Os dias, as semanas, os meses continuam a passar e a ‘curta’ guerra contra o Irão nunca mais acaba e mergulhamos claramente num pântano que ninguém adivinha a saída.
A Europa tenta ter ideias, mas não tem nenhuma eficácia na busca de soluções que travem o crescimento do custo de vida e corte de vez com a tóxica dependência do petróleo.
É preciso ter alternativas de mercados que evitem estas flutuações ao sabor do humor da liderança dos Estados Unidos. Voltar a África, fazer crescer a parceria com o MERCOSUL, ter uma convivência saudável com a China, resolver a guerra na Ucrânia e ter também a Rússia na equação, têm sido caminhos apontados, mas falta a decisão autónoma e lá se tropeça na imprevisibilidade de Trump, sem ter argumentos para a contrariar. Quando digo argumentos, falo de dinheiro e negócios. Essa é a linguagem a que a atual administração da Casa Branca é sensível e a Europa, com os parceiros certos, pode mesmo mudar a música e escolher com quem dança.
Há outra possibilidade; vergar, obedecer cegamente a Washington, entrar na fila da vassalagem cega a Trump e enviar as tropas europeias em força para uma guerra que já se viu que é um atoleiro.
O chanceler alemão ensaiou o discurso não alinhado e já ouviu e sentiu na pele o que isso significa. Será que ele vai recuar? Ou isto é o começo de uma liderança europeia, com capacidade militar, dinheiro e verdadeiro poder?
Não tenho nenhuma ideia de como isto vai evoluir. Adivinhar o amanhã num mundo destes é um exercício completamente impossível.
Trump não sabe como acabar a guerra, nem como travar os efeitos avassaladores na economia global. Está preocupado com a imagem na América e com as eleições. Ter algo que se assemelhe a uma derrota será devastador para uma narrativa que esbarrou nesta dura realidade e num impasse que o maior exército do mundo não consegue desatar.
O Irão poderá ser derrotado, mas qual é o custo de aplicar a receita de Gaza e demolir por completo um país?
Mesmo assim, em Gaza, ainda há resistência. O que seria um Irão devastado e que capacidade teria para causar estragos igualmente gigantescos na região e no mundo?
O Irão fez estragos gigantescos em bases americanas e nos países da região. Atingiu duramente Israel. Deixou no ar a ameaça terrorista que poderá até estragar o Mundial de Futebol.
São demasiadas perguntas e percebemos que quem está ao comando desta nave não sabe mesmo para onde a levar, estando todos nós amarrados nas decisões de quem comanda literalmente as nossas vidas e pode abalar a organização global, tal como a conhecemos.
A China estará no centro do tabuleiro nas próximas semanas. Pequim já ouviu o Irão, a Rússia e montará um cenário que vai impressionar Donald Trump.
Pequim sabe esperar e esta paciência vai desmontar a truculência americana que se perde entre tantas ameaças e poucas ações concretas. A China tem montada a teia de mercados alternativos e fiáveis para não se incomodar muito com a atual imprevisibilidade americana. Acredito que isso vai ser mostrado de forma implícita, mas convincente e Trump não voltará da China sem perceber que tem ali realmente uma superpotência que sabe bem para onde quer ir.
As esferas de influência de americanos e chineses estão ainda a redesenhar-se. A Rússia precisa de acabar com a guerra na Ucrânia para ter uma palavra, que será já pequena, neste novo jogo. A América acredita que vai conquistar tudo pela força. Vamos ver se a China se mantém paciente embora esteja numa louca corrida ao armamento, investindo muito seriamente no desenvolvimento de tecnologias militares, aprendendo com o Irão e também com a Rússia, mantendo a ameaça a Taiwan.
As alianças não são firmes e a volatilidade dos tempos recomenda prudência.
Para nós portugueses, sobra a incerteza sobre os efeitos na economia, até onde esta escalada dos preços vai seguir e que consequências sociais e depois políticas poderá ter uma nova crise económica à escala global.
Como já disse, não são tempos em que se possa adivinhar o amanhã, mas confesso que tenho algum receio dos dias que estão para vir.