«Estou sempre ao seu serviço». Esta frase, proferida pelo ministro húngaro dos Negócios Estrangeiros, Péter Szijjártó, numa chamada telefónica com o seu homólogo russo Sergei Lavrov – alegadamente interceptada e ocorrida a 30 de agosto de 2024, com uma segunda chamada registada a 30 de junho de 2025 – não é, em primeiro lugar, uma prova da fraqueza da União Europeia.
É uma prova sim, de que a Rússia encontrou uma forma de abusar da regra da unanimidade da União Europeia, criada para proteger os interesses soberanos dos Estados Europeus, para comprometer a capacidade desses estados promoverem as decisões necessárias à defesa da sua soberania, face à ameaça russa.
As chamadas interceptadas entre Szijjártó e Lavrov têm impactos multidimensionais que vão muito para além do escândalo diplomático, porque evidenciam que o Governo húngaro tem funcionado, de forma sistemática, como extensão dos interesses russos no interior das instituições europeias.
A interferência operacional do Governo húngaro a favor da Rússia foi bastante eficaz neste caso, uma vez que conseguiram retirar 72 das 128 entidades que estavam propostas para um pacote de sanções da UE à Rússia.
Este caso vem reforçar a tese que desenvolvi no meu livro Nação Valente – Decisões Soberanas para Portugal: a União Europeia não deve ser entendida, no plano geopolítico atual, como um ator autónomo e coeso, mas como um tabuleiro onde as três superpotências – Estados Unidos, China e Rússia – exercem permanente pressão, influência e coação sobre os Estados-Membros individualmente. Quando um desses Estados é capturado por uma potência hostil, o tabuleiro deixa de ser neutro e passa a ser um vetor de influência dessa potência.
O que este caso também revela é uma vulnerabilidade profunda nos processos de decisão europeus: a UE não dispõe de mecanismos institucionais para detetar, sinalizar ou agir sobre comportamentos de captura em tempo útil, pois esta situação ocorre pelo menos desde 2024, sem que nada tenha sido feito até agora.
A única razão pela qual sabemos o que Szijjártó disse a Lavrov é porque alguém, externo à UE, interceptou essas chamadas, e decidiu divulgá-las. Isso é inaceitável num mundo multipolar onde as ameaças à segurança europeia operam precisamente através das vulnerabilidades institucionais que a EU hesita em resolver.
Prevenir ameaças deste tipo exige também a construção de uma arquitetura de intelligence partilhada, capaz de sinalizar e isolar comportamentos de captura por potências hostis antes que esses comportamentos se traduzam em decisões bloqueadas, sanções esvaziadas ou deliberações do Conselho Europeu condicionadas por Moscovo, quase sem tempo real.
As instituições europeias – e os Estados-Membros como Portugal – devem reconhecer que, no ambiente geopolítico atual, a guerra pelo controlo das decisões democráticas europeias não se trava apenas com desinformação ou campanhas de influência digital. Trava-se também com a manutenção deliberada no poder de governos capturados, que usam os instrumentos legítimos da democracia e do direito europeu para servir interesses externos.
E agora? O que fazer?
A resposta europeia deverá ter em conta o resultado das eleições legislativas húngaras de 12 de abril.Se a oposição democrática a Viktor Orbán vencer, as instituições europeias devem mobilizar-se rapidamente para apoiar reforçar as instituições do Estado de Direito na Hungria e permitir que as novas autoridades apurem as eventuais responsabilidades dos atores envolvidos na colaboração com Moscovo.
Se Orbán obtiver um novo mandato, a resposta deve ser mais estrutural. A União Europeia deverá avaliar seriamente a eliminação da regra da unanimidade nas decisões de política externa, segurança e defesa, e criar mecanismos de controlo operacional nas reuniões do Conselho Europeu que impeçam a transmissão das suas deliberações a potências hostis. Também é urgente desenvolver uma capacidade partilhada de intelligence que apoie as instituições europeias na prevenção e deteção atempada destas ameaças. Reconheço a magnitude das mudanças que estou a sugerir, mas também tenho a consciência de que, como dizia Jean Monnet, um dos arquitetos da integração europeia, «A Europa far-se-á nas crises, e será a soma das soluções dadas a essas crises».
A pergunta que fica sem resposta – e que o Conselho Europeu deve responder – é o que irá fazer relativamente às 72 entidades que a Hungria, alegadamente a pedido da Rússia, conseguiu excluir do pacote de sanções.
A Hungria de Orbán mostrou que um Estado-Membro capturado pode paralisar a Europa por dentro. A Europa precisa de aprender esta lição – antes que outros Estados sejam o próximo instrumento.
Observatório de Segurança e Defesa da SEDES