Que relação poderá haver entre um homem que viveu no século I e outro que vive no século XXI? São ambos teólogos e, onde o mais antigo falhou, o mais novo está a ser bem-sucedido.
Marcião de Sinope era filho de um homem rico, o que lhe permitiu dedicar-se ao estudo dos textos do Cristianismo. Após muita reflexão, Marcião concluiu o que, neste século, é uma evidência para muitos: o Deus do Antigo Testamento e o Deus do Novo Testamento são duas entidades distintas. Nada os une, tudo os separa. O primeiro é vingativo; o segundo, encarnado em Jesus, é misericordioso. Marcião tinha encontrado a sua estrada de Damasco e sido igualmente fulminado por tal revelação. Apressou-se a tentar convencer os bispos de Roma a separarem os dois Testamentos, com um suborno para suprir eventuais falhas de argumentação, mas falhou. A Igreja aceitou a massa, mas recusou separar-se das origens judaicas.
Séculos depois, o teólogo do Socialismo Ibérico, Pedro Sánchez, quis também efetuar uma separação: o Grande Cisma das Esquerdas Mundiais.
Para tal, realizou em Barcelona a Global Progressive Mobilization – um concílio contra a Direita fascista e o seu discurso do ódio que impede os homens de engravidarem, questiona o direito do Islão de oprimir as mulheres e destrói o planeta. Recuperando o grito No passarán!, Sánchez mostrou que a Guerra Civil de Espanha está de volta e se espalhou pelo mundo. Os Nacionalistas continuam a ser todos os partidos de Direita que gozam do apoio do Eixo Estados Unidos/Israel. Já os Republicanos continuam a ser todos o que não são de Direita, desde os herdeiros da ETA aos herdeiros da União Soviética. Infelizmente, não havendo já a URSS, e tendo a Venezuela sido impedida de financiar estes Republicanos, só lhes restam países progressistas como o Irão e a China.
E, assim, Sánchez conseguiu esse Grande Cisma das Esquerdas Mundiais. De um lado, está a verdadeira Esquerda: a dele, de Lula e do Terceiro Mundo. Do outro, a Esquerda herética que começa a questionar a emigração, a defender a identidade europeia e, mais grave ainda, considera que Sánchez é um traste e uma ameaça à Democracia. Estes heréticos são o SPD alemão, o Partido Trabalhista inglês, o PvdA holandês, o Partido Trabalhista Norueguês, a ex-primeira-ministra da Dinamarca Mette Frederiksen, a Esquerda canadiana e australiana. A Esquerda ocidental, onde os seus dirigentes não são suspeitos de corrupção, nem se aliam a terroristas, nem pretendem destruir o modelo europeu, tem horror a Sanchez.
No meio deste Cisma, ainda que o tenham posto num cantinho para não atrapalhar os graúdos, há outro homem que parece também ter encontrado a sua estrada de Damasco desde que foi à Venezuela louvar a ditadura pós-Maduro: José Luís Carneiro.
Escritor