quarta-feira, 09 set. 2026

Cadeia para Jorge Bravo

Os pobres vão ficar ainda mais pobres e a classe média vai ficar pobre. Porém, ainda que estas conclusões sejam verdadeiras, não há direito de assustar os portugueses.

Jorge Bravo, o autor do estudo Reformar as Pensões em Portugal: Por um Sistema Sustentável, Adequado e Justo – um Contrato entre Gerações merece ir para a cadeia. Porque cometeu um crime inadmissível: assustou os portugueses! Se assustar os cavalos já é mau, assustar os portugueses é imperdoável. Os portugueses aceitam que lhes mintam, que os enganem, que os roubem. Aceitam praticamente todas as patifarias, menos serem assustados.

É certo que Jorge Bravo não disse nenhuma mentira e até demonstrou as conclusões do seu estudo. Há realmente um buraco de dois mil milhões de Euros no sistema de pensões e os futuros pensionistas irão receber cada vez menos em relação ao último salário auferido. Dito de outra forma, o sistema está falido e os pensionistas vão ter uma vida miserável. Os pobres vão ficar ainda mais pobres e a classe média vai ficar pobre. Porém, ainda que estas conclusões sejam verdadeiras, não há direito de assustar os portugueses.

Afinal, a desgraça só vai acontecer num futuro mais ou menos previsível e, até lá, enquanto caminhamos para o abismo, podemos continuar cantando e rindo. A morte também é inevitável, mas só um louco é que deixa de gozar a vida por causa disso.

Entretanto, houve quem se assustasse ainda mais do que os portugueses: os políticos. Os políticos também são portugueses (por enquanto), também podem sofrer cortes nas suas duplas e triplas reformas, mas têm algo a ver com esta situação. Na verdade, foram eles que a criaram. Quer por acção, que por omissão.

Por isso, os políticos entraram em pânico.

O Governo que encomendou o estudo deitou-o logo ao lixo; os partidos da oposição denunciaram que se iria privatizar as pensões; e Sua Excelência o Presidente da República declarou que as reformas são sagradas – o que sintetiza todas estas posições.

Ora tendo o debate sobre as pensões sido elevado para a esfera metafísica, onde não existem números, nem contas, nem défices, nem pobreza, nem nenhuma das desgraças que irão recair sobre os pensionistas, o problema fica resolvido.

E isto deverá constituir uma lição para os futuros Governos. Esqueçam a economia, as finanças e as contas complicadas, para as quais se viu não terem jeitinho nenhum, e comecem a ser sérios. Sempre que vierem as chatices do défice, da inflação, do crescimento económico e dos puxões de orelhas de Bruxelas, tratem o assunto como estão a tratar as pensões: com um algoritmo metafísico. Isto é sagrado, não se toca, nem se pensa mais no assunto. Os deuses hão-de resolver o problema.

Afinal, temos uma tradição histórica de confiar mais em milagres e intervenções divinas do que em arregaçar as mangas.

Como tal, há que prender Jorge Bravo, queimar o seu estudo e confiar nos nossos políticos. Porque estes, ao atirarem para os domínios metafísicos os nossos problemas, já se assemelham mais a feiticeiros que executam danças da chuva do que representantes do povo. E a chuva, lá para 2050, vai cair torrencialmente levando os pensionistas numa enxurrada de miséria.