SÁBADO, 17
A ameaça de Trump de impor novas tarifas a países europeus
Trump ameaçou seis países da União Europeia, o Reino Unido e a Noruega com 10% de tarifas a partir de 1 de Fevereiro. Neste caso, há uma enorme diferença em relação ao ano passado. Em 2025, as tarifas americanas faziam parte de uma política comercial. Podemos concordar ou discordar, mas um país tem legitimidade para adoptar mais protecionismo. Agora, as tarifas foram usadas como arma geopolítica, e não como parte de uma política comercial.
Pior, a ameaça de aumentar as tarifas faz parte de uma estratégia para anexar território a um país aliado, membro da NATO. Obviamente, os países europeus não podiam aceitar.
DOMINGO,18
As eleições presidenciais
Como se esperava, Seguro e Ventura passaram à segunda volta das eleições presidenciais. Os grandes derrotados foram Marques Mendes, Gouveia e Melo e as extremas esquerdas. Vamos começar pelas últimas. O PCP sofreu o pior resultado de sempre. Continua o seu caminho irreversível para o desaparecimento. Em Portugal, ao contrário da que diz a ideologia Marxista, é o capitalismo que está a acabar com o comunismo.
No Bloco, Catarina Martins conseguiu um feito extraordinário: recebeu menos votos do que Mariana Mortágua. Acabou o mito, proclamado pelo Público dia sim, dia não, de que Catarina Martins valia mais do que o Bloco. Não vale. Apesar de o Bloco também já não valer quase nada.
Por fim, o candidato do Livre foi absolutamente patético. No fim da campanha, ninguém sabia (nem ele) se já tinha desistido a favor de Seguro ou se ainda era candidato. As suas dúvidas eram legítimas: ficou atrás do antigo vocalista dos Ena Pá 2000.
Gouveia e Melo aprendeu que a popularidade ganha numa campanha nacional de vacinas não se traduz em sucesso político. Percebeu-se rapidamente, ainda antes da campanha começar, que Gouveia e Melo não foi feito para a política. Não basta ser popular e desejar ser Presidente para ganhar uma eleição. Dá trabalho, exige experiência e é necessário algum talento político. Além disso, também convém escolher pessoas capazes. A escolha de Rui Rio para mandatário nacional foi um anúncio de derrota. Para Gouveia e Melo, esta candidatura foi um equívoco.
Marques Mendes sofreu a derrota mais penosa de todas. Durante dez anos, preparou-se para ser PR, com comentários na televisão e outras presenças no debate público. Mas também se percebeu desde cedo que era um candidato fraco. Não vale a pena dizer mais nada sobre Marques Mendes. Só uma palavra final para saudar o modo digno como aceitou a derrota. A dignidade é uma virtude.
No entanto, o resultado de Marques Mendes foi uma enorme derrota para o a AD e para o Governo; e terá consequências políticas importantes. No cenário mais provável, Montenegro terá um PR socialista que ajudará a reconstrução do PS (veja-se como José Luís Carneiro aproveitou o embalo de Seguro para marcar eleições internas no partido); e à sua direita, um Chega e um Ventura mais fortes.
Montenegro disse o devido após as eleições. Falou como PM e não como líder do PSD. O seu campo político não estará presente na segunda volta, por isso ele não apoia ninguém. Como PM, terá que trabalhar com o futuro PR. Estas três semanas não serão fáceis. Mas o PM terá que manter esta posição. No entanto, esta é apenas parte da história e só dura três semanas. Depois de 8 de Fevereiro, Montenegro precisará de talento e ousadia para recuperar a iniciativa política.
SEGUNDA,19
O início da segunda volta das presidenciais
Como já se esperava, logo na noite das eleições, começou a construir-se a união nacional dos virtuosos e dos preguiçosos. Muitos do PSD, do CDS e da IL foram a correr apoiar António José Seguro, contribuindo para a inevitável ‘narrativa’: o Bem (a democracia) contra o Mal (o extremismo anti-democrático). Aliás, Seguro deu o mote quando falou no seu discurso da «vitória da democracia contra os extremismos». Se a algum destes virtuosos ainda restar um pouco de bom senso, vale a pena recordar que os votos de Ventura foram expressos em eleições livres e que a Constituição (que eles amam de um modo selectivo) não consagra eleitores de primeira e de segunda. Aparentemente, a ‘direita pró-Seguro’ esqueceu-se. Também será interessante ver os que acusam Ventura de dividir os portugueses, fazer uma campanha assente na divisão entre os portugueses democratas e os portugueses extremistas.
Qual será o próximo passo? Internar os extremistas em campos de reeducação para lhes ensinar os valores da social-democracia e do socialismo democrático e obrigá-los a ler a Constituição antes de se deitarem? Até 8 de Fevereiro, teremos um exercício de educação política para os incultos e os extremistas, onde vão aparecer aqueles que trabalharam com uma lealdade extrema para Sócrates a dar lições sobre separação de poderes, os antigos ministros de António Costa a dar lições sobre como proteger as fronteiras nacionais e como lidar com a imigração, antigos ministros da saúde a ensinar como se resolve os problemas da saúde, e antigos ministros da educação a dar lições de como se lida com as escolas públicas. Também teremos os militantes do PCP e do Bloco e louvar a democracia, o respeito pelos direitos humanos, pela liberdade e pela igualdade e exigir que se crie riqueza (talvez de braços dados com militantes da IL).
Em suma, vamos assistir a uma intimidação democrática sobre os eleitores. Obviamente, que é muito mais fácil transformar a eleição entre a democracia e os extremos. Esconde a ausência de argumentos válidos e torna desnecessário trabalhar pela vitória. Daí, acrescentar os preguiçosos aos virtuosos. O objectivo é levar o menino António José num andor até Belém sem se comprometer com nada.
O mais espantoso é que dirigentes e militantes dos partidos da AD, e antigos ministros, estão a ajudar a passar um cheque em branco a Seguro. A sua falta de clarividência é tal que declararam apoio a Seguro sem qualquer exigência. Estão a contribuir para dar força a um Presidente que mais tarde ou mais cedo usará esse poder contra o governo dos seus partidos. Quem é que disse que Portugal tem uma das direitas mais estúpidas do mundo? Não me lembro, mas tinha razão. Pelo menos, parte dessa direita esforça-se para dar razão ao autor anónimo.
TERÇA, 20
A União Europeia reage contra Trump
A União Europeia reagiu contra a ameaça de Trump de impor mais tarifas a países europeus. Fez muito bem. Com Trump, a subserviência não funciona. Só aumenta os seus instintos de valentão e fanfarrão. E chega-se a um ponto em que se perde a dignidade. Quando se vai a dignidade, nada resta.
QUARTA, 21
Trump em Davos
Afinal, Trump recuou. Não usará a força militar na Gronelândia. Terá percebido que a maioria no seu partido e na sua base eleitoral nunca apoiaria tal loucura. Por agora, também não aplicará mais tarifas aos países europeus. O que de resto é prudente até o supremo tribunal americano decidir se as tarifas que já impôs são legais ou ilegais.
Resta saber qual será o acordo sobre a Gronelândia. O que se sabe, por agora, é que o território estará protegido pelo novo sistema de defesa americano anti-aéreo, o Golden Dome. Também haverá uma exploração comum (entre americanos e dinamarqueses) dos recursos naturais da Gronelândia. Parece que os Estados Unidos vão igualmente adquirir soberania sobre os territórios das suas bases militares, de um modo muito semelhante ao que se passa com as bases britânicas em Chipre, que estão sob a soberania do Reino Unido (e nem o Brexit mudou esse estatuto). Por fim, há aparentemente um reforço da presença da NATO na segurança do Ártico.