A Semana (de 23 a 28 de janeiro)

No dia 8 de Fevereiro, mais do que uma vitória de Seguro, teremos uma derrota de Ventura contra uma grande união nacional

Sexta, 23

Cimeira entre Meloni e Merz em Roma

Meloni e o Governo italiano receberam em Roma Merz e o Governo alemão. Merz quer fazer mudanças na União Europeia e percebeu que a melhor aliada, neste momento, é Meloni. A PM italiana sabe que uma relação próxima com a Alemanha marca o regresso de Itália à liderança da União Europeia. Esta aproximação aconteceu, em grande medida, como resultado da fraqueza da França.

A França atravessa o momento político mais penoso desde que a União Europeia foi fundada em 1957 (e a IV República caíu em França). Internamente, o país está ingovernável. O Governo não conseguiu construir uma maioria parlamentar para aprovar o orçamento deste ano, e só passou com o recurso às competências especiais do Executivo que permitem aprovar a lei orçamental sem ser votada pelos deputados. Eis um conceito estranho de democracia. Alguém imagina a aprovação de um orçamento em Portugal sem o voto no Parlamento? Macron é o Presidente menos popular da história da V República (ainda mais do que Hollande, o que parecia impossível há nove anos).

O impasse político francês tem consequências negativas para a sua política europeia. Neste momento, a França transformou-se numa força de bloqueio na União Europeia. A oposição, e o voto contra no Conselho, ao acordo comercial com o Mercosul evidenciam a fraqueza francesa: Macron e o Governo estão reféns dos agricultores franceses, um sector que vale 2% do PIB nacional. Foi o acontecimento decisivo para Merz perceber que não conta com Macron. Terá que esperar por um novo Presidente, eleito em Abril do próximo ano. Virou-se assim para Meloni. E, após a reunião de Roma, os dois apelaram à aplicação provisória do acordo comercial com o Mercosul até o Parlamento Europeu o aprovar (ou não).

Os Governos alemão e italiano também apresentaram um documento escrito com propostas para aprofundar o mercado único, para travar a regulamentação económica, e o reforço da defesa europeia. Vamos ver o que acontecerá. Mas, hoje, a liderança da União Europeia está em Berlim e em Roma.

Sábado, 24 e domingo, 25

A União Nacional a apoiar Seguro

O populismo, a demagogia e o apelo à rutura de André Ventura não são suficientes para explicar a unidade do sistema político. Esta unidade é uma coligação negativa. Não é normal ver Catarina Martins, o PCP, Pacheco Pereira, Cavaco Silva, a IL e Paulo Portas ao lado uns dos outros. Também não é normal assistir à Igreja e a Maçonaria a apoiarem o mesmo candidato (nem sequer a apoiar candidatos presidenciais).

Esta coligação negativa mostra, desde logo, que a segunda volta é um referendo a André Ventura. A pergunta no boletim de voto poderia ser: “Quer ou não quer André Ventura como PR?” No dia 8 de Fevereiro, mais do que uma vitória de Seguro, teremos uma derrota de Ventura contra uma grande união nacional.

Mas a vitória de Seguro também vai dar às elites políticas portuguesas e aos portugueses uma falsa sensação de normalidade. Um PR do PS e um Governo liderado pelo PSD corresponde à tradição política pós-25 de Abril. Mas a normalidade é apenas aparente. Portugal mudou e muito. Estas eleições ajudam a esconder essa mudança. Pior, vão adiar a necessidade de lidar com a mudança. O PSD e o PS não sabem como lidar com a mudança. Desconfio que Seguro e Montenegro vão fazer tudo para adiar o necessário ajustamento às alterações da política nacional. De certo modo, depois de 8 de Fevereiro, teremos um país político em negação, e à espera do tempo para resolver o que as lideranças políticas não conseguem.

Segunda, 26

A libertação de Carla da Silva

Carla Silva é uma luso-venezuelana e era uma presa política em Caracas, enviada para a prisão pelo regime Chavista pelo ‘crime’ de oposição política. Foi condenada a vinte e um anos de prisão, e esteve seis anos presa. Carla Silva agradece a sua liberdade a Trump e aos americanos. Se não fossem eles, ainda estaria na prisão.

No momento da sua libertação, pediu ao Governo português que fizesse mais pela libertação dos nossos compatriotas das prisões políticas da Venezuela. Espero que o MNE não durma tranquilo enquanto estiverem portugueses nas prisões políticas da Venezuela. As nossas esquerdas foram sempre aliadas do regime chavista, desde o PCP e o Bloco até ao Governo de Sócrates. Nunca quiseram reconhecer que na Venezuela havia uma ‘PIDE’ e várias ‘prisões de Caxias’. Para as esquerdas, na relação com o regime de Chavez e de Maduro, o dinheiro esteve sempre à frente da justiça e da liberdade. Deviam ter vergonha.


Terça, 27

O debate presidencial

O debate foi fraco e maçador. Seguro não quer dizer muito, apenas o suficiente. Ventura passa o tempo todo a repetir-se. Antes de ele falar, já sabemos o que vai dizer. Num ponto Seguro tem razão: não é necessário haver mais debates. Os portugueses agradecem.

Houve uma posição muito interessante. António José Seguro não assume que é socialista. Define-se como moderado, equilibrado, social-democrata, progressista e humanista, mas não como socialista. Hoje, em Portugal, o socialismo não é um passaporte para uma vitória política. Pelo contrário, nem um antigo líder do PS se afirma como socialista.

Ventura, estranhamente, quase que assumiu a derrota, dizendo durante o debate, referindo-se a Seguro como ‘o Presidente que vamos ter’. É óbvio que Seguro vai ganhar. Mas esta eleição é importante para Ventura. É muito diferente perder com 30% ou com 40%. No primeiro cenário, mostra que não está a conseguir diminuir a sua taxa de rejeição. No segundo cenário, mostra que tem margem para crescer. São derrotas muito diferentes. Voltando ao tema da mudança e da incapacidade de lidar com ela, Ventura e o Chega tornaram-se, de certo modo, a força política central do sistema político português. É o Chega que impede uma maioria das esquerdas no parlamento. Sem essa maioria, não voltará a haver um governo socialista. Ou seja, é o Chega que permite um governo minoritário da AD. Mas o Chega também impede uma maioria absoluta da AD, ou mesmo da AD e a IL. Isto significa que ou o Chega faz parte da solução política – que só pode ser uma maioria de direita – ou a única alternativa maioritária será um governo de bloco central. Não há uma terceira opção para uma maioria parlamentar: ou de direita com o Chega, ou um bloco central. E ninguém tenha ilusões. O Chega pode não crescer, mas veio para ficar. Não deixará de ser um partido à volta dos 20% dos votos.

A política portuguesa não sairá do atual impasse sem saber como lidar com o Chega. Acusá-lo de anti-democrata mostra apenas impotência e incapacidade de lidar com a mudança política em Portugal.


Quarta, 28

O tratado comercial entre a União Europeia e a Índia

A União Europeia nas últimas semanas reagiu bem perante o novo contexto geopolítico global: o protecionismo americano, e a ameaça industrial da China. Foi este contexto que permitiu a conclusão do acordo comercial com o Mercosul (negociações duraram 25 anos) e agora com a Índia (as primeiras negociações bilaterais foram em 2007).

A Índia é o maior mercado emergente do mundo (a China já não é uma economia emergente) e o que mais cresce. A prazo, poderá substituir a China como um dos principais mercados exportadores para os europeus. Por exemplo, as tarifas em relação aos carros europeus (excluindo os elétricos para os quais as actuais tarifas vão manter-se durante 5 anos) vão baixar de 110% para 40%, logo que o acordo entre em vigor.

Para Portugal, as empresas de maquinarias industriais vão beneficiar (desde que arrisquem a entrar no mercado indiano). Na agricultura, as exportações de azeite e de vinho podem beneficiar do acordo comercial com a Índia, um país onde as classes médias crescem rapidamente, assim como o consumo do vinho e do azeite.