terça-feira, 21 jul. 2026

Uma outra pérola

Viu-se uma evocação da vida dos pescadores apenas pelo seu lado negativo: a condenação à nascença, a impossibilidade de participar da aventura universal e de conflituar contra a tradição e mesmo contra a suposta novidade urbana, a exploração.

O Teatro da Comuna acolheu uma versão curta de A Pérola, famoso texto de John Steinbeck. O encenador Jorge Gomes Ribeiro optou por abreviar os diversos conflitos que surgem na viagem do achador do prémio, e dar destaque à primeira parte do texto, de género etnográfico, sobre a comunidade de pescadores e os seus usos, bem representados nas cenas mudas e na oralidade própria de uma comunidade rústica, olhada sob o prisma dos bons selvagens. Aqui destaca-se o casal do irmão de Quino, o feliz contemplado, representado muito bem por Carla Chambel e Rui Luís Brás.

A opção de dar destaque à primeira parte do enredo onde se discriminam os pobres e se revela a vileza do médico avaro que se recusa a tratar a filha de Quino devido à falta de dinheiro dos pais desequilibra as cenas finais da peça. Esse episódio não só não é o mais curioso e artístico, como se prolonga demasiado, pondo em crise o chão que leva à desgraça final.

Se tem o efeito de mostrar claramente ao que vem o texto, assegurando a antinomia básica entre a virtude dos desgraçados e a vileza dos negociantes, não é central para o êxito da narrativa. Não apenas, por economia de tempo, precipita a crise motivada pela cupidez de Quino, como a torna patética e implausível até certo ponto, eliminando a complexidade da contradição desta personagem, que aparece simplória.

A condenação da atitude de Quino parece evidente, e não devia. Foram retirados os diversos finais em falso da narrativa, com as dúvidas que são fundamentais para o êxito dramático. A extrema abreviação do conto sacrifica a sua parte mais interessante: a acção acontecida na estrada, entre o portador do dote fenomenal e os recessos que vai encontrando no caminho. É aí que se joga o inesperado, o aviltante, o excruciante: o aspecto trágico da narrativa.

Assim, viu-se uma evocação da vida dos pescadores apenas pelo seu lado negativo: a condenação à nascença, a impossibilidade de participar da aventura universal e de conflituar contra a tradição e mesmo contra a suposta novidade urbana, a exploração.