A primeira volta das eleições presidenciais portuguesas deixou-me seriamente preocupado pelo resultado que produziu. A preocupação central não é ideológica; é estrutural. As duas candidaturas que passaram à segunda volta representam, cada uma à sua maneira, um empobrecimento da política e consequentemente da função presidencial. São um sinal claro de falha do sistema democrático na sua missão essencial: selecionar os melhores.
José António Seguro personifica aquilo que há décadas bloqueia a modernização do Estado português. A sua trajetória é a de uma carreira construída exclusivamente dentro do aparelho partidário, sem obra relevante fora dele, sem experiência profissional autónoma e sem contributo mensurável para a sociedade civil ou para a economia real. Dedicou toda a sua vida adulta ao partido. Cresceu politicamente num sistema fechado, sem qualificações académicas concluídas até aos 40 anos, e consolidou-se através das dinâmicas clássicas dos "jobs for the boys". Não se trata de um juízo moral, mas de um diagnóstico objetivo: a Presidência da República exige densidade intelectual, independência pessoal, autoridade cívica e percurso feito. Seguro é, nesse plano, manifestamente insuficiente. É demasiado pobre em substância e em percurso para a função que pretende exercer.
Do outro lado, André Ventura apresenta um perfil diferente, mas igualmente problemático. Tem uma estrutura académica mais sólida e um discurso mais articulado. Contudo, a sua experiência profissional relevante é limitada e a sua prática política assenta numa lógica de confronto permanente. Ventura não constrói pontes; explora fraturas. Não agrega; polariza. A sua forma de fazer política vive da divisão e do conflito como método, e isso é incompatível com a natureza institucional e moderadora da Presidência da República.
O que une estas duas candidaturas não é o projeto, nem a visão, nem a competência. Une-as o facto de serem produtos diretos de um sistema democrático que desqualifica em vez de qualificar, que afasta perfis sólidos promovendo carreiras de sobrevivência política ou de protesto ruidoso. Uma candidatura representa o esgotamento do aparelho partidário tradicional; a outra representa a reação populista a esse mesmo esgotamento. Nenhuma representa uma solução funcional para o país.
Este resultado revela um problema mais profundo do que a escolha entre dois nomes. Revela uma democracia que passou a confundir notoriedade com capacidade, fidelidade com mérito, permanência com competência. Uma democracia que já não seleciona os melhores, mas os mais resistentes ao sistema ou os mais eficazes a explorá-lo. Quando isso acontece, o voto continua a ser livre, mas as opções tornam-se estruturalmente fracas.
Na minha opinião, o processo democrático, tal como hoje funciona, prejudicou a funcionalidade da própria democracia. Não porque falhou nas regras, mas porque falhou no resultado. Ficaram de fora pessoas com carreira profissional sólida, obra feita, pensamento estruturado e capacidade de unir o país em torno de objetivos estratégicos. Ficaram de fora os perfis que poderiam elevar a função presidencial em vez de a reduzir a um reflexo das disfunções do sistema político.
Isto não é nostalgia elitista nem desprezo pelo voto popular. É uma exigência cívica. Quando a democracia deixa sistematicamente de promover quem tem mérito, experiência e visão, o dever de quem pensa o país não é aplaudir o processo, mas questioná-lo com frontalidade.
É isso que faço aqui. Não para dividir, mas porque ambiciono um país que funcione.
CEO do Taguspark, Professor universitário