma bracelete eletrónica no tornozelo. Os tribunais ainda poderão diminuir o período do uso da bracelete eletrónica (irão definir os termos do uso e o período dentro de um mês).

Um candidato a usar uma bracelete eletrónica será um caso único da história política francesa. Marine Le Pen tem uma oportunidade, oferecida pela justiça, para candidatar-se como uma vítima de perseguição política. Naturalmente, os seus adversários vão acusá-la de corrupção. Mas Marine Le Pen será a figura central da campanha. Desconfio que tudo isto, aumenta as possibilidades de MLP chegar ao Eliseu em maio do próximo ano.

Quarta, 8
A Cimeira da NATO

Como se esperava, a cimeira da NATO começou com as habituais provocações de Trump aos europeus. Atacou-os pela ausência na guerra no Irão, insistiu no aumento dos investimentos europeus na defesa, atacou o PM espanhol (que agradece) e até voltou ao tema da Gronelândia. Tudo isto excita imenso a maioria dos comentadores europeus, mas nada disto é relevante. Os europeus continuarão a aumentar as despesas em defesa. Sánchez e Trump terão um má relação até um deles sair do poder (desconfio que Sánchez será o primeiro), e a Gronelândia continuará a ser um território dinamarquês.

O que interessa são as decisões tomadas. A mais importante de todas foi a autorização da administração norte-americana para a Ucrânia construir mísseis Patriot em território ucraniano. É uma decisão crucial para o curso da guerra na Ucrânia e na Rússia.

Finalmente, a declaração final reafirmou os compromissos, incluindo dos Estados Unidos, com o artigo 5 (defesa comum) e identificou, explicitamente, a Rússia como a principal ameaça à segurança europeia. A Cimeira da NATO não podia ter corrido melhor.

Quinta, 9
O Unicredit está próximo de comprar o Commerzbank

Foi anunciado que o UniCredit já comprou 48% das ações do Commerzbank. Andrea Orcel é um banqueiro brilhante e um homem com coragem. Não tem medo de enfrentar o governo alemão, que se opõe à compra do segundo maior banco alemão pelo italiano UniCredit. Mas, desconfio, que Belim terá que aceitar o inevitável, e o UniCredit acabará por controlar e comprar o Commerzbank.

Embora não o digam publicamente, a Comissão Europeia (DG Concorrência) e o Banco Central Europeu são favoráveis à fusão. Consideram que poderá provocar uma série de fusões e de aquisições na Europa que beneficiam não só o setor bancário europeu como a economia europeia. A competitividade da economia da UE precisa de bancos com grande escala e capacidade de investimento e financiamento.

Além do Commerzbank, o UniCredit continua às compras e a procurar outras oportunidades. É aqui que entra o BCP, de cuja estrutura acionista a Fosun quer sair. A compra do BCP pelo UniCredit seria uma operação financeira relativamente fácil para os italianos. A capitalização bolsista do BCP é cerca de 16 mil milhões de euros, a do UniCredit é de mais de 120 mil milhões de euros. O BCP é um banco atrativo, fruto da excelente gestão dos últimos anos, mas também da sua presença na Polónia, já com um cota de marcado de cerca de 5% e sendo o sétimo maior banco num mercado em crescimento. O Commerzbank também tem uma operação importante na Polónia, com cerca de 8% de cota de mercado. A aquisição do Commerzbank e do BCP daria ao UniCredit uma posição significativa no mercado polaco.

A entrada do UniCredit na estrutura acionista do BCP também poderia ser muito interessante para o banco português, sobretudo se mantivesse a autonomia da sua operação na Polónia. Mas não seria uma negociação fácil.