A democracia em risco

A Europa não terá capacidade para evitar as ideias de Trump de ocupar territórios dos seus ‘aliados’ ou de Putin continuara redesenhar o velho império ao seu belo prazer.

Os meus leitores têm memória de alguma democracia ‘exportada’ pelos Estados Unidos que tenha funcionado ou esteja a funcionar?

É que eu não tenho.

No passado recente, recordo o Iraque, a vergonhosa fuga do Afeganistão tantos mortos depois, numa missão que arrastou a NATO e até Portugal para a região. A Líbia e a Síria são apenas mais dois exemplos. Em nenhum desses territórios se conseguiu um mundo melhor, depois do derrube dos ditadores, sem nenhum plano sério que conseguisse aplicar uma verdadeira democracia, liderada por alternativas fortes e aceites pelo povo de cada um destes países.

O Irão pode ser o próximo naufrágio, se for seguido o que Trump está a anunciar.

É bom recordar a História, para não a repetir. Já foi a América a matar toda a esperança no democratizar daquele país quando financiou o fomentou a revolta que levou ao poder Reza Pahlavi em 1925. Na altura, a ideia era entregar a exploração do petróleo a empresas americanas e britânicas. É verdade que o Irão se abriu aos valores ocidentais, teve desenvolvimento na agricultura, as mulheres ganharam liberdade, mas a mão de ferro do Xá e a sua sinistra polícia política afastaram o povo do poder e abriram a porta à revolução islâmica e ao que temos hoje.

É também verdade que os americanos se fartaram de ganhar dinheiro nessa altura com o petróleo do Irão e o controlo dos preços à escala global, mantendo uma influência muito forte nos estados do Golfo Pérsico.

Depois da queda do Xá e de uma forte derrota política, mas principalmente económica, os Estados Unidos ainda tentaram derrotar o Irão com um apoio ao Iraque e a Saddam na guerra entre os dois países, que foi extremamente violenta, mas acabou por não derrubar o poder em Teerão e só complicou ainda mais o já instável xadrez político na região e até no mundo. Todo o planeta pagou esta empreitada com os preços do petróleo a chegarem a níveis nunca vistos e muitos países a mergulharem em crises profundas. Portugal foi particularmente atingido por essa crise, e os portugueses passaram momentos de grandes dificuldades, mas a nossa memória parece ir apagando estas coisas e vamos lá apoiar uma ideia, que nos pode mergulhar de novo em dias de crise profunda.

Agora, na Venezuela, Trump já disse ao que vai. A democracia até poderá ser uma preocupação no futuro, mas o que importa é controlar o petróleo do país, mantendo o mesmo poder em Caracas, apenas sem Maduro. A liberdade das pessoas será coisa para se tratar depois. Agora, é tempo de fazer negócios.

Somamos a ideia do Irão à Gronelândia, onde em nome da segurança se prepara uma compra, ocupação, capitulação, seja lá o que for, que na verdade é feita apenas em nome da exploração dos recursos naturais da ilha pelos interesses americanos.

Não interessa se é um país da NATO, da Europa, de um mundo que tinha princípios. O que conta é o quero, posso e vou fazer de Trump e todos parecem curvar-se numa enxovalhante vénia ao que chega desta nova América, que se julgava ser um aliado. Havidos de novas terras, Pequim e Moscovo vão reagindo cautelosamente aos passos da Casa Branca, somando argumentos para afirmarem também eles os mesmos princípios nas suas zonas de influência. A Europa vai gastar uma fortuna em armamento, que poderá ser completamente inútil num cenário como aquele que se desenha agora. Vai tarde e não terá capacidade para evitar as ideias de Trump de ocupar territórios dos seus ‘aliados’ ou de Putin continuar a redesenhar o velho império a seu belo prazer. Falta saber se a China ficará satisfeita apenas com Taiwan ou se tem mais uns terrenos em vista nas redondezas.

Com esta corrida ao armamento, a América volta a ganhar com as vendas, mantendo depois o controlo sobre estes equipamentos que nunca se vão voltar contra si. A tecnologia deixa sempre dependências informáticas e será fácil a Washington parar uma frota de aviões de fabrico americano em qualquer parte do mundo.

A falta de visão da Europa é agora fatal. Nos anos pós-guerra fria, as lideranças do velho continente foram pouco visionárias e não protegeram devidamente a ideia de mercado e de democracia que esteve na fundação desta fantástica ideia. Os populismos autoritários tomam agora o poder em vários países. Trump e Putin influenciam diretamente eleições na Europa para a seguir decidirem que tipo de democracia deixarão prosperar e a quem cada estado irá prestar vassalagem.

O momento é delicado, mas há muitas alternativas a uma capitulação sugerida pela aceitação do atual caminho. Como sempre na História, depende dos povos a defesa dos seus princípios e das suas conquistas. Basta pensar, não votar em quem vai matar a democracia e ter a coragem de lutar pelos valores em que acreditamos, antes que seja tarde demais.