As imagens divulgadas pelo polémico, mas poderoso ministro da segurança nacional israelita, Ben Gvir, mostram a ruína total do mundo de princípios em que ainda julgávamos viver.
Afinal, tudo é permitido.
Os barcos da flotinha foram capturados em águas internacionais, os ativistas presos sem nenhuma decisão judicial, e depois exibidos como ‘gado’ desobediente numa cena que nos faz lembrar os tempos mais negros da nossa história coletiva.
Não vou discutir a utilidade destas flotilhas, nem as suas bases ideológicas. Vivemos num mundo livre, ainda, e discordar e protestar faz parte do jogo.
A questão é a impunidade e o desplante como isto agora se faz.
Imaginem que Vladimir Putin ordenava uma coisas destas? Ou um outro qualquer líder autocrático daqueles que estão efetivamente ao comando das grandes decisões deste nosso mundo?
Estaria outro meio mundo a rasgar as vestes, a convocar a ONU, a gritar pelo Tribunal Penal Internacional e coisas do género.
Mas este caso só se está a tornar um problema, porque o desplante e a ideia de impunidade ultrapassaram tudo quanto ainda achamos decente, mesmo vindo de Israel.
E agora? O que vai fazer a Europa? E os Estados Unidos? E o próprio Primeiro-ministro de Israel que condenou o seu ministro?
Cai o Governo?
Alguém diz a Ben Gvir que isto não pode ser assim e lhe aplica a lei de um Estado de direito?
Ou o tempo deixa escorregar mais este dia negro a que se soma já uma longuíssima lista de inaceitáveis?
Eu aposto na última opção e acho que os nossos alertas e indignações com o que acontece naquela zona da globo são chuva no molhado e de nada adiantam.
A próxima semana dará certamente razão ao que escreve agora e não tenho receio de ser desmentido por outra realidade. Estamos efetivamente como aqueles ativistas. Amarrados, ajoelhados e sujeitos à humilhação de seres como Ben Gvir.
A comunidade internacional, se isso existe, permite hoje tudo. A ONU fechou, as democracias continuam vergadas e obedientes a tudo o que chega de países que são liderados por falcões que utilizam as guerras e as ameaças como modus operandi para sobreviverem politicamente.
É um tempo de que não teremos saudades, se sobrevivermos a isto, mas é difícil olhar para a friezadas lideranças perante tamanho despautério.
Netanyahu adia o julgamento que o poderá derrubar, com todos os argumentos, sabendo que dificilmente sobrevive ao processo, se ele for até ao fim.
Tem a cumplicidade dos EUA e a ação envergonhada desta Europa, que nade decide e pouco ameaça.
A nova ordem mundial é desenhada pela China, com os EUA e a Rússia a aparecerem na fotografia a disputar a passadeira vermelha e os negócios. Essencialmente os negócios, que é isso que verdadeiramente conta.
Os princípios vão caindo, uns atrás dos outros e nós seguimos alegremente a acreditar que isto é lá longe e que só afeta uns ‘tolinhos’ portugueses que vão nestas ideias utópicas de flotilhas e alertas para o que continua a acontecer em Gaza. Já nem queremos saber disso, de como ainda há gente ali e em que condições sobrevivem. Estamos mais preocupados com o nosso destino de férias e de saber se a água no Algarve vai estar este ano suficientemente quente para nos adormecer, ainda mais.
O drama disto tudo é o dia em que acordarmos e percebermos no que deixámos transformar o nosso ‘belo’ planeta. Será, certamente, demasiado tarde…