terça-feira, 08 set. 2026

A semana

Tem sido pouco noticiado em Portugal, mas o bloqueio norte-americano aos portos iranianos e a escolta a navios no estrito de Ormuz começa a funcionar. Aumentou o número de navios dos países árabes do Golfo a passarem pelo estreito, transportando petróleo.

A dívida pública norte-americana

Com uma decisão nada ortodoxa, Scott Bessent (Secretário do Tesouro) resolveu comprar a própria dívida norte-americana, procurando evitar uma venda descontrolada dos títulos do Tesouro.

Por enquanto, a medida parece ter acalmado os mercados, mas está longe ser uma solução a médio, longo prazo. Os mercados assustaram-se, e continuam apreensivos, porque a trajetória da dívida soberana norte-americana está na direção errada. Está a aumentar (cerca de 130% do PIB) e não a diminuir; veja-se o défice de 2015 a 6% do PIB. Além disso, a guerra no Golfo aumenta a despesa pública. Ou seja, a um problema fiscal, juntou-se um problema geopolítico.

Para resolver o problema fiscal, Bessent precisa de colocar a política norte-americana na trajetória certa. Terá que apresentar um plano convincente de diminuição da dívida pública e do défice. Há, no entanto, uma questão importante: conseguirá o Tesouro americano diminuir a despesa pública sem o fim do conflito no Golfo? O problema é que o conflito no Golfo parece longe do fim. E o próprio Bessent anunciou uma «guerra económica» contra o Irão propondo o aumento das sanções diretas e secundárias aos países que têm relações económicas com o Irão.

No curto prazo, poderá haver outro problema. De certo modo, comprando a própria dívida americana, Bessent está a tentar substituir a Reserva Federal, e tentou baixar a inflação, descendo os custos da dívida. Se a inflação nos Estados Unidos não baixar, a estratégia de Bessent pode obrigar a Reserva Federal a aumentar as taxas de juro, o que Trump não quer. Mas se a Reserva Federal não mostrar aos mercados que controla a inflação, então haverá uma crise financeira muito sério nos Estados Unidos, na Europa e no mundo.

O bloqueio norte-americano está a funcionar

Tem sido pouco noticiado em Portugal, mas o bloqueio norte-americano aos portos iranianos e a escolta a navios no estrito de Ormuz começa a funcionar. Aumentou o número de navios dos países árabes do Golfo a passarem pelo estreito, transportando petróleo. Simultaneamente, nas últimas semanas, a exportação de petróleo iraniano desceu para quase zero. Isto significa que o poder militar e naval iraniano está muito enfraquecido e que a situação económica no Irão, que já estava muito complicada, continua a piorar.

É provável que possa haver novas negociações entre o Irão e os Estados Unidos em breve. O regime iraniano precisa de ganhar tempo, e Trump poderia dizer que a «guerra económica» está a funcionar, e também quer um acordo antes das eleições intercalares.

Mas não é só o Irão que está numa posição vulnerável. As operações militares no Golfo custam aos norte americanos entre 15 mil milhões e 20 mil milhões de dólares por mês. Sem os ataques militares, os custos são menores. Os custos com o bloqueio e o patrulhamento devem ser cerca de 10 mil milhões de dólares. Se o patrulhamento e o bloqueio aos portos iranianos permitirem que os aliados dos Estados Unidos no Golfo exportem cerca de 10 milhões de barris de petróleo por dia pelo estreito de Ormuz, o custo adicional de cada barril é de 33,5 dólares. Ou seja, o custo de cada barril vindo por Ormuz seria entre 114 e 115 dólares por barril (dependendo se o preço do petróleo nos mercados está a 80 ou 90 dólares), ou mais quando o preço dispara para próximos dos 100 dólares. Os Estados Unidos estão a pagar cerca de 20% do preço do petróleo que atravessa o estreito de Ormuz, o qual vai quase todo a Ásia. Os Estados Unidos não compram petróleo no Golfo. Ironicamente, um Presidente que prometeu colocar a ‘América em primeiro lugar’ está a pagar 20% do custo do petróleo comprado por países asiáticos, incluindo a China.

Os julgamentos da vergonha

Começou hoje em Manchester um novo julgamento de membros do chamado ‘grooming gang’ de Rochdale, depois da suspensão do julgamento inicial. Seis homens são acusados de abusos sexuais de duas jovens raparigas. Este julgamento segue-se a vários outros que condenaram dúzias de homens pelos mesmos crimes em Rochdale, em Rotherham, em Huddersfield e em Oxford.

O caso dos ‘grooming gangs’ (gangs de homens que assediaram e violaram dezenas de raparigas adolescentes, algumas menores) foi talvez o caso mais vergonhoso de demissão das suas competências por parte das autoridades britânicas neste século. A descrição do caso, como fiz, grupos de homens adultos a aproveitarem-se sexualmente de jovens raparigas já mostra a gravidade do que se passou. Mas o entendimento total do que se passou aumenta a gravidade do caso.

O que se passou então? Grupos de homens, maioritariamente paquistaneses (imigrantes e nascidos no Reino Unido) abusaram sexualmente e de um modo organizado de adolescentes inglesas, algumas delas menores (há casos de violações de raparigas entre os 11 e os 16 anos). A maioria das raparigas vivia em bairros degradados, de famílias destruídas (pelo álcool e pela droga) e muitas estavam em lares de acolhimento do Estado, geridos por autoridades locais. As vítimas eram assediadas com presentes, tabaco, álcool e drogas, e depois violadas por grupos de homens.

Os abusos ocorreram, de um modo sistemático, entre os anos de 1990 e o final da década passada. Ou seja, durante décadas, milhares de jovens raparigas foram vítimas de homens adultos, sem que as autoridades nada fizessem. Só em Rotherham, entre 1997 e 2013, foram violadas cerca de 1400 raparigas. Ainda não se conhece o número total de violações, mas há quem fale de cerca de mais de 10.000 raparigas violadas desde a década de 1990 em várias cidades britânicas.

Durante todo este tempo, autoridades locais, polícias e trabalhadores sociais sabiam, esconderam provas ou ignoraram indícios fortes do que se passava. Desde que finalmente se revelou a dimensão das violações e, sobretudo, desde que começaram os julgamentos (apenas este ano), muitos polícias e trabalhadores sociais confessaram que se calaram porque tinham medo de serem acusados de «rascistas» e de «islamofobia». Muitas autoridades locais, do partido trabalhista, também se calaram com medo de alienar os votos da comunidade paquistanesa.

A conquista do Estado britânico pela cultura woke, cálculos eleitorais e o medo de que a verdade favorecesse o partido de Farage deixaram milhares de raparigas indefesas perante redes de criminosos. Pode demorar décadas, mas a verdade aparece sempre. Com a verdade, sabemos que o estado social britânico falhou quando era urgente que tivesse funcionado, como a ideologia multicultural semeia o medo e limita a liberdade. Pelo meio, a tentativa de esconder a verdade durante décadas só vai beneficiar Farage.

‘CIA chief goes to Moscow’

O diretor da CIA, Ratclieff, foi a Moscovo reunir-se com responsáveis russos, numa viagem que deveria ter sido confidencial. Houve duas interpretações da viagem. Uma diz que foi uma tentativa de recuperar as negociações de paz. Duvido muito. Nada sugere que a Rússia esteja preparada para um compromisso. Pelo contrário, Putin sabe que um acordo de paz agora significaria a derrota da Rússia, o que colocaria em causa o seu futuro político. Putin prefere continuar a guerra a ver a sua posição política em causa.

A segunda interpretação é de que Ratclieff foi a Moscovo avisar os russos para não atacarem um país da NATO e que se o fizessem os Estados Unidos ao lado da NATO. A ida do director da CIA a Moscovo significa que os serviços de inteligência norte-americanos tinham sinais claros de que a Rússia estaria (está) a preparar um ataque militar a um país da NATO, provavelmente um dos países Bálticos. Vale a pena recordar que uns meses antes da invasão da Ucrânia, o então diretor da CIA também foi a Moscovo avisar os russos para não atacarem a Ucrânia. Em 2022, não resultou, mas a CIA tinha razão. Esperemos que agora resulte, caso contrário, teremos uma guerra entre a Rússia e a NATO na Europa.

Em Portugal, a legitimidade democrática da ONU é zero

O alto-comissário das Nações Unidas para os direitos humanos escreveu uma carta ao Presidente da AR a avisar que os projetos de lei do PSD, Chega e do CDS sobre identidade de género colocam em causa as obrigações de Portugal em matéria de direitos humanos. Em primeiro lugar, deve avisar-se o senhor Volker Türk que a ONU não tem qualquer autoridade sobre a política doméstica de um estado soberano. Nenhum dos tratados e das convenções citados têm autoridade supranacional. Em segundo lugar, Portugal é um regime democrático, onde os deputados respondem perante os eleitores, e não perante a ONU. Nenhuma instituição da ONU tem legitimidade política para interferir na vida democrática portuguesa. Em terceiro lugar, em matéria de direitos humanos a ONU deveria ter vergonha cada que um responsável abre a boca. O Conselho dos Direitos Humanos da ONU inclui países como a Argélia, a China, Cuba, a Líbia, a Rússia e a Venezuela. O senhor Turk que envie cartas aos governos da Argélia, da China, de Cuba, e da Rússia a defender os direitos dos transgéneros.

Esta posição do alto-comissário é tão grosseira que só pode ser explicada como uma jogada política. E não foram as queixas dos deputados do Bloco, isso é apenas diversão. Estamos perante uma tentativa de dividir a direita e de assustar o governo e o PSD, de modo a recuarem. Isso interessa, acima de tudo, ao PS; e nunca nos devemos esquecer que o SG da ONU é um antigo SG do PS, e os contactos com o antigo partido serão frequentes.

Eu receio que o Governo caia na armadilha e, a meses de assumir o seu lugar no Conselho de Segurança da ONU, recue por ‘razões de interesse nacional’. Espero que o governo perceba que se seguir esta realpolitik de mercearia só está a dar mais votos ao Chega. A posição de partidos com coragem deveria ser aprovar a legislação na primeira sessão de Setembro da Assembleia da República.

Bruxelas era uma cidade segura

Eu ainda me lembro quando Bruxelas era uma das cidades mais seguras da Europa. Já não é. Hoje, é das cidades mais violentas da Europa. Foi isso que disse o ministro do Interior belga, quando afirmou que a Bélgica se encontra em situação de ‘emergência nacional’. A afirmação do ministro resultou de seis tiroteios em quatro dias. Desde o início do ano, há uma média de dois tiroteios por semana na ‘capital da Europa’.

Bruxelas é, hoje, vítima do crime organizado e de grupos de tráfico de droga. Há bairros onde ninguém de fora se desloca e mesmo a polícia raramente aparece. Vivem, simplesmente, à margem da lei, dominados por grupos armados e violentos. As autoridades policiais e políticas belgas sabem muito bem quem domina o crime em Bruxelas. São cinco grupos: os ‘albaneses’, os ‘argelinos’, os ‘marroquinos’, os ‘romenos’ e os ‘turcos’. Todos eles constituídos por imigrantes (legais e ilegais) ou por descendentes de imigrantes. E há quem continue a acreditar na fantasia de que a imigração não aumenta o crime e a violência.