terça-feira, 21 jul. 2026

Nasceu o Amália – Um instrumento digital de resiliência cognitiva democrática em tempos de guerra híbrida

Porque defender a mente democrática começa por recusar pensar como as autocracias.

Nasceu o Amália, o primeiro grande modelo de linguagem em português ‘de Portugal’.

Este instrumento digital é estratégico para a Nação, e representa uma afirmação soberana da língua, da cultura e dos dados que diariamente circulam, alimentam raciocínios e decisões de milhões de portugueses. É também o reconhecimento pragmático das novas realidades da guerra híbrida em curso no mundo digital multipolar, onde existem atores, estatais e privados, com estratégias sistemáticas que procuram moldar o pensamento coletivo dos povos.

Em Portugal reconhecemos estas dinâmicas pelas palavras, ‘propaganda, desinformação, ou guerra da informação’, mas estes conceitos operam na dimensão da informação e da influência, quando o que está a ser afetado é a nossa capacidade cognitiva.

A guerra cognitiva não visa apenas o que pensamos, mas como pensamos, confiamos e decidimos.

É uma guerra que manipula e fragmenta a nossa perceção da realidade, explora os nossos medos, raiva e indignação. Corrói a nossa confiança nas instituições, uns nos outros, e em nós próprios, para induzir a paralisia na capacidade de decisão das pessoas, das organizações, e dos Estados-alvo.

Esta realidade tem vindo a ser estudada por investigadores civis e militares, e a NATO tem produzido relatórios aprofundados, em que é reconhecido que a perceção pública se transformou num centro de gravidade estratégico.

E eis que é revelado o dilema: como pode uma sociedade democrática proteger-se e dissuadir, sem para isso comprometer os direitos, liberdades e garantias que a caracterizam?

Como demonstram com rigor Luís Vaz e o tenente-coronel Pedro Ferreira, do Centro de Investigação da Academia Militar, num contributo notável publicado este ano no Bulletin da Universidade de Defesa Nacional Carol I, este campo vive de dois paradoxos. O da abertura: as condições que sustentam a democracia são também as suas vulnerabilidades. E o da dissuasão: a nossa prudência em escalar convida o adversário a operar permanentemente abaixo do limiar de resposta habitualmente reconhecidos aos países democráticos.

A resposta pode estar na proteção e reforço dos elementos que nos permitem criar uma imagem mental comum do que é o povo português, como a nossa língua, memória, cultura e nos princípios civilizacionais tão bem codificados na Convenção Europeia dos Direitos humanos, e na nossa própria Constituição da República Portuguesa.

Daí a importância estratégica do Amália como modelo soberano, para preservar o modo como vemos e escrevemos sobre o mundo, e o rigor histórico e científico com que as novas gerações de portugueses vão aprender.

Sem o Amália, o léxico e as referências das empresas e entidades públicas, dos média e das escolas continuariam a depender de modelos treinados noutras línguas, com outras memórias.

É um bom passo, mas precisa de ser enquadrado num contexto coerente de políticas públicas, e de produção científica de conceitos não militares, como por exemplo o de resiliência cognitiva democrática, para deixarmos de pensar utilizando o vocabulário de quem nos ataca.

Porque defender a mente democrática começa por recusar pensar como as autocracias — e por reconhecer que a nossa língua, a nossa memória e os nossos valores são, também eles, infraestrutura crítica.

Observatório de Segurança e Defesa da SEDES