Passou um mês e não sei se já chegou a notícia a Lisboa. Ainda há cerca de duas mil pessoas sem luz e uns milhares, não se sabe bem ao certo, sem internet e comunicações.Os apoios são uma gota de água num oceano assustador de problemas.
Esta semana, numa reportagem na CNN Portugal, um casal com mais de 80 anos contava e mostrava como se repara um telhado esventrado pela ventania. A imagem de drone é esmagadora mostrando o homem no topo do telhado e a destruição que o envolvia.
Ela, com um olhar conformado, amassa cimento que carrega num balde de dez litros que depois arrasta até a uma corda pendurada no que resta do edifício.
Ele, lá no cimo de uma casa de dois andares, puxa a corda e recebe o balde com um suspiro longo, para depois espalhar a massa pelo telhado e agarrar uma dúzia de telhas, nem todas em perfeito estado.
A pergunta da jornalista é se ainda não chegou ninguém para ajudar. A resposta foi simples; ‘Pois não menina. Mas nós cá estamos de saúde para resolver isto’.
É o retrato de um país que se mobilizou para cada um salvar o que é seu, com a ajuda dos vizinhos de muitos voluntários, mas que continua a não conseguir responder a uma tragédia destas atempadamente.
Há hoje filas indetermináveis de pessoas a pedirem alimentos, cobertores, roupas, telhas. Perderam tudo.
Os lamentos são muitos e a mais rápida resposta de sempre parece ainda não ter realmente chegado a todas estas pessoas.
Deixo a sugestão aos nossos leitores para se fazerem à estrada, de luvas e botas para perceberem aquela realidade e darem a ajuda possível, que será sempre bem-vinda.
Parece que Leiria e a região continuam a ser muito, muito longe dos centros de decisão, que repetem que tudo estão a fazer para responder à tragédia.
É mesmo preciso ir lá, porque os relatos dos jornalistas, que não viraram costas, continuam a ser insuficientes para que algo de substancial aconteça.
E há coisas simbólicas. Não é que as operadoras de comunicações e de distribuição de eletricidade tiveram a suprema lata de enviarem a conta deste mês a quem não têm serviço desde o dia da tempestade?
Pois é… a conta chega sempre, a reparação pode esperar para quando houver vagar para isso.
Depois, lá vieram dizer que é melhor pagarem, que depois haverá um crédito no mês que vem. Como é que se faz uma coisas destas a quem perdeu quase tudo, ficou e está sozinho a tentar resolver as coisas com os seguros e com a máquina do Estado, para quem tem seguro, sem salário porque a fábrica fechou e o lay-off é pela metade?
Mas é melhor pagar a internet e a luz, que depois se resolve com um crédito, no mês que vêm, se não tivermos mais nenhum problema.
Os portugueses são conhecidos pela sua paciência, mas esta situação, a continuar assim, vai acabar mal. Não há paciência que resista à longa espera.
Ainda esta semana vimos empresários desesperados a pegarem em tudo o que têm e a reconstruirem as fábricas com os trabalhadores, porque as prometidas ajudas nunca mais chegam e as peritagens dos seguros ainda não levaram dinheiro para as obras.
Vimos autarcas a perderem a cabeça, como foi o caso de Ana Abrunhosa, irritada com o que parecia ser apenas propaganda do ministro da Agricultura. Ela não devia ter reagido assim, mas é um sinal do que poder local e as pessoas nessas terras estão a viver e a sentir. Desespero e impotência.
É verdade que os apoios já chegaram a algumas pessoas, mas olhando para a dimensão da realidade dos que nada têm nesta altura percebemos a importância de um grande plano de ação, que tem de ser forte mas rápido. Não se pode continuar com a casa, as fabricas as explorações agrícolas sem telhado. Estamos a falar de 15% da riqueza do país.
O sofrimento destas pessoas não tem descrição possível. Só mesmo indo lá.
As imagens de televisão são frias, não mostram o que é chegar à noite e dormir numa casa com meio telhado e água a escorrer pelas paredes, sem luz nem comunicações.
As autarquias tentam dar o seu melhor, mas é evidente a falta de meios e a impreparação do território e das instituições para calamidades desta dimensão, que são agora uma realidade que se pode repetir em espaços curtos de tempo.
Não chega o chavão de que o Estado falhou. Hoje, esta gente exige que se aprenda mesmo, se mudem as coisas e que se respeite quem já tem uma dose brutal de sofrimento para lidar.