A fenomenologia da percepção de Luís Neves

Mesmo que três ou quatro cadáveres ficassem estendidos no passeio e o seu sangue lhe salpicasse os sapatos, que nada de extraordinário se tinha passado naquele local e que as opiniões das restantes testemunhas daquela fuzilaria não passavam de percepções desfasadas da realidade.

Qualquer pessoa que tenha estudado numa faculdade de Artes e Humanidades foi confrontada com o livro A Fenomenologia da Percepção de Maurice Merleau-Ponty. No meu tempo, ninguém percebia patavina daquilo – a começar pelos professores -, ficava-se com uma vaga ideia da importância do corpo na percepção e no entendimento do mundo, uma dor de cabeça interminável e a suspeita de que poderíamos estar a ser enganados. No entanto, bastava citar o livro para nos revestirmos de uma aura de intelectualidade pura – uma espécie de Pachecos que sabiam tudo.

O que ninguém pode negar é que as ideias de Merleau-Ponty influenciaram a Estética, a Psicologia, a Sociologia e, agora, a política portuguesa. Temas como a insegurança, a emigração e as minorias étnicas passaram a ser analisados segundo a Fenomenologia da Percepção. Ou, à moda portuguesa, passaram a ser analisados apenas como percepções – e não como realidades. O maior entendido em Merleau-Ponty, a mente que melhor percepciona as percepções, é o Ministro da Administração Interna Luís Neves – quiçá devido aos seus óculos peculiares.

Para onde quer que olhe, Luís Neves só vê percepções. Os restantes leigos podem estar a assistir a um tiroteio, sentir as balas rasarem-lhes as orelhas e, logicamente, concluir que estão perante um episódio de violência, mas o Ministro, caso lá estivesse também, percepcionaria apenas uma percepção de um tiroteio. O que o levaria a concluir, mesmo que três ou quatro cadáveres ficassem estendidos no passeio e o seu sangue lhe salpicasse os sapatos, que nada de extraordinário se tinha passado naquele local e que as opiniões das restantes testemunhas daquela fuzilaria não passavam de percepções desfasadas da realidade.

E assim, as vítimas de assaltos e agressões, os idosos que têm medo de sair de casa por causa dos toxicodependentes, as mulheres que não se sentem seguras em certas zonas de Lisboa, os alunos que receiam ir para escola por causa do Bullying, os donos de bares que são extorquidos, todos eles têm em comum o seguinte: nunca leram a Fenomenologia da Percepção de Merlau-Ponty.

Contudo, estas supostas vítimas e cidadãos amedrontados estão cheios de sorte porque, além de Luís Neves, aparecem na televisão diariamente outros especialistas em Merlau-Ponty que lhe explicam estarem enganados, que os libertam das trevas do pavor e lhes revelam a luz das percepções. Como tal, iluminado o entendimento das pessoas sobre facas, pistolas, murros e violações, acaba-se o medo, finda-se a insegurança, e inicia-se uma nova existência, um born again operado pelo Espírito Santo das percepções.

Só não convém que o próprio especialista em percepções seja ameaçado, esfaqueado ou baleado. Porque, caso tal desgraça lhe suceda, o encanto da percepção poder-se-á quebrar, Merleau-Ponty dará uma série de cambalhotas até voltar ao seu o ponto inicial, e o malfadado especialista poderá chegar à seguinte conclusão: quanto a percepções, é melhor deixar o assunto com o filósofo francês.