quarta-feira, 15 abr. 2026

Molaflex, um colchão fascista

Os portugueses tomaram o gosto ao conforto burguês desses colchões e nunca mais quiseram fuzilar fascistas. Eu próprio, durante a adolescência, dormi como um anjinho num Molaflex e vejam só o lindo resultado.

No livro No Terramoto de 1975, o autor Tomás Moreira conta a história da prisão do pai, o empresário Ruy Moreira, fundador dos colchões Molaflex, depois do 25 de Abril. Detido durante oito meses sem direito a apoio jurídico ou assistência médica, e com ameaças de fuzilamento, o caso de Ruy Moreira parece demonstrar que a verdadeira Liberdade só foi instituída depois do 25 de Novembro Portugal. Afinal, houve centenas de outros presos políticos, sem acusação nem julgamento, a maioria dos quais eram apenas culpados de ser bem-sucedidos na vida.

Porém, a prisão de Ruy Moreira pode ser facilmente explicada: os colchões Molaflex constituíam uma das mais graves ameaças ao PREC. Num país habituado a dormir em colchões de palha e crina de cavalo, o aparecimento de um novo colchão que proporcionava conforto, a coluna alinhada e uma melhoria da circulação era contra-revolucionário. Ou seja, os colchões Molaflex ao garantirem boas noites de sono e saúde estavam, propositadamente, a sabotar a Revolução. Como poderia o povo, depois dessas noites tranquilas, desses sonos reparadores, dessa nova experiência de bem-estar, vir para as ruas furioso e exigir o fuzilamento de fascistas no Campo Pequeno?

Impossível!

Só como noites mal dormidas, dores nas costas e alguns percevejos é que o povo podia acordar com o estado de espírito adequado à caça de fascistas, destruição de empresas privadas e reforma agrária. Só assim se podia concluir o rumo ao Socialismo, ou a uma guerra civil. Acaso grandes revolucionários como Fidel Castro e Che Guevara foram para a Serra Maestra como bons colchões às costas? E a Rússia não continua até hoje a ser o pior fabricante de colchões do mundo? Já os colchões americanos, enormes e hiper- confortáveis, materializam o capitalismo selvagem.

Foi por isso que o empresário Ruy Moreira concebeu o plano sinistro chamado Molaflex. Criada em 1951, a Molaflex funcionou como uma célula adormecida pronta a ser ativada quando necessário, porque Moreira sabia que a Revolução acabaria por chegar. E foi então, durante o Verão Quente de 75, que a célula Molaflex acordou e começou a produzir os melhores colchões jamais experimentados pelos portugueses. Foi o início da Contra-Revolução.

Obviamente que não havia outro recurso senão prendê-lo e impedir a produção dos seus colchões. Os deuses do Copcon tinham de castigar a hubris capitalista de Moreira.

Infelizmente, as forças da Reação venceram, Ruy Moreira foi libertado, e a Molaflex acabou de vez com a Revolução. Os portugueses tomaram o gosto ao conforto burguês desses colchões e nunca mais quiseram fuzilar fascistas. Eu próprio, durante a adolescência, dormi como um anjinho num Molaflex e vejam só o lindo resultado.

 

Escritor