quarta-feira, 22 jul. 2026

O verão está a chegar

O novo paradigma climático obriga a uma outra atitude. A descentralização de poderes, o reforço das autarquias, a regionalização, deverão entrar no debate desta nova realidade que já aqui está.

O verão está a chegar quente e as ameaças à floresta voltam a ser muitas. Foram as tempestades, a chuva tardia e mais um ano de abandono de uma boa parte do interior, com falta de limpeza e uma grande dificuldade em identificar os donos das matas, que continuam por manter e proteger.

Há projetos com sucesso, por exemplo em Mação, mas continuam a ser poucos para a imensidão do problema que o país descobre durante o verão e esquece logo depois.

Dizem os entendidos, que os fogos se combatem no inverno, com a prevenção, o reordenamento da floresta, a proteção das aldeias e também a educação das crianças e a formação dos adultos.

É fundamental fazer crescer a cultura de proteção coletiva, perante a séria ameaça de fenómenos extremos e da evidente mudança do clima. É verdade que se estão a fazer muitas coisas interessantes e importantes neste campo.

O investimento no combate é fundamental, mas convém fazer todas as contas e explicar claramente quanto nos custa a todos este flagelo dos fogos. A conta é impressionante.

Este ano iremos sentir no verão os efeitos desta crise que se adivinha com a subida do petróleo e a guerra que nenhum de nós encomendou, mas que estamos a pagar. Talvez seja a altura certa para explicar aos portugueses que com menos fogos, esse gigantesco investimento no combate poderia ter outro destino que melhoraria substancialmente a vida de todos. Mas isso só será possível num país radicalmente diferente e já não será certamente para a nossa geração.

Os nossos netos saberão fazer melhor, esperemos, crescendo com outros ensinamentos e aprendendo desde muito pequenos a respeitar a natureza e a valorizar este património único, a floresta.

Esta foi a semana em que lembrámos a tragédia de Pedrógão e em que entramos numa nova vaga de calor. Estamos em junho, mas este tema, incêndios, vai passar rapidamente para as nossas preocupações.

Sabemos o que aconteceu no temporal com uma falha muito grave nos alertas e uma resposta que o tempo está a demonstrar como não funcionou. Se vos deu o meu exemplo pessoal, com uma grande seguradora do país, posso dizer-vos que ainda não recebi um cêntimo dos estragos que tive no telhado e em parte da minha casa. Em Leiria, isto é muito frequente e as seguradoras não demonstram nenhuma vergonha e continuam a cobrar os prémios de seguro, sem pagar os estragos. O mesmo acontece com as operadoras de telecomunicações que ainda não têm todo o serviço restabelecido, embora gastem milhões em campanhas de publicidade a dizer o contrário. Vão a Leiria, Marinha Grande, Figueiró dos Vinhos e a muitos outros locais e perguntem às pessoas.

Esta é uma imagem terrível, num país onde o Governo prometeu a resposta mais rápida de sempre aos efeitos de uma tempestade. A realidade é a que podemos ver e não adianta acrescentar opiniões e polémicas. Basta ir às zonas afetadas e cada um tira as conclusões de acordo com os que os olhos vêm.

O verão pode trazer novos prejuízos e mesmo com as mudanças que se anunciam, vamos ver se não acontece o mesmo que no ano passado e neste ano, no apoio de emergência às populações e depois no acompanhamento das reparações e da vida das pessoas que se viram numa destas situações dramáticas.

O novo paradigma climático obriga a uma outra atitude. A descentralização de poderes, o reforço das autarquias, a regionalização, deverão entrar no debate desta nova realidade que já aqui está.

Podemos não querer agora fazer esse debate, nem tomar decisões, apenas por conveniências políticas de ocasião, mas estes nossos dias vão obrigar a que isso aconteça muito mais rapidamente que o que parece agora ser um calculismo político para não se abrirem novas polémicas.

O centralismo ruiu com Leiria e a tempestade, depois de um abalo forte nos fogos do ano passado. Poderemos tentar continuar a não ver, mas a realidade é tramada.