sexta-feira, 13 mar. 2026

E depois das tempestades?

A gestão de crise e a incapacidade para estar presente nos momentos certos são um sério problema para este Executivo.

Não sei o que vai sobrar depois da enxurrada, mas os sinais voltam a ser preocupantes, repetindo o que aconteceu com o temporal em Leiria.

Eram pouco mais das vinte e uma e trinta, noite de terça, dia 10 de fevereiro, com muita chuva e nevoeiro cerrado. A previsão meteorológica apontava para um autêntico dilúvio, depois de uma semana terrível.

A Câmara de Coimbra chamou os jornalistas para uma conferência de imprensa com um alerta urgente: os diques do Mondego estão à beira de colapsar e vamos começar a retirar de casa mais de três mil pessoas. A previsão estava correta e o aviso atempado evitou males maiores. Os diques rebentaram na tarde seguinte.

O rosto da tranquila Ana Abrunhosa dizia tudo. Ao lado o presidente da APA, Pimenta Machado, uma das grandes figuras na gestão desta crise e o competente líder da proteção civil regional, o comandante Carlos Tavares.

Eles, apenas eles, anunciaram ao país o que estava a chegar e citaram o acordo da ministra do Ambiente para estas medidas. Agiram com competência e fizeram o que acharam certo, sem calculismo político ou medo das eventuais críticas, mas estavam sozinhos naquele momento.

Praticamente ao mesmo tempo, nessa noite de chuva e nevoeiro, uma nota da Presidência da República anunciava a saída da ministra da Administração Interna, sem mais explicações. Silêncio total do Governo, num momento dramático, acrescentando-se este dado relevante; o país ficava sem o ministro das crises, quando se anunciava uma tragédia e se pedia às pessoas para saírem de suas casa, mesmo a meio da noite.

O Presidente da República apareceu depois, ainda na noite, confirmando a demissão, sem acrescentar mais dados, nem falar da emergência. O líder da oposição, que já teve esta complicada pasta, nem sabia muito bem como classificar o momento da demissão, logo naquele momento.

O país foi dormir assim e a intriga da política acordou com a necessidade urgente de se adiar o incomodo debate quinzenal com o primeiro-ministro, que se juntou ao Presidente e lá foram a Coimbra ver o que efetivamente está a acontecer. Morreu o argumento de Leiria e afinal os políticos podem e diria eu, devem estar ao comando no local nos momentos de crise.

Montenegro esteve bem, assumiu o controlo da operação. Mais vale tarde, um pouco tarde, que deixar repetir Leiria.

A noite foi demasiado longa para as gentes do vale do Mondego, que passaram aquelas longas horas em claro, sem terem ouvido de Lisboa uma só palavra de alerta ou de conforto. Já com a tragédia em curso, chegou apoio, é verdade.

A política do poder central segue o calculismo, sem antever, prevenir e dar a cara nos momentos de crise no tempo certo, mas depois lá reage, em força, mesmo que se perceba que falta uma estratégia que apenas está na cabeça do poder local. Que falta faz a regionalização. Que diferente seria o país, o interior nestas situações.

A gestão de crise e a incapacidade para estar presente nos momentos certos são um sério problema para este Executivo. Luís Montenegro seguirá com mudanças no elenco governativo, mas este parece ser um problema estrutural, que poderá ser fatal a médio prazo.

As pessoas precisam de confiança e de tranquilidade na hora certa. Já o escrevi aqui. Faltou uma comunicação ao país na véspera da primeira tempestade a avisar claramente as pessoas para ficarem em casa, foi feita com um tímido aviso antes da segunda vaga do temporal e agora voltou a repetir-se a falha, o que se transforma num paradigma a ausência do no atempado aviso às populações. Falta a noção do tempo.

Em Leiria foi o autarca da cidade que deu um grito de alerta, um dia depois da tragédia, para se perceber em Lisboa o que estava a acontecer.

Nesta ameaça séria, foi de novo um autarca a ter o protagonismo.

Ana Abrunhosa disse ao país o que ia ser feito para proteger as pessoas. As palavras dela dizem tudo e o rebentar de um dique será ‘uma bomba’.

É este o papel dos autarcas, mas o poder central tem de olhar para o país de outra forma e descentralizar, porque não consegue fazer o seu papel.

O Governo e o Presidente aparecem depois, prometendo ajuda, anunciando pacotes de apoio e obras para se evitar uma nova crise. Mas será que isto vai chegar? Que desgaste terá a imagem do Executivo depois deste carrocel de tempestades? Que força terão os ministros para ir ao terreno e encontrarem soluções com os autarcas que deixaram sozinhos na hora decisiva?

Teremos um novo Presidente que terá um papel importante nestes momentos, mas Luís Montenegro já não tem mais tempo para conseguir uma nova dinâmica que deixe mesmo o país sem eleições nos próximos anos. Há quem vá fazer tudo para contribuir para a ideia de que o Governo se está a desintegrar e que não tem visão para os principais problemas. A AD tem a chave para um outro ciclo, se conseguir a dinâmica que Montenegro afirma no discurso.

Veremos se tem a arte para a utilizar na porta certa.