Vivemos num mundo de contradições. Nunca produzimos tantos alimentos e, ao mesmo tempo, nunca fomos tão confrontados com o desperdício, a escassez de recursos naturais e a acumulação de resíduos. Produzimos mais, consumimos mais, deitamos mais fora e continuamos a chamar “resíduo” a tudo aquilo que já não sabemos, ou não queremos, aproveitar.
Talvez esteja na altura de mudar a pergunta. Em vez de nos perguntarmos como eliminar aquilo que sobra, porque não começarmos por perguntar quanto valor ainda existe naquilo que estamos a deitar fora? É uma mudança de perspetiva simples, mas com consequências importantes. Pensemos na agricultura e na indústria agroalimentar em Portugal. O vinho, o azeite, a fruta e os produtos hortícolas são sectores fundamentais da nossa economia e da nossa identidade, e geram grandes quantidades de cascas, sementes, folhas, polpas, bagaços e outros subprodutos. Durante demasiado tempo, olhámos para eles sobretudo como um problema a eliminar. Hoje, sabemos que muitos deles contêm fibras, proteínas, lípidos, vitaminas e compostos fenólicos com propriedades que podem ter interesse alimentar, cosmético ou farmacêutico.
O que parece ser o fim de uma cadeia produtiva pode, afinal, ser o princípio de outra. É aqui que entra a economia circular: aproveitar melhor aquilo que já produzimos, prolongar o valor dos recursos e reduzir a necessidade de extrair constantemente novas matérias-primas. E é também aqui que a ciência pode fazer a diferença.
Entre as tecnologias que podem contribuir para este processo estão as radiações ionizantes. A expressão, admitamos, não é particularmente simpática. “Radiação” continua a ser uma palavra que desperta receios e que é frequentemente associada à energia nuclear, à radioatividade e aos riscos que lhes estão associados. Mas a ciência raramente cabe nas nossas primeiras impressões. A radiação ionizante, como a radiação gama ou feixe de eletrões, é utilizada de forma controlada em diferentes áreas, incluindo a alimentar e a agroindustrial. Organizações internacionais como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) têm promovido a utilização segura destas tecnologias por diferentes países em áreas como a segurança alimentar, a agricultura e a utilização eficiente dos recursos.
No caso dos resíduos agroalimentares, o interesse pode estar precisamente naquilo que a radiação consegue fazer à matéria. Para além de poder contribuir para a redução da carga microbiana, pode provocar alterações na estrutura da matriz que facilitam a libertação e a recuperação de determinados compostos de interesse, que tornam os processos de extração mais eficientes.
A investigação que tem vindo a ser desenvolvida no Centro de Ciências e Tecnologias Nucleares (C2TN) do Instituto Superior Técnico tem explorado, por exemplo, o tratamento por radiação gama de bagaço de azeitona. Os extratos obtidos apresentaram propriedades bioativas melhoradas, nomeadamente antioxidantes, antibacterianas, anti-inflamatórias e antidiabéticas e foram estudados para potenciais aplicações como conservantes alimentares. O exemplo é interessante porque mostra como diferentes áreas do conhecimento podem cruzar-se para resolver um problema concreto. E convém não cair na tentação de transformar a ciência numa sucessão de promessas. A implementação deste tipo de
tecnologias não é simples. Exige investimento financeiro, infraestruturas adequadas, formação técnica especializada, controlo rigoroso dos processos e, sobretudo, uma avaliação séria da segurança e da viabilidade económica. Nem todos os resíduos têm a mesma composição, estão disponíveis nas mesmas quantidades ou podem ser destinados às mesmas aplicações.
Há ainda uma questão que não pode ser ignorada: a opinião pública. Podemos desenvolver as melhores tecnologias do mundo, mas dificilmente serão aceites se não forem compreendidas. A palavra “radiação” continua a gerar muita desconfiança e medo, muitas vezes alimentados pelo desconhecimento. É crucial que se continue a comunicar ciência de forma clara e próxima das pessoas, explicando não só o que é a radiação, mas também os riscos e benefícios da sua utilização para a sociedade e para o meio ambiente.
A valorização dos resíduos pode significar menos desperdício e menor pressão sobre os recursos naturais. Por outro lado, pode também significar novos produtos, novas oportunidades de negócio, maior competitividade das empresas e uma aproximação mais estreita entre a ciência e a indústria.
No fundo, a questão é muito maior do que a radiação. É sobre a forma como olhamos para os recursos que temos. Durante décadas, construímos um modelo económico baseado numa lógica simples: extrair, produzir, consumir e deitar fora. Hoje sabemos que este modelo tem limites. A sustentabilidade exige que passemos de uma economia do descarte para uma economia da valorização, o que nos obriga a olhar para aquilo que sobra com outros olhos. Aquilo que hoje é um resíduo, amanhã poderá ser um ingrediente alimentar, um conservante natural, um componente de uma embalagem biodegradável, uma matéria-prima para produção de cosmética ou um composto com potencial farmacêutico. A ciência pode ajudar-nos a fazer essa transformação. As tecnologias de radiação ionizante são apenas uma das ferramentas disponíveis, mas são um bom exemplo de como tecnologias que muitas vezes associamos a riscos e a problemas podem, quando utilizadas de forma segura, rigorosa e responsável, fazer parte da resposta aos desafios ambientais do nosso tempo.
Talvez o verdadeiro desafio seja: aprender a deixar de chamar “lixo” ao que ainda tem valor. Porque, num mundo onde os recursos são finitos, desperdiçar já não pode ser a opção mais fácil.
Investigadora no Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa / Centro de Ciências e Tecnologias Nucleares (C2TN)