O dia do eclipse

Bragança encheu-se de gente e quem lá foi não vai esquecer estes dias. A placa do aeródromo transformou-se num sereno observatório, onde as famílias estenderam mantas e saborearam uma tórrida tarde de sol.

Fui um dos ‘privilegiados’ que conseguiu ver o eclipse na sua plenitude, num momento mágico. Bragança encheu-se de gente e quem lá foi não vai esquecer estes dias.

A placa do aeródromo transformou-se num sereno observatório, onde as famílias estenderam mantas e saborearam uma tórrida tarde de sol, que terminou num por do sol quem não voltaremos a repetir nos nossos dias, em território nacional.

A serenidade do dia e do momento, confesso que me comoveram. Aqueles milhares de pessoas partilharam emoções, ficaram ali, descontraídas com os óculos encavalitados no nariz, sem segurarem o tempo ou apressarem o momento em loucas séries de fotografias com o telemóvel.

Usufruíram, sabendo que tudo aquilo tudo era irrepetível. Estes momentos dão mais sentido à velha expressão, viver a vida e deveriam inspirar uma outra atitude em cada um dos outros 364 dias do ano.

A nossa sociedade está crispada. Facilmente se parte para o insulto, para a agressão, onde as redes sociais são um palco podre onde proliferam os justiceiros de teclado que não se ensaiam de insultar qualquer um de nós para terem ‘likes’ na publicação e entrarem no café lá da terra de peito feito a pensarem que são os maiores. A ignorância está mais atrevida que nunca e a facilidade com que crescem estas figuras, algumas aproveitando a piada e o talento natural de um cromo patusco, para disfarçar a inexistência de qualquer base pensada para o que difundem pelas redes em nome da moral e dos seus bons costumes. Que moral?

Estranho mundo onde há quem se agarre a estas figuras, aplauda os seus desvarios e siga os conselhos na vida real, que é radicalmente diferente daquilo que passa num ecrã de telemóvel.

Volto ao eclipse e ao mundo real. Quem ali esteve naquela tarde, naquele dia, viveu realmente uma experiência que nos deixa com o coração cheio.

A tarde reservou desafios e jogos para novos e velhos. Os fantásticos centros de Ciência Viva ensinaram a medir o tempo em relógios solares, explicaram a dimensão do sol e a organização do sistema onde vivemos, deixaram os miúdos construírem os seus óculos para o eclipse inspirados nas máscaras dos Caretos. Foi delicioso ver a felicidade de quem descobria tanto em cada uma daquelas oficinas.

A expectativa e a curiosidade de todos vão deixar boas memórias e certamente vontade de viver mais experiências deste tipo, com partilha, sem o limitador telemóvel a retirar atenções e com mais conversa e riso solto entre todos. Vejam lá como a vida real é tão diferente daquele fel que destilam os ‘influencers’ e ‘moralistas’ de teclado. A vida dessas figuretas deve ser tremendamente infeliz.

Bragança foi ponto de encontros, de emoções. Local onde vimos a lua dar uma trinca no sol, como me dizia um miúdo com muita piada na reportagem em direto para a CNN e TVI. É perfeita essa imagem da lua numa dança com o sol e a ganhar um saboroso pedaço numa dentada.

Os hotéis esgotaram, assim com as casas de turismo e até os parques de campismo. Milhares de pessoas descobriram este interior e uma cidade que é muito mais que um castelo deslumbrante no topo de um monte. Ali há gente com histórias que se desmancha numa gargalhada ao contar uma aventura. Há sabores de javali e castanhas com caçadas ancestrais e compor o paladar de cada garfada. Há uma paisagem que nos arrebata e convida a estender a manta debaixo de uma sombra ao lado de um rio e a ficar ali a ouvir a passarada e o coaxar das rãs, sem o burburinho que nos tira a vida nas cidades.

O eclipse acabou por ser uma luz para muitas famílias que certamente irão voltar ao interior de um Portugal que nos deslumbra sempre uma nova experiência.