As doenças infeciosas emergentes, a resistência aos antimicrobianos, a segurança alimentar, as alterações climáticas e a necessidade de modelos económicos mais sustentáveis dependem, em grande medida, da compreensão do universo microbiano. A microbiologia encontra-se, pois, no epicentro de transformações profundas que afetam diretamente as sociedades contemporâneas. Se a pandemia de Covid-19 demonstrou, de forma inequívoca, o impacto global dos vírus zoonóticos (agentes infeciosos transmitidos entre animais e humanos) e trouxe para o espaço público a discussão sobre conceitos anteriormente restritos à comunidade científica, o atual surto associado ao hantavírus voltou a sublinhar a importância da vigilância epidemiológica e da investigação em zoonoses. Contudo, estes fenómenos constituem apenas uma parte insignificante da extraordinária diversidade microbiana que influencia o equilíbrio do planeta e, portanto, a vida humana.
Entre 4 e 6 de novembro, Lisboa será palco de um dos mais relevantes encontros científicos internacionais dedicados à microbiologia: o Congresso da International Union of Microbiological Societies/União Internacional das Sociedades de Microbiologia (IUMS 2026) (https://iums2026.com/), com coorganização da Sociedade Portuguesa de Microbiologia. Portugal estará no centro do debate científico sobre alguns dos maiores desafios globais da atualidade, da saúde pública à sustentabilidade ambiental, passando pela inovação biotecnológica e a bioeconomia.
O IUMS 2026 refletirá essa visão global da microbiologia contemporânea, promovendo uma abordagem transversal aos diferentes grupos de microrganismos — vírus, bactérias, fungos e parasitas unicelulares — e às suas múltiplas interações com os seres humanos, os animais, as plantas e os ecossistemas, e como fábricas celulares microbianas.
O evento reunirá investigadores, profissionais de saúde e biotecnólogos de todo o mundo. De salientar a participação expressiva da comunidade científica ibérica, bem como da América Latina e de África. A edição anterior do IUMS 2024, realizada em Florença, reuniu mais de 1.400 participantes de 86 países.
Em Lisboa, há já dados que permitem esperar ampliar esse alcance e promover novas redes de colaboração internacional.
Entre os temas centrais do programa científico estarão as pandemias e preparação para futuras crises sanitárias, as interações hospedeiro-agente patogénico, os microbiomas, a resistência a agentes antimicrobianos, as alterações climáticas, a biodiversidade microbiana e o impacto crescente da inteligência artificial e da ciência aberta na investigação biomédica e microbiológica. O congresso dará igualmente destaque à biotecnologia microbiana e à bioeconomia circular, áreas em rápida expansão que utilizam microrganismos para o desenvolvimento de produtos e soluções inovadoras com impacto em setores tão diversos como a saúde, a indústria, a agricultura, a energia e o ambiente. Todos estes são temas que fazem parte da formação dos estudantes do Instituto Superior Técnico nos vários cursos com componente biológica e que são objeto de investigação, nomeadamente no Instituto de Bioengenharia e Biociências (iBB).
Entre os nomes já confirmados, destacam-se dois prémios Nobel recentes: Emmanuelle Charpentier, distinguida em 2020 pelo desenvolvimento da tecnologia CRISPR de edição genética, e Drew Weissman, galardoado em 2023 pelo trabalho pioneiro que esteve na base da criação das vacinas de mRNA. O congresso contaria igualmente com a presença de Craig Venter, uma das figuras mais influentes da biologia moderna, falecido no final de abril. Pioneiro da genómica e protagonista da corrida à sequenciação do genoma humano, Venter abriu caminho à medicina personalizada e à biologia sintética, incluindo o desenvolvimento das primeiras células controladas por genomas artificiais. A sua ausência será profundamente sentida pela comunidade científica internacional, mas o seu legado será celebrado no congresso e continuará a inspirar novas gerações de investigadores.
O programa científico reflete também a vitalidade da ciência portuguesa ao reunir destacados cientistas a trabalhar em Portugal e portugueses da diáspora. O congresso constituirá, assim, uma oportunidade única para projetar o talento nacional e fortalecer colaborações científicas internacionais. A escolha de Lisboa como cidade anfitriã reflete o reconhecimento internacional do dinamismo da comunidade científica portuguesa nesta área, que consolidou a sua capacidade de produzir investigação microbiológica de excelência.
A Sociedade Portuguesa de Microbiologia, parceira estratégica da IUMS para este Congresso, desempenha um papel central na sua organização, em estreita articulação com os seus sócios e a comunidade microbiológica nacional, contando com o apoio da Academia das Ciências de Lisboa.
Sob o tema “Para Além do Microscópio: IA e Inovação em Microbiologia”, o IUMS 2026 procurará mostrar como as novas ferramentas e abordagens interdisciplinares estão a transformar profundamente a microbiologia contemporânea. Num mundo cada vez mais interligado e vulnerável a crises sanitárias, ambientais e alimentares, compreender os microrganismos é essencial para melhorar a nossa capacidade de ação e garantir um futuro global mais seguro e sustentável.
Professora Emérita do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa * Copresidente do IUMS 2026