sexta-feira, 07 ago. 2026

O choque cultural entre Portugal e o Brasil

A principal escolha de outra nacionalidade pelos brasileiros é a americana. Faz sentido. Os americanos olham para os brasileiros com admiração e inveja: gostariam de ter a sua classe política, os seus pastores evangélicos e o domínio das línguas dos brasileiros.

A acreditar no que se lê no Quora e noutras plataformas de discussão mais ou menos credíveis, a maioria dos brasileiros, caso pudesse escolher a nacionalidade, escolheria todas menos a portuguesa. Os brasileiros não simpatizam com Portugal. Portugal é culpado da colonização, do subdesenvolvimento, do analfabetismo, da desflorestação da Amazónia, do Comando Vermelho e da eliminação da selecção brasileira no mundial. É natural que pensem assim após duzentos anos de independência: o tempo é mais lento no Brasil do que na Europa e nos Estados Unidos.

A principal escolha de outra nacionalidade pelos brasileiros é a americana. Faz sentido. Os americanos olham para os brasileiros com admiração e inveja: gostariam de ter a sua classe política, os seus pastores evangélicos e o domínio das línguas dos brasileiros. Além disso, os americanos têm imensas afinidades culturais com os brasileiros. As telenovelas brasileiras são um sucesso permanente nas televisões americanas, estilos musicais como o Pagode, o Samba e o Baile Funk são populares entre a juventude americana, os rodeios do Texas adoptaram o Bumba Meu Boi, escritores como Sérgio Santa’Anna e Guimarães Rosa atingem o top de vendas nas livrarias americanas, Glauber Rocha inspirou Francis Ford Coppola, Hélio Oiticica foi plagiado por Jeff Koons, e as igrejas barrocas americanas são tão semelhantes às igrejas barrocas brasileiras. Já na gastronomia, o que é um hamburger senão uma picanha desconstruída?

Por tudo isto, um americano olha para um brasileiro como uma espécie de irmão tropical com o qual tem imensas afinidades. Os americanos não encaram os brasileiros como encaram os mexicanos e os restantes povos da América Latina: atrasados, selvagens e ignorantes que servem para lhes cortar a relva e limpar a casa. Pelo contrário, o brasileiro é altamente respeitado nos Estados Unidos e o sonho de qualquer americano é obter a nacionalidade brasileira.

No norte da Europa, apesar do General De Gaulle ter, supostamente, dito coisas pouco simpáticas sobre o Brasil, as afinidades culturais são as mesmas. Franceses, alemães e suecos tem a mesma forma de pensar, trabalhar e se divertir que os brasileiros. Um

brasileiro na Suécia, ao lidar com o rigor, as normas e a disciplina nórdica, sente-se em casa. Afinal, que diferença existe entre o salmão fumado e a carne de sol?

Apenas no Japão é que o caso é mais complexo. A cultura japonesa de contenção de emoções, que considera rude falar alto ou ser expansivo em público, que ordena rigorosamente os trajectos dos peões, que estabelece regras e hierarquias para o menor aspecto da vida social choca, de facto, com a cultura brasileira da «bagunça». Porém, os japoneses, quando o vizinho brasileiro ouve música no volume máximo ou lhe enche a casa de fumo do churrasco, não o vê como um bárbaro sem maneiras que urge deportar. Pelo contrário, os japoneses encontram na «bagunça» e falta de regras brasileira um bálsamo redentor para o espartilho social a que a sua cultura os condena. No fundo, o sonho de cada japonês é que as suas empresas sejam geridas como a Petrobrás, ter governantes presos, crianças na rua, poder conduzir o seu Toyota como no Nordeste do Brasil e, de vez em quando, exterminar índios.

Por isso, só mesmo em Portugal, onde a língua é a mesma, a religião é a mesma, as igrejas barrocas e os fortes coloniais são idênticos, a gastronomia é apreciada mutuamente, as novelas continuam a ser um sucesso, o futebol uma insanidade comum, se publica Sérgio Sant’Anna, Guimarães Rosa, Jorge Amado e outros, onde se estuda e valoriza Óscar Niemeyer e Lúcio Costa, onde há ciclos dedicados ao Cinema Novo brasileiro, onde há rádios com locutores brasileiros, onde se ouve mais música brasileira do que portuguesa, onde se imita o Carnaval do Rio de Janeiro, onde proliferam igrejas evangélicas, onde até figuras como Eliane Brum tem direito a insultar os portugueses no principal museu nacional, os brasileiros, pois claro, não encontram afinidades culturais.