sexta-feira, 15 mai. 2026

João Alves Cerqueira, o fascista que escapou à prisão

Tinha apenas o 5.º ano do liceu, não era culto e nunca foi mais longe do que Espanha. Recusou todos os convites para entrar na política. Tinha um fraco por boa comida, bons vinhos e mulheres bonitas.

A publicação do livro No Terramoto de 1975, de Tomás Moreira, pôs a nu graves injustiças cometidas depois do 25 de Abril. A mais grave foi não terem prendido todos os fascistas. Um dos que escapou foi o meu avô, João Alves Cerqueira – já tinha morrido, mas isso é irrelevante. 

Nasceu em 1886, em Viana do Castelo, tão pobre que os pais o entregaram a uns tios para o criar. Estes, iniciaram-no no negócio do sal e figos. Aos 15 anos começa a trabalhar e, rapidamente, torna-se o maior empresário de Viana. Em 1925, começa a exportar madeiras para a Inglaterra, a Alemanha e a Espanha. Em 1932 é convidado para administrar a Empresa de Pesca de Viana, em risco de fechar por um dos seus dois veleiros ter naufragado. Numa Assembleia Geral dramática, consegue não apenas convencer os accionistas a não encerrar a empresa, como ainda a investir nos novos navios de aço.  

Como seria de esperar, quem equipou as camas dos navios de pesca foi a Molaflex.

O desenvolvimento da Empresa de Pesca leva-o a assumir mais um risco. Construir um estaleiro naval em Viana que, além de reduzir os custos de novos barcos, impulsionaria o desenvolvimento da cidade. No entanto, para um projecto desta dimensão, no qual investirá todo o seu património e bens pessoais, necessitava de sócios. É então que se associa ao seu amigo de Lisboa, o empresário Vasco D’Orey. E assim nasceram em 1944 os Estaleiros Navais de Viana do Castelo – ENVC.

Além de empresário, João Alves Cerqueira foi também um humanista. A riqueza e o poder nunca o fizeram esquecer os desfavorecidos. Na Seca do bacalhau criou uma creche para as trabalhadoras não abandonarem os filhos – algo revolucionário na época. No Natal, distribuía bacalhau pelas famílias necessitadas, pois não concebia que nenhum vianense fosse privado desse prato na Consoada. E quem tinha dificuldades financeiras ia falar com ele – não com as autoridades ou com a Igreja – porque toda a gente sabia que o Cerqueira ajudava os pobres. Um episódio singular mostra essa defesa dos fracos: vendo no cais um marinheiro holandês a chicotear os estivadores portugueses, correu para o local e desancou o agressor com um tronco de madeira – por pouco, não o matou.

Entre as instituições de solidariedade social que apoiou contam-se o Asilo da Infância Desvalida, a Santa Casa da Misericórdia, o Orfanato, e a Sopa dos Pobres. Apoiou também os Bombeiros, a Cruz Vermelha e o Sport Clube Vianense, do qual era um adepto fanático. Foi graças aos seus donativos, e ao pagamento dos salários dos operários, que se finaliza a construção do Templo de Santa Luzia.

Tinha apenas o 5.º ano do liceu, não era culto e nunca foi mais longe do que Espanha. Recusou todos os convites para entrar na política. Tinha um fraco por boa comida, bons vinhos e mulheres bonitas.

Logicamente, depois do 25 de Abril foi desmascarado como um perigoso fascista.

Escritor