Sábado, 31 e domingo, 01
A Kristin acabou com a campanha eleitoral
A Kristin chegou a Portugal com fúria, depois da Ingrid ter partido e ter deixados estragos para trás. A região centro, sobretudo os distritos de Leiria e de Coimbra, foi a mais afetada. Portugal esqueceu-se de tudo o resto e a tragédia temporal capturou a atenção do país.
Em primeiro lugar, acabou a campanha eleitoral. Os candidatos foram para o terreno ajudar as populações. É um modo de fazer campanha sem a fazer. Não houve diferenças entre Seguro e Ventura. Ambos mostraram solidariedade e ambos foram populistas.
No plano político, foi mais do mesmo. As oposições atacam o Governo. O Governo diz que está a fazer tudo o que é possível. Se estivessem as esquerdas no poder e as direitas na oposição, os argumentos seriam exatamente os mesmos. É muito cansativo assistir sempre às mesmas reações. E os pedidos de demissão de ministros e ministras constituem um aproveitamento político indecente. O que custa mesmo muito é confirmar, mais uma vez, as insuficiências do Estado. Tem dificuldade em lidar com problemas de infraestruturas, não consegue socorrer as populações mais expostas aos perigos, e demora tempo a reagir. Mas a culpa não é do Governo. É o resultado de erros e de omissões sucessivos de vários governos durante décadas. É, de certo modo, o retrato triste do nosso país.
Também satura ver as televisões atrás das tragédias. E a procissão de especialistas sobre tempestades exaspera ainda mais. Portugal é o país das opiniões. Quase ninguém é capaz de dizer simplesmente, não sei, ou não percebo.
Gostaria de deixar palavras de simpatia e de solidariedade com as populações que mais sofrem. É bom, e uma razão de alguma alegria, ver as pessoas ajudarem-se umas às outras, mesmo sem se conhecerem. Uma palavra de admiração igualmente para os autarcas de todos os partidos. São muitos vezes atacados, mas nestes momentos são os políticos mais próximos daqueles que sofrem. Nestes momentos, percebe-se que o poder local conta e muito.
Segunda, 02
A aprovação do orçamento francês
O Governo francês conseguiu, finalmente, aprovar o orçamento para este ano. Mas só o fez ao abrigo de uma lei que permite aprová-lo sem votação no Parlamento. Seria impensável em qualquer outra democracia europeia aprovar um orçamento sem os deputados o votarem. Mas acontece em França.
O que é extraordinário é a aplicação desta medida anti-democrática em nome da defesa da democracia. Em grande medida, as linhas vermelhas levaram a França para este triste estado. Aliás, os custos para manter o Rassemblement National fora do poder começam a ser demasiado altos. Juntamente com Portugal (o tema do nosso governo minoritário ficará para a próxima semana, para depois das eleições presidenciais), a França é o outro país da União Europeia com um governo minoritário. As linhas vermelhas e a radicalização das esquerdas estão a afunilar cada vez mais o centro político. Não é fácil antecipar um bom futuro para a política francesa.
Terça, 03
A paz na Ucrânia continua longe
A paz na Ucrânia está ainda longe e a realidade continua a ser a guerra, os ataques militares da Rússia às cidades ucranianas, a destruição e as mortes. Mais uma guerra que se está a tornar banal, eis a verdadeira tragédia.
As questões territoriais são, obviamente, um obstáculo importante a um acordo de paz. Mas também servem de desculpa para Putin. A verdade é que Putin irá recusar assinar um acordo de paz com Zelensky, não o considerando um igual, um inter pares. O que corresponde à visão da política internacional do presidente russo. Há uma hierarquia de poder, onde as grandes potências, como a Rússia, estão acima das potências médias, como a Ucrânia. Putin nunca dará a Zelensky o reconhecimento político que resulta da assinatura de um mesmo documento, provavelmente nem sequer aceitará um encontro bilateral. A não ser que fosse em Moscovo, como uma espécie de um acto de vassalagem do presidente ucraniano.
Um cessar-fogo e um conflito congelado serão os cenários mais positivos. Não acredito que haja um tratado de paz entre a Rússia e a Ucrânia enquanto Putin estiver no poder em Moscovo. E mesmo o cessar-fogo só acontecerá quando a economia russa estiver em recessão, e Putin perceber que a insatisfação dos russos exige a sua total atenção à política interna. Até esse momento, a guerra na Ucrânia não acabará.
Quarta, 04
A cimeira das terras raras em Washington, e o acordo comercial entre a EU e a Austrália
Os EUA organizaram uma cimeira internacional com cerca de 50 países para criar uma coligação internacional de materiais críticos. O encontro juntou países industrializados e consumidores desses metais, como os Estados Unidos, a União Europeia, o Japão, a Coreia do Sul, o Reino Unido, e até uma das maiores economias emergentes, como a Índia, com países ricos em recursos naturais e produtores dos metais críticos, como a Austrália, o Brasil, a Argentina, o Chile, o México, o Peru e a Bolívia, entre outros. Os objetivos são combater o domínio da China em materiais críticos como as terras raras e o lítio, e estabilizar os preços de outros metais fundamentais para a indústria como o cobre e o níquel.
As terras raras receberam um destaque por causa do domínio quase absoluto da China e das restrições impostas por Pequim a exportações de produtos ricos em terras raras. Sobre as terras raras, há dois pontos centrais. Em primeiro lugar, não são raras. A China neste momento tem cerca de 70% das reservas mundiais porque as explora. Essa percentagem vai diminuir quando outros países começarem a explorar as suas reservas. Em segundo lugar, o grande problema das terras raras é a poluição causada pela mineração e pelo processamento. Para atingir o domínio global, a China ignorou essa poluição. Os outros países colocaram o ambiente à frente das ambições geopolíticas. Esta situação está a mudar. Mas a questão da poluição não desapareceu. Pode diminuir com os progressos tecnológicos, mas não desaparece. Resta assim uma questão: quais são os países que estarão dispostos a explorar as suas reservas e a processar as terras raras nos seus territórios para competir com a China?
Quinta, 05
Eleições no Japão e purgas na China
Tal como Portugal, o Japão tem eleições no domingo, mas legislativas e não presidenciais. As sondagens apontam para uma vitória com maioria absoluta do partido liberal (e igualmente conservador) liderado pela actual PM (a primeira mulher a liderar um governo no Japão), Sanae Takaichi.
As relações com a China são um tema central da campanha eleitoral. A direita japonesa assume que a China constitui a principal ameaça à segurança do Japão, um pouco semelhante ao modo como a Europa olha para a Rússia (e a aliança entre chineses e russos preocupa e muito o Japão). O centro-esquerda defende uma política de acomodação com a China. A China representa um grande dilema para o Japão: é simultaneamente o seu principal parceiro comercial e a principal ameaça militar.
Com a muito provável vitória de Takaichi, as relações entre a China e o Japão serão complicadas. As purgas recentes das chefias militares em Pequim não ajudam. A história diz aos japoneses que na China purgas militares antecedem períodos de maior agressividade na diplomacia chinesa.
A relação entre a China e o Japão é uma das questões centrais da geopolítica mundial. Nós na Europa não damos muita atenção, mas é uma relação decisiva para a segurança mundial. Desde logo, a questão de Taiwan também é uma questão central para a segurança do Japão. Vejam o mapa da região e notarão que as ilhas japonesas cuja soberania é disputada pela China estão mesmo ao lado de Taiwan.
Tal como na Europa, a aliança com os Estados Unidos é essencial para a segurança e a defesa do Japão. Em particular, a defesa nuclear. Se a confiança desaparecer, o Japão pode necessitar de uma capacidade nacional de dissuasão nuclear. Sendo uma ilha, o número de tropas dos dois países é secundário, e a dissuasão nuclear é suficiente perante a ameaça chinesa. Desconfio que a proliferação nuclear começará na Coreia do Sul e no Japão.