A Procissão do Corpo de Deus em Lisboa deste ano foi diferente. Pela primeira vez desde o reino de Dom João I no século XIV, o seu trajeto foi alterado: a Praça do Martim Moniz foi excluída. O que durante séculos era considerado um percurso solene, presidido pelo Patriarca de Lisboa e acompanhado por sacerdotes e fiéis de várias paróquias, deixou de o ser. A mais antiga celebração cristã de Portugal deixou de honrar a Praça dedicada ao lendário cavaleiro cristão que se sacrificou pela conquista de Lisboa aos Mouros. Assim, o lugar que homenageia um acontecimento decisivo para que esta Procissão se pudesse realizar foi excluído do seu percurso santo. Porém, a Procissão do Corpo de Deus passou pela Rua do Arsenal, associada ao Regicídio e à implementação da anticlerical Primeira República – acontecimentos pouco cristãos.
O Patriarcado de Lisboa justificou esta mudança de trajeto com o argumento de que se estaria a oferecer a outras zonas de Lisboa a possibilidade de beneficiar deste momento de fé. É uma boa explicação: alargar uma experiência religiosa. Porém, colide com a defesa da inclusão tão propalada pela Igreja. Há lugar para todos, menos para o Martim Moniz? O que terá feito a Praça do Martim do Moniz para ter sido, cruelmente, excluída da graça de Deus? Ou, reformulando a pergunta, por que motivo a Igreja se excluiu da Praça do Martim Moniz – a zona mais multicultural de Lisboa.
Por isso, muito boa gente, cristã e ateia, mesmo sabendo que a Igreja diz sempre a verdade, não ficou convencida com a explicação e interrogou-se sobre esta inusitada mudança de trajeto.
Algo grave e assustador deve estar a acontecer na Praça Martim Moniz.
A primeira explicação foram as vespas asiáticas. A Praça está infestada de ninhos de vespas velutinas e, apesar dos padres disporem de estandartes e pendões para as afastar, e terem alguma experiência em dar traulitada em seminaristas, o Patriarcado de Lisboa considerou que, mesmo assim, centenas de fiéis seriam picados – o que poderia levá-los a perder a fé na proteção divina. De facto, foram avistadas duas vespas asiáticas junto aos jatos de água, um rato a fugir para um buraco, uma centopeia e houve até quem garantisse ter visto um daqueles tubarões voadores do filme Sharkanado.
Mas nada disto poderia intimidar uma instituição religiosa que há dois mil anos enfrenta o próprio Mafarrico e sua legião de diabretes. A Igreja que não fugiu de Roma no Tempo de Diocleciano, Heliogábalo e Nero, foge agora do Martim Moniz. A Igreja dos mártires que prefiram ser supliciados a renegar a fé cristã tem agora medo de entrar na zona mais multicultural de Lisboa, em verdade vos digo.
Só há uma maneira de entender isto. É dando uma nova designação ao Multiculturalismo: zona perigosa para Cristãos, e não só!
Escritor