segunda-feira, 17 ago. 2026

A revolução, o topless e o patriarcado

As alemãs estavam convencidas de que a Revolução mundial destinada a substituir o Capitalismo pelo Socialismo incluía no pacote a libertação da mulher. E vai daí que as Guevaras alemãs, sob o sol inclemente do deserto, procederam como se estivessem em Ibiza: umas fizeram topless, outras puseram-se nuas.

Num Verão quente de 1970, um grupo de terroristas alemães inspirados em Che Guevara viajou para um campo de treino da Frente Popular de Libertação da Palestina na Jordânia. Os seus líderes eram Ulrike Meinhof, Gudrun Ensslin e Andreas Baader. O objetivo desta estadia era criar um novo Vietname na Alemanha para derrubar o Capitalismo, o Imperialismo e o Sionismo.

Infelizmente, os aprendizes de Che Guevara não se deram bem com os árabes. Se Andreas Baader ignorava as ordens, Ulrike, Gudrun e outras moças germânicas colidiram com o patriarcado árabe. As alemãs estavam convencidas de que a Revolução mundial destinada a substituir o Capitalismo pelo Socialismo incluía no pacote a libertação da mulher. E vai daí que as Guevaras alemãs, sob o sol inclemente do deserto, procederam como se estivessem em Ibiza: umas fizeram topless, outras puseram-se nuas.

Os árabes ficaram estupefactos, e divididos. Por um lado, aquela nudez era um atentado aos valores islâmicos e à sua cultura patriarcal; por outro, aquele espetáculo de mamocas e rabos ao léu quase os convencia da superioridade da civilização ocidental. Alguns terroristas mais novos pensaram que umas aventuras com aquelas doidinhas não comprometeriam a destruição do estado de Israel. Ou não? Não! - disseram os comandantes mais velhos. Se vão para a cama com estas, depois também querem ir com as judias e sabe-se lá onde é que isto vai parar. Após muita deliberação, decidiram telefonar a Arafat. Arafat começou a suar, esteve em silêncio alguns segundos, lembrou-se da Playboy que guardava debaixo da cama, mas acabou por dar razão aos comandantes. Era preciso pôr cobro a semelhante pouca vergonha.

As alemãs sentiram-se traídas e começaram a suspeitar que o tal Vietname que pretendiam desencadear na Alemanha não passava pelo Médio Oriente. Que pena não haver campos de terroristas em Ibiza, Benidorm ou no Algarve. Por isso, não tiveram dificuldade em convencer Andreas Baader - que também já estava farto daquilo - a regressarem à Alemanha.

Formam então o RAF e começam a assaltar bancos, a explodir bombas e a matar polícias, empresários, juízes, soldados americanos e quem calhasse. A guerrilha urbana estava a correr bem, mas havia um problema. Não podiam fazer atentados todos os dias. Logo, como ocupar o tempo? E como ler mais de duas vezes manifestos comunistas e manuais de guerrilha fazia-lhes dores de cabeça, voltaram a discutir a libertação da mulher.

Porém, uma vez mais houve divergência sobre como interpretar essa libertação revolucionária. Alguns camaradas alemães pareciam ter uma mentalidade muito próxima da dos árabes - queriam proibir o sexo oral. Enquanto outros pareciam estarem-se a aproveitar da Revolução para fins lúbricos - queriam orgias.

E foi assim que o patriarcado revolucionário tramou as mulheres no mundo inteiro. Só em Portugal, graças à dra. Isabel do Carmo, nenhuma mulher teve de optar entre fazer topless no Algarve e colocar bombas.

Escritor