O clima mudou. As autoridades têm de alterar o paradigma e exigir uma maior responsabilização das pessoas

A viagem do primeiro-ministro a Leiria deveria ter acontecido mais cedo, logo no despertar do dia. Aquelas pessoas merecem a nossa atenção imediata.

As tragédias relacionadas com tempestades serão mais frequentes. Os avisos, fundamentados na ciência, são muitos, mas o nosso país continua a ser crente na Nossa Senhora de Fátima e nos santinhos do improviso.

Leiria foi varrida por um temporal como nunca se tinha visto. Fui lá no dia fazer reportagem e fiquei impressionado com o que aconteceu na cidade. São prédios esventrados pelo vento, zonas industriais arrasadas, árvores arrancadas nas praças e nas encostas do castelo e a floresta em redor de Leiria verdegada como e por ali tivesse passado um rolo gigantesco que arrancou árvores enormes e as estendeu no chão ao longo de dezenas e dezenas de quilómetros. As chapas dos telhados ficaram enroladas nos edifícios vizinhos. Os postes de alta tensão tombaram como pequenas peças de lego perante tamanha violência. Não há praticamente nenhuma casa que não tenha danos. O rosto de medo e de susto das pessoas é arrasador. Ninguém acredita no que os olhos vêm.

O milagre de não ter morrido mais gente aconteceu porque a tempestade chegou de madrugada. Se tivesse chegado às sete ou às oito da manhã, quando todos estariam a seguir para o trabalho o que teria acontecido?

Num alerta vermelho, com uma ameaça gigantesca como esta, não seria mesmo de limitar a circulação e ter efetivamente as pessoas em casa? Vamos esperar por uma tragédia maior para adequar os alertas à nova realidade das alterações climáticas e aos eventos extremos frequentes?

Ou o país segue os negacionistas do clima e de todas estas evidencias e caminha irresponsavelmente até que volte a acontecer, rezando para que não morra ninguém e os estragos não sejam muitos.

O Clima mudou e está mais perigoso. Essa é a realidade que não se consegue negar. Basta ver o que está hoje à nossa frente.

Tudo mudou. A realidade de hoje obriga a uma ação completamente diferente das autoridades e a uma responsabilização maior das pessoas. Terá de haver coragem política para se alterar o paradigma e se nada for feito, ninguém repetirá que não sabia que estas coisas estão agora a acontecer assim.

Nas telecomunicações, nada mudou depois do apagão. 24 horas depois da tempestade, pouco se tinha restabelecido e as pessoas desesperam sem conseguirem pedir ajuda e falar com as famílias. Como é que as operadoras de comunicações conseguem montar sistemas móveis em festivais de música e eventos na praia e não se encontra nestes dias uma resposta imediata?

 É completamente inaceitável esta inércia e falta de planeamento estratégico e o Governo tem a obrigação de encontrar agora uma solução para isto.

Luís Montenegro reagiu a medo à tragédia. Fica a ideia de que primeiro se faz um cálculo político e depois se age e se vai ao terreno.

A Leiria ainda foram três secretários de Estado, mas na Figueira da Foz que foi também duramente atingida pela tempestade, um dia depois da tragédia, Santana Lopes garantia que ainda ninguém falou com ele.

A presença de políticos num cenário de catástrofe nem sempre é positiva, mas neste caso a demostração de conforto às populações teria recomendado que a viagem do primeiro-ministro a Leiria tivesse acontecido mais cedo, logo no despertar do dia. Aquelas pessoas merecem a nossa atenção imediata.

Ele, como eu no dia da tragédia, ficou impressionado com a dimensão e com a violência desta destruição. Os autarcas, os bombeiros e as organizações como lares de idosos e hospitais, reagiram com o que tinham, mas tiverem de utilizar toda a criatividade para superarem as terríveis dificuldades da reação nas primeiras horas.

Há milhões de euros de prejuízos. É preciso ajudar já esta gente e não perder agora o horizonte de uma mudança profunda no sistema de alertas e nas necessárias medidas adicionais, como a limitação de circulação, reposição de comunicações e de energia com sistemas de emergência e a dotação das autarquias de sistemas de comunicações satélite que permitam manter as ligações, quando estas coisas voltarem a acontecer. O dramático, é que o inverno está para durar e as previsões do tempo não nos deixam minimamente sossegados.