A semana (de 9 a 14 de janeiro)

Um candidato em crescimento na última semana de campanha nunca pode admitir a possibilidade de não ir à segunda volta.

SEXTA, 9
Os presos políticos começam a sair das prisões venezuelanas

Não gostei de ver Trump falar de petróleo, e não de presos políticos e direitos humanos, na sua primeira declaração depois da prisão de Maduro. Entendo perfeitamente que a exploração do petróleo é fundamental para recuperar a economia venezuelana. Mas os presos políticos que enchiam as prisões da Venezuela, só porque discordavam do regime Chavista, mereciam o apoio do Presidente norte-americano.

Na semana seguinte, felizmente, os presos políticos começaram a ser libertados. As imagens de alegria, de emoção com o reencontro com as suas famílias e amigos, serão marcantes para a história da Venezuela, como foi a libertação dos presos políticos de Caxias em 1974. Espero que continuem a ser libertados e que a prisão política chegue ao fim na Venezuela. Se hoje centenas de venezuelanos recuperaram a sua liberdade, injustamente esmagada pelo regime Chavista, deve-se aos Estados Unidos. O resto não passa de conversa, especialmente por parte daqueles que atacam os americanos no conforto das suas casas e nunca viveram em ditaduras como os venezuelanos.     

SÁBADO, 10
A luta dos iranianos pela liberdade...

Apesar da luta comum pela liberdade, o que se passa no Irão tem pouco a ver com a Venezuela. No Irão, não houve intervenções militares externas. Foram os iranianos que chegaram a um ponto em que já não aguentam viver numa ditadura teocrática. Os protestos emergiram por todo o país, entre os ricos, os pobres e a classe média, os homens e as mulheres, os estudantes e os trabalhadores, os jovens e os velhos. Estamos a assistir a um levantamento nacional pela liberdade, pela dignidade, pela igualdade entre mulheres e homens. A indiferença da maioria das esquerdas ocidentais perante a luta dos iranianos é chocante.

A violência da ditadura iraniana, que já provocou a morte de milhares de iranianos, não parou os protestos. Foi impressionante assistir a uma senhora de idade, sem véu, com o cabelo a voar ao vento, dizer no meio dos protestos «os fascistas islâmicos não me assustam, já não me podem tirar a vida, porque já o fizeram há mais de 40 anos». Admiro profundamente a coragem das iranianas e dos iranianos. O regime perdeu legitimidade interna e não tem futuro. Será uma questão de tempo até cair.

DOMINGO, 11
... e a resposta do Ocidente aos iranianos

Estados Unidos estão a liderar a resposta ocidental à crise de regime no Irão. Os apelos dos protestantes aos Estados Unidos e até a Israel para ajudarem a derrubar o regime é um dos aspectos mais impressionantes da revolta iraniana. Trump ameaça com uma intervenção militar para defender os iranianos, mas tem mantido sempre uma certa ambiguidade. Quer colocar pressão sobre o governo iraniano, mas não deseja envolver os Estados Unidos num ‘segundo Iraque’.

O Presidente americano já anunciou sanções aos países que compram petróleo iraniano. Vamos ver se cumpre as ameaças. Se o fizer, as sanções vão fragilizar bastante o regime iraniano.

Os países europeus hesitaram e chegaram atrasados, mas estão a corrigir a sua timidez inicial. A Comissão Europeia já propôs aos governos nacionais a imposição de sanções contra a Guarda Republicana, a principal força militar do Irão. A União Europeia passaria a considerá-la uma organização terrorista. A maioria dos países da União Europeia, incluindo Portugal, apoia a proposta da Comissão. Mas França, Itália, Hungria e Espanha ainda não estão convencidas.

SEGUNDA, 12
O que se passou com Cotrim?

Cotrim disse que não excluía votar em André Ventura na segunda volta. Foi um erro, mas nada tem a ver com Ventura. Um candidato em crescimento na última semana de campanha nunca pode admitir a possibilidade de não ir à segunda volta.

Mas a emenda foi ainda pior do que o erro, porque Cotrim, certamente influenciado pelos seus assessores, transformou o comentário numa questão sobre Ventura. Assustou-se de tal modo, ou foi assustado, que afirmou: «Não sei o que me passou pela cabeça» (para colocar a hipótese de poder votar em Ventura). Como é possível um candidato a PR fazer tal afirmação em público? 

 TERÇA, 13
O que se continuou a passar com Cotrim?

Cotrim continuou com o mau período quando resolveu escrever uma carta a Montenegro pedindo-lhe o apoio e o apelo aos eleitores do PSD para votarem nele e não em Marques Mendes. Foi uma má decisão por três razões. Em primeiro lugar, repetiu o maior erro de Marques Mendes, e colou-se ao Governo. Um candidato a PR deve manter autonomia política em relação ao Governo. E um liberal devia saber isso melhor do que ninguém. Para os liberais, a separação de poderes é um valor absoluto.

Em segundo lugar, se Montenegro corresponder ao pedido, Cotrim ficará a dever uma hipotética vitória ao apoio do líder do PSD. Em democracia, as vitórias eleitorais conquistam-se, não se pedem.

Finalmente, um Cotrim em Belém, por causa do apoio de Montenegro, não teria autonomia para forçar o Governo a fazer reformas importantes para o país. Este é o principal crédito de Cotrim e a razão porque muitos vão votar nele. Com uma carta, Cotrim desbaratou o seu principal capital político e imitou Marques Mendes da pior maneira. É lamentável, porque Cotrim estava a fazer uma boa campanha e era a grande surpresa das eleições. 

QUARTA, 14
Os dinamarqueses vão a Washington...

A disputa sobre a Gronelândia é o maior problema entre os Estados Unidos e a Europa, ainda mais grave do que a guerra na Ucrânia. A reunião entre Vance e Rubio, do lado americano, e os ministros dos negócios estrangeiros da Dinamarca e da Gronelândia foi tensa e dura. Os EUA reafirmaram a sua pretensão à soberania da Gronelândia. A Dinamarca e a Gronelândia recusaram a ambição americana. A criação de um grupo de trabalho entre os EUA, a Dinamarca e a Gronelândia, para continuar as negociações, foi a única nota positiva.

Este problema é ainda mais grave porque não é um simples capricho de Trump. Muitos no Estado norte americano e entre as elites políticas e militares estão convencidos que a Gronelândia será central no confronto global com a China (e com a Rússia) e estão convencidos que a Dinamarca não será capaz de garantir a segurança do território, e logo do continente americano. A administração Trump não está certa nas suas pretensões, mas há aqui um problema real e não ajuda ignorá-lo. Esperemos que a NATO seja a solução e saia desta crise fortalecida.