Depois do Afeganistão, da Venezuela e de alguns países africanos, qual é o país que se segue na hierarquia do fracasso mundial? O Brasil, claro. O maior e mais rico país em recursos naturais da América do Sul deu errado, está errado e, provavelmente, irá continuar errado. Para os intelectuais nativos, numa linha que começa com Sérgio Buarque de Holanda, atravessa o século XX, entra no século XXI com Eliane Brum, e continua em direcção ao aterro do Gramacho, a culpa é dos portugueses.
Se tivessem sido colonizados pelos ingleses, seriam uns Estados Unidos com uma Estátua da Liberdade em vez do Cristo-Rei – ou talvez uma Jamaica. Colonizados pelos ingleses, teriam sido os primeiros a chegar à Lua – ou talvez fossem como a Guiana.
Porém, contra estes argumentos intelectuais de Tristes Trópicos não é necessário recordar o princípio básico da psicologia de que culpar os outros é uma fuga às nossas responsabilidades. Ou lembrar o sentido do ridículo. Basta algo mais simples: a Mousse de Chocolate.
Sendo o Brasil um dos maiores produtores mundiais de cacau, com Ilhéus a ser projectado para a literatura e a televisão através das obras de Jorge Amado, não é de estranhar que este país nunca tenha sido capaz de produzir um chocolate de jeito, um gelado de chocolate aceitável e, pior ainda, confeccionar uma Mousse de Chocolate? A Bélgica, a Suíça e Inglaterra trataram de fazer os melhores chocolates do mundo, a Itália e a França transformaram os gelados de chocolate em arte, mas, quanto à Mousse, ninguém bate Portugal – tendo ainda algumas marcas de chocolate razoáveis e gelatarias decentes.
Como se demonstrou, o Brasil não sabe aproveitar um dos seus melhores recursos naturais – ou, se calhar, todos -, limitando a exportá-lo para que outros deles tirem o devido partido. Infelizmente para os brasileiros, nunca surgiu um François Quesnay que lhes explicasse a importância do Fisiocratismo do cacau: laissez-faire, laissez-passer a Mousse de Chocolate.
Porém, deve ser referido que o Terceiro Mundo tem um problema estrutural com as sobremesas, o que poderá ser explicado como uma forma de resistência ao invasor europeu. Por exemplo, em nenhuma biblioteca do Brasil se encontram as receitas de doçaria de Maria de Lurdes Modesto.
Seja como for, as questões do colonialismo, da culpa e da falta de vergonha podem ser analisadas dentro de uma tigela de Mousse de Chocolate.
Assim como o Japão copiou, e depois superou, a tecnologia americana após ter estado sob seu domínio, também o Brasil deveria fazer o mesmo com a Mousse de Chocolate portuguesa. Como se têm visto, enviar os filhos das elites brasileiras para as melhores universidades americanas não têm dado grande resultado. Portanto, a solução será enviá-los para escolas de cozinha portuguesas para aprenderem a rentabilizar um dos seus recursos naturais mais valiosos. E assim, devidamente instruída na produção do valor acrescentado da Mousse de Chocolate, a elite brasileira poderá regressar ao seu país para aplicar este know-how culinário a todos os recursos do país, à gestão do dinheiro público e às relações internacionais do Brasil.
Vai demorar alguns anos, mas, tal como Portugal conseguiu colocar um satélite em órbita, um dia o Brasil conseguirá confeccionar uma boa Mousse de Chocolate.